
Do Livro: “Finalmente A Noiva Chegou (parte II)
Edomir Martins de Oliveira
Vice-Presidente Nacional da Academia Poética Brasileira-APB
UM CASAMENTO POÉTICO
Cântico 8:7 – “As muitas águas não poderiam apagar o amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, seria de todo desprezado”.
Era um fim de tarde muito bonito. O astro rei cumprira sua missão de espargir luz à terra e agora cedia espaço para a lua e as estrelas. Poetas e outros amantes da poesia e da literatura reuniam-se agora em um Salão da Academia de Letras, para dividir experiências, trocar ideias, recitar suas poesias.
Foi nesse romântico local, e em um desses momentos que os dois se encontraram, ela com 40 anos e ele com 45. Ambos, eram solteiros e sem filhos.
Declamados os seus poemas, um se aproximou do outro e elogiou sua poesia. Ela, por sua vez, disse que se encantara com seu poema que falava de amor bem-sucedido. No desenrolar da conversa, ele a convida para tomarem um café, conversariam um pouco. Trocariam ideias, e transmitiram, um ao outro, inspiração para novos poemas.
Depois desse primeiro café, outros encontros se tornavam cada vez mais frequentes, quando um exibia ao outro, seu último poema. Três meses depois, reconheceram estar apaixonados. Não eram mais crianças para ficar trocando figurinhas. Falaram às claras e confessaram seu amor recíproco.
Após alguns meses, sentiram a necessidade de casar, pois queriam resolver seus problemas sentimentais, porém isso só ocorreu um ano depois.
Marcada a data para o casamento, o pai da noiva, que também era poeta, se propôs a recitar uns versos de sua autoria, por ocasião do evento. Ele estava com 70 anos, era viúvo e do alto de sua viuvez, encontrou consolo na poesia e tivera belas inspirações. Recitaria no dia do casamento ao entregá-la ao noivo.
A noiva, acatando o que o pai se dispusera a fazer, por seu turno, disse que faria também um recitativo de sua autoria. Assim seria feito.
No dia do casamento o pai conduziu a noiva ao altar e a entregou ao noivo recitando de sua autoria:
Dou-te filha, em casamento.
Que sejas muito feliz.
E desejo neste momento
O que nosso Cristo diz:
Amem-se como um inteiro
Pois Deus nos amou primeiro.
O noivo a recebeu cheio de amor declamando:
Meu sogro, muito obrigado
Por esta noiva tão linda
Que recebo apaixonado
Nesta tarde que se finda.
Será nosso grande amor
Como ensinou o Senhor.
A noiva, cheia de felicidade, recitou então voz:
Sempre disse que um dia
Viria meu grande amor
Que chegou como eu queria
Mandado pelo Senhor.
Nós juntos nos amaremos
Pois no amor nós cremos.
Iniciou-se então a cerimônia de casamento, tendo o Celebrante feito bela homilia. Pediu as alianças para as costumeiras bênçãos sacerdotais, o que fez também em versos, pois era de uma Academia Poética:
Alianças são redondas
Não dizem quando começa
O amor. Nem se haverá ondas
Que de crescer o impeça.
No dedo só traz doçura
E muito amor e ternura.
Então a cerimônia prosseguiu e o Celebrante quando lhes pediu o SIM, eis como se expressaram:
Cheios de muita emoção
Por declararmos assim,
Tendo Deus no coração
Dizemos ante Ele: SIM.
Que os anjos digam também
Todos juntos, um amém.
Depois de casados, ouviu-se uma voz, pedindo que se houvesse um médico presente, prestasse assistência a um convidado que desmaiara e precisava de socorros. Um cardiologista se fez presente de logo.
O homem levava as mãos ao peito como quem estivesse sentindo dores profundas no tórax. O médico ao examinar viu que o homem não desmaiara, que se tratava de uma simulação de doença cardíaca. Como o médico também era poeta improvisou de sua autoria:
Homem, isto é fingimento.
Não, não estás doente.
Neste belo casamento
És só um homem que mente.
Levanta-te, sem demora
Precisas logo ir embora.
Foi então que o casal de jovens adolescentes pajem e dama, de 14 e 15 anos, filhos de poetas, em versos de pé quebrado, contendo rimas, começou a recitar:
Um fingidor nesta hora,
Só de atenções e amor.
Temos que mandá-lo embora
‘Tá espalhando terror.
Pois, o vemos com tristeza
Querendo tirar do momento a beleza.
Era o editor de livros da noiva, que tinha enorme simpatia por ela e queria conquistá-la, o que não tinha tentado, porque ela se mostrava muito esquiva e não lhe dava oportunidade para a manifestação de amor.
Ela, seria sua parceira na venda de livros, e com certeza faria a livraria crescer muito, pois se casassem fariam uma sociedade nos negócios da venda de livros na sua editora, porque inegavelmente era ela a escritora que mais vendia livros.
O editor ao ver o filão perdido, simulou um ataque cardíaco e quando foi descoberto retiraram-no da Igreja e ele saiu debaixo de enorme vaia da meninada que lhe chamava de enrolão e lhe dizia que ele não valia nada. Era homem sem valor nenhum.
Ele, então, saiu envergonhado. Os seus sonhos da conquista amorosa daquela poetisa morreram.
Ao se retirar, ouviu ainda, como castigo final a voz do Celebrante, concitando os noivos a observar o que recomendava a Bíblia Sagrada em Colossenses 3:14: “E sobre tudo isto, revesti-vos do amor, que é o vínculo da perfeição”.
Vão na Santa Paz do Senhor e sejam muito felizes.
E os noivos enquanto faziam a sessão de fotos, escutaram um casal de declamadores recitando de viva voz, ela, o soneto “Amor”, de Luís de Camões e ele, o “Soneto de Fidelidade”, de Vinicius de Moraes:
AMOR
Luís de Camões
Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
SONETO DE FIDELIDADE
Vinicius de Moraes
De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama,
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Assim deixaram os noivos a Igreja ainda ao som de violinos tocando: “Eu sei que vou te amar” de Toquinho e Vinicius de Moraes.
Mín. 13° Máx. 20°