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Edomir Martins de Oliveira conta uma história de amor emocionante, com técnica e apreço

Contos/Prosa

30/07/2021 às 12h16 Atualizada em 01/08/2021 às 17h26
Por: Mhario Lincoln Fonte: Edomir Martins de Oliveira
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Ilustração, ML
Ilustração, ML

Do Livro: “Finalmente A Noiva Chegou (parte II)

Edomir Martins de Oliveira

Vice-Presidente Nacional da academia Poética Brasileira- APB

QUANDO O AMOR CURA

Isaías 40:29 – Faz forte ao cansado e multiplica as forças ao que não tem nenhum vigor.

Quando casaram ele tinha 22 anos e ela 19. Ela filha de um fazendeiro no interior do Estado e ele habituado a lidar, por tradição de família, com a agricultura. Casaram no interior do estado mesmo, e ali firmaram suas raízes. Foi uma belíssima festa de casamento em um clube social do interior, o melhor que ali existia.

 Ele, agora, idoso, com seus 80 anos, embora não aparentasse  essa idade, gozava ao lado de sua esposa, das delícias que a avançada idade propicia, quando de repente se viu sozinho, pois a perdera, ela que fora sua companheira, amiga, amante, que sempre tivera ao seu lado apoiando-o em tudo.  Uma queda a levara à morte. Quebrara o fêmur, e logo após a cirurgia, foi vítima de um deslocamento de coágulo sanguíneo que subira para os pulmões, que lhe causou uma embolia pulmonar. Foi irreversível, apesar de todos os cuidados médicos. Essa tragédia aconteceu na capital, onde fora o casal a passeio, visitar os filhos.

O corpo dela foi trasladado para o interior, pois ela sempre dissera que, se morresse antes dele, queria ser enterrada na sua cidadezinha interiorana. Após a missa do 7º dia, os filhos voltaram para a capital. Ele agora estava triste e sozinho curtindo na solidão, a saudade da sua amada esposa, pois não queria ir morar em companhia dos filhos apesar dos insistentes convites. Ali era o seu cantinho, na companhia dos seus empregados e amigos que o visitassem, levando para ele palavras de conforto. 

Daí em diante, começou a ser vítima de profunda tristeza. Só vivia deitado em uma rede que se habituara a usar e da qual gostava muito. Chorou vários dias consecutivos, e depois o choro foi espaçando, embora a tristeza fosse visível em quem o visse. Teve o casal 6 filhos, que se constituíam toda a alegria deles. Contudo, estes nada puderam fazer, a não ser leva-lo ao médico para as consultas necessárias, para tirá-lo dessa prostração em que se encontrava. Medicado voltou para o interior, pois pedia aos filhos que jamais o tirassem do seu cantinho, onde vivera muito feliz ao lado de sua inesquecível esposa. Os filhos viram, então, que suas atividades diárias, não lhes permitia dar assistência total ao pai, pois cada um, já adulto, tinha suas atividades. Resolveram contratar então duas cuidadoras que se revezavam na assistência ao querido pai.

Dessas cuidadoras, uma fez questão de trabalhar durante o dia, pois era casada e não queria deixar seu marido desassistido durante a noite, e a outra preferiu trabalhar durante o turno da noite, pois era solteira e dormiria durante o dia. Acertado assim com as cuidadoras, veio a apresentação delas para toda a família, tendo um neto do paciente, de dez anos, indagado dela: - Tia, você não ronca durante a noite, não é? Meu avô nunca gostou de alguém que roncasse durante a noite.- Ela então achando graça, respondeu ao garotinho que nem dormiria, pois, estando de serviço tinha que ficar bem atenta ao paciente.- Esse depoimento foi um passo para conquistar os filhos.

Edomir de Oliveira, autor.

Um deles chegou a afirmar que ela, uma cuidadora, ostentando seus 55 anos, tinha os atributos para ser uma boa profissional, pois na entrevista tinha sido muito bem-sucedida, levando a acreditar ser cuidadosa, e ter as condições necessárias para desempenhar bem seu trabalho, pois era auxiliar de enfermagem e dizia saber dispensar toda atenção ao paciente. Sabia medir pressão arterial, verificar temperatura, aplicar-lhe remédios preliminares para uma possível febre, e aplicar-lhe remédios para vômitos ou distúrbios gastrointestinais. Só precisava que deixassem aos seus cuidados uma caixinha de remédios com os produtos que o médico prescrevera e indicara até para primeiros socorros. Esses cuidados todos animaram muito os ânimos dos filhos do viúvo. A cuidadora já sabia do seu estado emocional pela perda da esposa, e tudo faria para levar-lhe um pouco de alegria.

  Com o passar dos dias, o viúvo dava sinais de que à noite sentia-se mais animado, levando a acreditar que as atenções da cuidadora o estavam restabelecendo, ou, na pior das hipóteses, acalmando-o um pouco mais. Ela dava-lhe muita atenção. Conversava com ele; os dois assistiam televisão juntos. Ela até chegava a perguntar-lhe que programas desejava assistir. Ele que inicialmente estava tão desinteressado de tudo, agora começava a se interessar por programas onde estavam sendo exibidas telenovelas e programas humorísticos. Interessava-se ainda, em saber as notícias de telejornais aos quais sempre dedicara especial atenção.   

Chegava até a comentar com ela algumas cenas de telenovelas, conquanto não perdesse muito tempo com elas. Ela estava lhe dando atenção há mais de 6 meses e sempre o estimulava para prosseguir. Depois, comentando com o filho mais velho, disse-lhe que ele dava sinais de quem estava caminhando pelo caminho certo, o que ele e os irmãos já tinham observado. A neta mais velha estava retornando de residência médica no sul do País, em Hospital muito conceituado em Geriatria. Foi visita-lo e fez uma avaliação de sua saúde, tendo atualizado seus medicamentos, pois viu que ele estava se recuperando muito bem. 

Que a cuidadora continuasse dedicando-lhe muita atenção. Foi aí que ela interferiu, dizendo que isso ela já vinha fazendo, e até acreditava mesmo que suas atenções estavam contribuindo para seu restabelecimento. Já tinha se apercebido de que a cada dia ele apresentava alguma melhora a mais, faltava-lhe, contudo, uma atualização dos remédios o que estava sendo feito naquele momento. 

 Foi então, que os filhos se reuniram para escutar esse depoimento e ficaram muito felizes. Aquela cuidadora estava tratando realmente muito bem do seu paciente e ele estava se mostrando entusiasmado para recuperação.

E agora começou nova história. O viúvo fez questão de revelar aos filhos que estava maravilhado com o tratamento e todas as atenções que a cuidadora vinha lhe dedicando. Os filhos tinham observado que das seis horas em diante, à semelhança do que contava Exupéry no Pequeno Príncipe, quando a raposa esperava ansiosamente por ele:  - “Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz”-.   Ele ficava mais animado pela espera da cuidadora, dando sinais de que a ela estava se afeiçoando.  Estava ele até pensando se não valia a pena um namoro com ela. Assim ela teria mais cuidados para com ele. 

Demonstrado esse interesse, os filhos espantaram-se, pois, voltar a querer outra mulher nunca lhes passara pela cabeça. Não aprovaram a ideia, tendo apenas o filho mais velho, e sensato de todos, achado que era válido o interesse demonstrado. Ele só receava que ela não estivesse de acordo, e ele novamente voltar ao estado anterior. Foi aí que a filha mais velha das mulheres, disse ao irmão, que disso não tinha dúvidas, de que ela aceitaria, pois estava falando como mulher que já vinha analisando o comportamento da cuidadora, e havia concluído que suas atenções não eram só profissionais, mais de uma mulher nele interessada.

De tudo, só o que nunca lhe passou pela cabeça era que iria ter uma madrasta. Mas se fosse para ver seu pai bem, que ela não tinha nada a opor, pois a cuidadora era zelosa, dava-lhe muita atenção e acreditava que essas atenções seriam maiores ainda se ela fosse contemplada com um casamento. Seria a recompensa pelo seu desvelo como profissional. 

         Conversaram com a profissional e viram o brilho dos seus olhos serem diferentes. Quando eles perguntaram se ela aceitaria um namoro com ele, disse que sim, mas que precisava ter com ele uma conversa mais próxima para saber o que ele o que ele pensava, porque afinal era uma mulher de 55 anos e era um passo muito grande que estava dando. Que ela conversaria à noite com ele. Assim feito, ele agora mais entusiasmado, pediu-lhe só que lhe desse mais um pouco de tempo, que ele casaria com ela, iria falar com os filhos. Quando ela lhe disse que eles estavam de acordo, então foi uma alegria só.

Anunciaram aos filhos que agora estavam namorando, mas o desejo deles era casar dentro de mais uns seis meses, após o luto, quando estivesse dando sinais de maior restabelecimento. Só o fato de saber que iria casar, voltou o interesse e alegria da vida.

Foi aí que uma vizinha maldosa, chamou a atenção da neta médica para o fato de que acreditava que a cuidadora queria casar com ele de olho na pensão que ele iria deixar quando morresse. A neta, então, respondeu-lhe que na sua família não havia esses julgamentos maldosos do próximo, e que a futura esposa do seu avô sempre demonstrou um comportamento que não deixava dúvidas quanto ao seu bom caráter. 

Mais alguns dias o casal foi surpreendido, pelo filho mais velho, de mãos dadas e troca de discretos beijos.

Com a aprovação dos filhos e presença de todos os familiares e alguns amigos, casaram em cerimônia simples, onde foram advertidos pelo Celebrante em bela Homilia, que estivessem atentos ao que recomendava a Bíblia Sagrada em Isaías 40:29 – Mas os que esperam no Senhor renovam as suas forças, sobem com asas como águia, correm e não se cansam, caminham e não se fatigam.   Com esta união abençoada por Deus, sejam muito felizes.

Com casamento e o tratamento recebido pela nova esposa, parecia que tinha rejuvenescido 10 anos. O que o amor não faz!!! 

 

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