A SERIE SEX /LIFE - A SEXUALIDADE DA MULHER ENTRE TEXTOS, POEMAS E REFLEXÕES.
*Sharlene Serra
Controle na mão, uma rede, uma solitude, trio perfeito, para encarar uma série na tela os top 10 Brasil.
E lá estava liderando: A série Sex /Life. O discorrer não é nada de críticas do roteiro ou uma análise apurada, aqui é apenas uma mulher como qualquer outra, que aperta o ok e a série inicia...
Embora o conteúdo seja algo comumente falado, o assunto sobre a vida sexual feminina ainda sobrevoa muitos questionamentos e muitas mulheres até hoje omitem e escondem suas intenções, seus desejos, sua libido, por receio de serem apontadas, pois a sociedade (infelizmente) ainda as rotula.
Mesmo com todo empoderamento e liberdade já construída, muitas mulheres ainda convivem com a solidão a dois:
[...] Ele chega, mas continuo só.
Dou “boa-noite”, ele fala com a cabeça e
segue para a cozinha,
sigo também.
Ele bebe água, eu,
o último gole de esperança.
E sussuro, olhando para a sua boca:
— Tô morrendo de sede...de sede...
E ele, na tentativa inútil
de ser gentil,
oferece o que tem...
Estica seu braço e me entrega o copo.
meu coração craquela,
não acredito no que vejo, sigo
para meu quarto decidida.
penso em sair de casa,
com o desejo incontrolável
de matar minha sede.
É da necessidade desta sede que a serie aborda.
Nos coloca à frente dos nossos desejos, medos, insatisfações e permite que olhemos a um espelho para enxergarmos como realmente somos, amar o que vemos, não apenas o refletido, mas aquilo que está oculto também.
Saber o que realmente nos preenche em nossas relações faz toda a diferença e precisamos tanto quanto os homens , viver nossa sexualidade de forma plena.
Ainda presenciamos muitas mulheres vivendo conflitos, quanto a idade, corpo, TPM, intimidade, o ser mãe, o ser mulher, a menopausa, ausência de libido relacionada mais por questões emocionais do que fisiológicas, se censurando por ter desejos, fetiches, ir ou não a um sexshop, e se anular por não se permitir viver mediante os tabus já herdados por anos, e assim, muitas ignoram suas emoções, fantasias e vivem tal qual o escrito no poema:
DESERTO-ME
O coração há tempos
não germina.
Ausências da vegetação
Não pulsa por novas paisagens
miragens
Nada floresce.
Terra fértil
porém infértil, ressecada.
Por falta de adubo.
Não chove mais em desejo.
Na lembrança, beijos áridos
Tudo é cerrado
Mata seca
Solo rachado
Dentro dela, cactos secos
não brotam flores,
paisagem morta
nada viceja.
nem uma gota
de verde.
(Sharlene Serra)
Somos frutos de uma educação repressora, na qual a mulher não tinha voz, imaginem essa mulher expor seus desejos sexuais? E esta educação ainda se mantem nos dias atuais, de forma discreta, mas existe. A mulher busca secretamente, o simples : desejar e ser desejada. Mesmo em tempos atuais, em que a mulher se torna mais independente, moderna, liberal, o assunto em questão, não é algo tão simples, pois muitas ainda vivem escondidas dentro de si mesmas. Para algumas, essa liberdade é engaiolada, o medo acaba prevalecendo e as afastando de novas relações, algumas se mantem em relacionamentos abusivos, fracassados, sem amor, pois tem medos inclusive de separar, e desabafam:
- quero continuar viva! O feminicídio grita.
A estatística mostra os casos. Isso existe, queria que fosse ficção, mas não é.
Nas relações, sobre as dificuldade apontadas pelas mulheres, as mais comuns: falta ou dificuldade de atingir o orgasmo (anorgasmia), vagisnismo (contração involuntária da musculatura da vagina impedindo ou dificultando a relação), frigidez (falta de interesse pela atividade sexual), insegurança, timidez, seja por vergonha do próprio corpo (que não estão iguais aos padrões de beleza), vergonha de se despir para o outro, medo de julgamento etc. são exemplos clássicos. A partir daí, uma sequência de impedimentos nascem, povoam a mente feminina e vão se aumentando com o tempo.
Tudo se entrelaça, mas a verdade que nas relações não existirá perfeição, ninguém encontrará o que busca na sua totalidade, mas o equilíbrio precisa fazer parte, a admiração deve ser reciproca, os diálogos (inclusive sexuais), envolvimento, adrenalina, a leitura do Kama Sutra a dois, um pouco do tudo, sem isso corre o risco da relação entrar em colapso.
E a serie nos vai mostrando ... Billie a protagonista, vivendo a fase do ser mãe, mas isso não a impede de desejar seu esposo, de querer momentos com ele, porém ele, assim como muitos homens ao ver a mulher/ mãe, não a deseja mais como mulher (os homens se tornam geleiras ambulantes), como se o ser mãe, eliminasse o potencial de sedução existente , como se a mulher precisasse se focar apenas para o filho e sua sexualidade se diluísse com a amamentação, com a rotina da maternidade, e muitos homens ignoram a mulher neste momento de extrema fragilidade, onde ela acaba não se sentindo atrativa e isso desencadeia inclusive depressões, muitos homens alegam que a mulher que se afasta neste período, porém o diálogo é fundamental e muitos esquecem dele.
Billie a personagem central, está em êxtase, imagina sua liberdade sexual quando era solteira, e se encontra no hoje, uma mulher com desejos acumulados , suas vontades são ignoradas, olha com admiração e desejo para seu esposo que não a percebe, o trabalho é o que o mais excita e ela Billie, se sente só, mas as suas imaginações a fazem companhia, imaginações de um passado sexualmente tórrido que ela descreve em detalhes em um diário.
Observando comentários acerca da série, a mulher continua sendo apontada como a errada da história, poucos comentários existem sobre o esposo Copper que ao ler o diário da mesma , gosta e se excita com o lido, porém não aceita que a esposa tenha vivido tais experiências, se recusa a conversar e tenta buscar se comparar ao ex-namorado Brad, enlouquecendo no terceiro episódio, em meados dos 19 minutos e cinquenta segundos, onde Cooper segue Brad e vê o tamanho da sua nudez. Lembrando que a Billie não faz referência a este detalhe.
A desinformação existe e muitos homens ignoram o que realmente faz uma mulher feliz, lembrando que os tempos e motivos de excitação se diferem, homens amam ver, são instintivos e as mulheres são emocionais, amam ouvir, sentir. Uma coisa é certa:
"Uma mulher que experimenta o sabor do fogo, jamais se contentará com o gelo". Sharlene Serra
E a serie vai conversando não apenas com as mulheres, mas com casais, independente da orientação sexual, faz repensar sobre as situações da nossa própria vida. Uma série escrita e dirigida por mulheres, que nos revela o quanto ainda precisamos discutir e propagar estes assuntos para que a liberdade ocorra de dentro para fora , em todos os sentidos , que a mulher possa se permitir, sabendo que sua sexualidade a torna viva.
Onde começa meu mundo
Meu mundo começa nos teus olhos
se espalha por teu rosto, desce vertiginoso
por teu peito e pelo teu dorso,
invade tuas entranhas , escorre pelas
tuas pernas e teus braços,
e não acaba nem nas pontas dos teus dedos
Meu mundo começa nos teus olhos
de fogo, se expande entre as muralhas
e dispersa-se ao vento, sobe aos ares,
penetra-me nas profundezas da alma inquieta,
e me consome de amor etéreo
Meu mundo começa no teu olho aberto, aceso
de pálpebras e cílios/labaredas,
de Iris e pupilas/ fogueira –
um fogo profundo, onde me resvalo
e calo e sumo no piscar de teus olhos.
(Anna Liz)
O poema é o grito que desejamos, mas fica os questionamentos:
Quantas mulheres ainda vivem escondidas em si? Quantas mulheres aceitam as condições impostas como ideais? Relações migalhas, abusivas, sem prazer, sem sentimentos, tal qual o personagem Cooper, onde a partida de futebol é pra ele mais excitante.
E no último episódio da temporada, Billie encontra-se entre a razão e a emoção, diante os flashbacks vistos e das ausências por ela sentida, não me cabe julgá-la. Que venha a segunda temporada.
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Sharlene Serra – de São Luís Maranhão, poeta, escritora. Graduada em desenho industrial, pedagogia e especialista em Ed. inclusiva, Participou de diversas antologias/coletâneas nacionais. Tem 7 livros publicados. Membro da Academia Poética Brasileira, vice presidente da AJEB- Associação de Jornalista e Escritoras do Brasil, coordenadoria do Maranhão, membro da AILB - Academia Internacional de Literatura Brasileira
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