Segunda, 27 de Julho de 2026 07:31
(xx) xxxxx-xxxx
Especiais Convidados

Convidado Especial: Paulo Rodrigues escreve sobre, "Sísifo desce a montanha: os prazeres da pedra"

Entretenimento.

08/07/2021 16h58
Por: Mhario Lincoln Fonte: Paulo Rodrigues
Paulo Rodrigues
Paulo Rodrigues

“subir foi demorado, descer é outra arte”.

(Affonso Romano) 

    Sísifo teimou com a autoridade. Queria sonhar uma nova vida. Enganou os deuses do fundo da terra, por isso foi condenado a carregar uma pedra até o topo da montanha. Toda vez que chegava lá. A pedra rola e volta. Então, é preciso reiniciar a tortura. O mito parece com a vida? Sim. As repetições da vida são castigos, aprendizagens, momento para catarse.

Continua após a publicidade

     Affonso Romano de Sant’Anna é professor, ensaísta, jornalista, poeta (um dos grandes nomes da literatura brasileira, na atualidade). Sabe cortar a linguagem com a lâmina das virtudes. Nos encanta com a capacidade de revelar o irrevelável. 

      Acabei de ler Sísifo desce a montanha. Em muitos poemas fui tomado pelo mistério profundo, do diálogo. Eu não busquei respostas, nem ele nos oferece. No entanto, oferta mais. Sai deixando pitadas de sensações das muitas mortes do poeta. É o tema geral do livro (a morte). Ele vai além? Claro. Apresenta suas filosofias da linguagem, as angústias do esquecimento coetâneo, as imagens marginais do cotidiano.

       Destaco, de início, a primeira parte do poema NUM RESTAURANTE, que está na página cento e dois. É uma aula de prazer. Com uma didática emocional, acima do lirismo vazio da literatura contemporânea:

Alguém 

preparou para mim

a comida

Continua após a publicidade

ali no fundo deste restaurante

e não vejo seu rosto.

Ouço ruídos.

 

A boa, má e anônima comida

chega à minha mesa

Continua após a publicidade

como se navios avançassem 

sem que suarentos braços

alimentassem suas caldeiras.

     Roland Barthes - no livro O Prazer do Texto - que eu tenho a quarta edição, de mil novecentos e noventa e seis (Editora Perspectiva) diz: “o texto que o senhor escreve tem de me dar prova de que ele me deseja. Essa prova existe: é a escritura. A escritura é isto: a ciência das fruições da linguagem, seu kama-sutra”. O crítico literário francês nos mostra a necessidade do texto conquistar o leitor. Não posso negar os desejos nos meus olhos. Leio a cena muitas vezes. É instigante. Desdobra-se como um tsunami dentro de mim.

     Parece uma crônica em versos, tão sutil, como um beijo sentido antes de tocar os lábios. Nas estrofes acima, temos a preparação da ruptura do ato de comer. Vamos avançar mais um pouquinho e entender:

Tudo que chega a mim

teve um drama pregresso

o grão, o tecido, o plástico

o industrial aparelho tão belo e limpo

tudo tem suor, tem sangue, tudo

veio da aflição, da ânsia 

a produzir em mim, um incerto prazer.

 

Dois homens mastigam na minha frente

riem, conversam seus negócios, telefonam

como em qualquer restaurante do mundo.

      A cena primária é retomada pelo poeta, num ato quase de análise freudiana. De repente, a vista é clareada. As aflições dos que fazem a comida recuperam os traumas de Affonso Romano. Criam uma armadilha. Preocupam a superfície da mesa. Os homens proprietários apenas mastigam. Só o artista é um neurótico diria Barthes.  

      A estrofe final do poema promove o mesmo prazer no leitor e no escritor como veremos:

[...]

Longe, nos subúrbios

onde prospera a fome

meu prato

está sendo preparado

por toscas criaturas

e nunca saberei seus nomes.

    A insatisfação com a comida é nítida. Há sinais de prazer na reflexão poética dissonante. Só nas palavras mora a propriedade, que sustenta o discurso. Parece que sentimos a fome de quem prepara e não se alimenta. Affonso Romano é um transgressor, buscando o prazer.  

------------------------

Paulo Rodrigues (Caxias, 1978), é graduado em Letras e Filosofia. Especialista em Língua Portuguesa, professor de literatura, poeta, jornalista. É autor de vários livros, dentre eles, O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018). Ganhou o prêmio Álvares de Azevedo da UBE/RJ em 2019, com o livro Uma Interpretação para São Gregório. Venceu o prêmio Literatura e Fechadura de São Paulo em 2020, com o livro Cinelândia. É membro da Academia Poética Brasileira.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Kalil Guimarães Há 5 anos atrásBrasília DFPaulo Rodrigues, não nega a tradição. Caxias, berço de grandes poetas. Aplausos!
EDOMIR MARTINS DE OLIVEIRAHá 5 anos atrásSão LuísExtraordinário texto do confrade Paulo Rodrigues. Verdadeira aula de conhecimentos literários. Como enriquece ao leitor lê-lo! Obrigado Paulo.
Rilnete Melo-Escritora /cordelistaHá 5 anos atrásPindaré Mirim -MAA cada leitura do Paulo Rodrigues um encantamento e o orgulho de ser conterrânea dessa fera da literatura maranhense. Para mim um dos grandes poetas da atualidade.
Paul MontlhamaHá 5 anos atrásLille FranceConstruction poétique inimaginable: "comme un baiser avant de toucher les lèvres", Monsieur Pauló
Kako Travassos (jornalista/Rede)Há 5 anos atrásRio de Janeiro/RJ, nascido em Bom Jardim MANão é à toa que o Mhario tem citado Paulo Rodrigues em todas as suas entrevistas, destacando-o como um dos grandes poetas vivos do Maranhão. Concordo com Mhario Lincoln em gênero, número e grau.
Mostrar mais comentários
Mostrar mais comentários
Curitiba, PR
Atualizado às 06h01
12°
Tempo limpo

Mín. 12° Máx. 23°

12° Sensação
1.16 km/h Vento
98% Umidade do ar
0% (0mm) Chance de chuva
Amanhã (28/07)

Mín. 13° Máx. 26°

Tempo limpo
Quarta (29/07)

Mín. 16° Máx. 27°

Tempo limpo
Ele1 - Criar site de notícias