* Paulo Rodrigues
Não fico sem o sal da poesia. Peguei o livro Sentimento do Mundo (Companhia das Letras, 2012) no final da tarde. Numa rede azul, na varanda de casa, revivi os anos antes da Segunda Guerra Mundial. São vinte e oito poemas distribuídos em cinquenta e quatro páginas. São textos em prosa poética, poemas carregados de humor, versos brancos e modernos que contam os sofrimentos e medos do homem.
O nazismo estava organizado para criar um genocídio que marcaria a história humana. Getúlio Vargas era um ditador tupiniquim reprimindo as liberdades entre nós. A vida estava cada vez mais caótica (sem norte).
Neste contexto de total insegurança Drummond começa a amadurecer sua produção poética. Sentimento do Mundo está dentro de uma geografia complexa, que fundará a poesia mais sociológica do poeta de Itabira.
O livro traz um poeta ainda ligado ao ambiente de estreia de Alguma Poesia (1930) quando apresenta questões amorosas: “os beijos não são importantes. / no teu tempo nem haverá beijos”. No entanto, lança o eu lírico para as questões políticas e sociais: “aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição/ porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan”.
Trabalharemos com a AD de Linha Francesa para demonstrar o interdiscurso social implícito em alguns poemas da referida obra. Na busca pela memória discursiva analisaremos o texto Congresso Internacional do Medo (2012, p. 24):
Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio, porque este não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.
O poema dialoga com o clima de desumanidade, instalado antes da Segunda Guerra Mundial, por isso as palavras dizem muito sobre a aflição coletiva. Reparem, inclusive, no uso da primeira pessoa do plural: “Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,/ não cantaremos o ódio, porque este não existe, /existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro”.
O medo é localizado. Tem direção. Segue os passos do conflito como nuvem armando-se para a tempestade. O poeta enuncia as formações discursivas do mundo, daquele momento: “o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos/ o medo dos soldados”.
Sabe que a humanidade carregará a ferida na alma. Mesmo após a nossa reconstrução em “cimento armado”, seremos seres menores e frágeis: “cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte./ Depois morreremos de medo/ e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas”.
Em A Noite Dissolve os Homens (2012, p. 44), dedicado ao pintor Cândido Portinari, que lutou contra o totalitarismo do Estado Novo, instala-se uma leitura individualizada da realidade nos primeiros versos: “ a noite desceu. Que noite!/ Já não enxergo meus irmãos/ e nem tampouco os rumores/ que outrora me perturbavam”. Essa noite com interjeição, é o espanto de Drummond com a alienação das massas. Todos estavam conduzidos para o abismo como se estivessem brincando de “pata cega”: “Que noite!”.
Os escombros das utopias ficaram em exposição por muito tempo. A voz coletiva está ali e bate palmas. Segundo Orlandi: “ as palavras não são dos enunciadores, por meio da língua e da história elas vão significando, perpassando o discurso. Fazendo pensar que o sujeito sabe o que diz”. Tudo na linguagem é inconsciente e coletivo. A voz do poeta é dele, só dele a sua forma de dizer, ao mesmo tempo é nosso alto-falante: “A noite anoiteceu tudo.../ O mundo não tem remédio.../ Os suicidas tinham razão”.
Fecha o poema com uma tela do pós-impressionismo: “e o sangue que escore é doce, de tão necessário/ para colorir tuas pálidas faces, aurora”. Crava a esperança na construção de uma vida mais justa depois da barbárie. A aurora é o símbolo do renascimento em Carlos Drummond de Andrade.
Ele finaliza o livro com uma pequena obra prima chamada Noturno à Janela do Apartamento (2012, p. 54):
Silencioso cubo de treva:
um salto, e seria a morte.
Mas é apenas, sob o vento,
a integração na noite.
Nenhum pensamento de infância,
nem saudade nem vão propósito.
Somente a contemplação
de um mundo enorme e parado.
A soma da vida é nula.
Mas a vida tem tal poder:
na escuridão absoluta,
como líquido, circula.
Suicídio, riqueza, ciência...
A alma severa se interroga
e logo se cala. E não sabe
se é noite, mar ou distância.
Triste farol da ilha rasa.
A palavra noite aparece mais de vinte vezes em Sentimento do Mundo. Guarda o espaço da reflexão, dos medos, da alienação coletiva. Não por acaso o poeta decide se noturnizar para na abertura: “Silencioso cubo de treva:/ um salto, e seria a morte/ Mas é apenas, sob o vento,/ a integração na noite.” O suicídio que é a solução em A Noite Dissolve os Homens, no final é descartado.
A existência é inexplicável, sem rumo, nem norte: “A soma da vida é nula./ Mas a vida tem tal poder:/ na escuridão absoluta,/ como líquido, circula”.
Enfim, Drummond vive a interrogação e como um bom mineiro entende o barulho das coisas, calado: “ a alma severa se interroga/ e logo se cala”. Não importam os trabalhadores, os sentimentos poéticos. Ele é um pequeno farol (dentro de uma memória discursiva) trágica.
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