O leitor como metáfora
*Rogerio Rocha
Somos, na natureza, a única espécie que lê e conta histórias. Que decifra letras. Que dá sentido a elas. Que cria e escreve sobre mundos imaginados.
Como definir, então, esse ser que lê e que somos nós?
Podemos dize que ler é, antes de tudo, a criação de um espaço de sentido, a partir da metaforização daquele que lê o grande livro do mundo.
O escritor e bibliófilo argentino-canadense Alberto Manguel nos propõe três importantes metáforas para compreendermos essa personagem: o leitor como viajante, como torre de marfim e como traça.
Se o mundo é um livro a ser lido, a vida é o plano dessa viagem e o leitor um viajante que avança, prossegue, se retira e dá saltos, de um mundo a outro, de um lugar a outro, no tempo.
Para Santo Agostinho, por exemplo, o ato de ler é uma jornada através do texto. Ler, portanto, é empenhar-se numa jornada de descobertas. Nesse sentido, perguntar por que lemos é perguntar por que viajamos.
A metáfora bíblica da torre, por sua parte, transforma-se na do leitor na torre de marfim, ou seja, daquele que se isola do espaço social e sociável para guardar-se em seu próprio mundo, ensimesmado em seus livros. Temos a imagem de um santuário intelectual, bem como de um refúgio ou abrigo. Símbolo também ligado, na história da literatura, à figura do intelectual e do ideal de vida meditativa.
A traça, por fim, nos remete à representação de alguém que devora os livros. O que implica em falarmos na forma como lidamos com os livros, como lidamos com a própria leitura. Trata-se de um leitor arrebatado, que corre o risco de perder o juízo, a sanidade, dado seu comportamento ao nível quase patológico.
Encerro concluindo, preliminarmente, que ler é viver. Ou seja: ler é uma forma de ser e estar no mundo. O leitor, por sua vez, aparece como aquilo que é: um aprendiz da vida. Ademais, a leitura e os mundos saídos da imaginação criativa, promovem o reencantamento do real. Afinal, aquilo que chamamos realidade fica muito mais interessante quando tingida pelas cores que o imaginário e o imaginado proporcionam.
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