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"Faísca", um Amigo do Alheio que virou pessoa furtiva nos telhados das casas de São Luís do Maranhão

Entretenimento.

22/06/2021 19h47 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: ML
capa/ML
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#domeulivroML/Crônicas

AMIGO DO ALHEIO

*Mhario Lincoln

Minha cidade é encantada. Lendas aguçam isso, há séculos. No entanto, há lendas-vivas que viveram bem pertinho da gente boa daquela terra. É o caso de Faísca, um fogoió cara alegre, de um metro e meio de altura, magro, com talento equilibrista.

Mostrava isso correndo no trilho do bonde, sem escorregar para os lados, com muita agilidade. Se fosse artista de circo, com certeza era destaque no picadeiro. Essas qualidades, por outro lado, acabaram por levá-lo para outro rumo.

E como sempre nesta minha secular São Luís do Maranhão, tem sempre uma lenda no meio, contam que Faísca gostava demais de brincar de papagaio (a mesma pipa, chamada no resto do Brasil). Com um detalhe: ele era o cara chamado para resgatar as pipas engatadas nas cumeeiras das casas. Subia com rapidez e voltava com o ‘papagaio’ intacto nas mãos.

Numa dessas vezes, tinha chovido bastante na velha Ilha dos Amores, e o limo das telhas ficou escorregadio. Faísca pisou em falso e veio rolando para baixo. Uma queda de quase 3 metros. Levado para Policlínica, ficou em coma por uns 4 dias.

Quando acordou, segundo cochichos, não era mais aquele menino resgatador de pipas. Havia se transformado, com o passar do tempo, num dos mais aguçados arrombadores de casas, destelhando as ‘moradas-inteiras’, ‘meias-moradas’ ou ‘porta e janelas’, arquitetura comum entre as construções do centro da cidade.

Como era magro, seu corpo franzino (e com o auxílio de óleo de mamona), facilmente escorregava entre as ripas da armação do telhado. Depois saia tranquilamente pela porta da frente, como se nada tivesse acontecido. Ele geralmente assaltava casas vazias. Nunca praticou o roubo. Sempre o furto, apenas.

Se não me engano, a casa de Zezé Caveira. (R.Cajazeiras).

Conheci o nosso amigo do alheio, sempre de longe, no comercio do Zezé Caveira, na subida da rua das Cajazeiras. Caveira era um exímio artesão de papagaios de todos os tipos e cores, feitos com papel de seda, grude, linha e talo de bambu. Fazia todo tipo. Bode, Curica, Jamanta e Arraia. Tinha até o ‘kit’ completo: pipa, rabo de algodão, tubo de linha 8 e cerol de fluorescente, que a corriola fazia com a lâmpada queimada, triturada no trilho do bonde da rua São Pantaleão, misturada com goma de passar roupa e depois colocado numa latinha de extrato de tomate Elefante.

Contudo, uma pessoa ali da rua, tirava do sério nosso arrombador equilibrista, quando, depois da fama negativa, voltava lá. Era uma figura estranha, chamada Mundico Curió. Morava três casas depois da quitanda de Zezé Caveira, subindo a rua. Bastava ele tomar ‘duas’ lá pelo Mercado Central, para desacatar esse amigo do alheio.

Quando a corriola via seu Mundico subindo, com limãozinho numa mão, e sal na outra, ia ter confusão. Ele partia para cima de Faísca que retrucava: “Sô, não faço mal a seu ninga. Só entro em casa que não tem ninguém. Deu balão, eu entro”. Aí a corriola apartava os dois. Curió era um turcão de quase dois metros. Faísca, de um metro e meio. Por aí já se pode imaginar o rolo.

Cruzei com Faísca várias vezes na porta do Zezé Caveira. Sempre de longe. Porém, nunca imaginei que pudesse ficar frente a frente com ele, numa situação de risco. Nessa época tinha uns 12 anos e morava na rua do Passeio, perto dali.

Minha mãe, Flor de Lys, era colunista social e como tal, bastante conhecida. Ajudava muita gente. Fazia visitas constantes às dezenas de afilhados. Alguns deles, pela proximidade da rua das Cajazeiras/Crioulas/Santiago/Vila Isabel, região onde perambulava o Faísca.

D. Flor também ajudava casas de amparo a infância. Especialmente as que atendiam filhos de leprosos e órfãos. Eram diversas atividades. Além de fazer a cobertura jornalística dos eventos sociais noturnos.

Num desses sábados, D. Flor precisava sair e pediu para uma amiga ficar comigo e com minha irmã menor (uns 5 anos) até ela voltar.

Pois bem! Lá pela madrugada, quando D. Flor estacionava o carro na calçada, viu a portinha de entrada lateral do nosso sobradinho, aberta. Desligou o veículo, abriu o porta-malas, tirou a chave de rodas e foi na ponta dos pés saber o que se passava.

Eis que de repente, um vulto vem de dentro em desabalada carreira e os dois se atropelam e cada um cai para um lado. A luz do poste iluminou o rosto do invasor e D. Flor então gritou: “Faísca!”

Até então o ‘amigo do alheio’ não havia reconhecido minha mãe, fato que ocorreu imediatamente após o grito dela.

Diz ele: “D.Florzinha, D. Florzinha, não sabia que a senhora morava aqui. Vi tudo apagado, pensei que não tinha ninguém e subi as grades. Forcei a janela do último quarto, entrei e desci as escadas e fui procurar alguma coisa de valor”.

Nessa altura, a vizinha havia acordado.

- D Flor, tudo bem com a senhora?”, gritou do terraço da casa (muro com muro).

Então minha mãe respondeu: “Tudo bem. Tudo bem”.

Eu, minha irmã e a amiga que tomava conta da gente, estávamos no quarto da frente, em cima, com a porta fechada. Só acordamos depois dos gritos ouvidos, vindos da entrada da casa. Descemos apressados e quando chegamos na copa, estavam lá D. Flor e Faísca tomando um cafezinho fresco que ela havia feito. Corri para ver se mamãe estava bem. Ela passou a mão em minha cabeça e disse que estava. Imediatamente reconheci Faísca e aquilo me apavorou.

UMES*

Nesta foto, o prédio da União Maranhense de Estudantes Secundários (UMES). Nessa calçadinha da frente, a patota dos bairros vizinhos, Lira, Belira, Gavião, Madre Deus se reunia pra jogar conversa fora. Vez por outra via Faísca descer a rua para filar o cafezinho de uns amigos que moravam lá. 

Foi aí que eu ouvi uma das histórias mais incríveis que um arrombador poderia contar, quando D. Flor quis saber ‘como tudo começou’, usando aquele faro de boa jornalista que era: “Quando eu cai do telhado e fiquei 4 dias desacordado, nem imaginava que pudesse sobreviver. A marca da queda ficou. Vê essa cicatriz aqui em minha cara? Pois ela é a culpada de tudo isso.

Enquanto Faísca contava a história, o vigia do prédio em construção, do Hospital da Cruz Vermelha, que ficava em frente a nossa casa, vendo toda a confusão ligou para a polícia. Foi até a porta e como as luzes estavam todas acesas (da parte de baixo), voltou ao seu ponto, enquanto esperava a ‘meganha’ chegar.

Faísca e nós, sem sabermos de nada, continuávamos a conversa. Ele então completou: “D. Flor, basta chegar na boca da noite, essa cicatriz começa a doer e uma voz na minha cabeça me leva a fazer essas doidiças. Não consigo mais me controlar. Bateu 7 da noite, vem aquela vontade de perambular”.

Nessa meia conversa, para na porta um fusca da Delegacia de Furtos e Roubos, com dois soldados e um agente. Como as portas estavam abertas e as luzes acesas, eles entraram e deram com a reunião formada.

O agente perguntou se estava tudo bem, pelo que respondemos que sim. Então mandou o guarda algemar Faísca e disse:

- D. Flor, ele fez uns furtos lá pelo bairro do Anil e o Delegado Penha pediu para levá-lo direto para a delegacia de lá.

Quando o encaminhavam para a viatura, mamãe apelou: “Por favor, não machuquem ele”.

O episódio passou, todos fomos dormir. Dois dias depois, D. Flor ligou para Penha e quis saber de Faísca. Ele disse que tinha sido liberado logo no dia seguinte.

Voltei a ver Faísca mais algumas vezes na porta do Zezé Caveira. Sempre de longe.

Muito tempo depois, quando minha mãe morreu, eu e minhas irmãs fomos fazer um levantamento das coisas dela, nas caixas do escritório: fotos, documentos e recordações. Sem querer achei um pedaço de papel de caderno com pauta, dentro de um livro. Abri e lá estava escrito com uma letra quase indecifrável:

“D. Florzinha, que Deus ajude a senhora por me tratar como gente...”.

Presumi ser do Faísca!

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