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Convidados especiais: Luciah Lopez volta com sua poesia à flor da pele: "Migrações"

PROSA/POESIA

09/08/2021 18h47 Atualizada há 1 mês
536
Por: Mhario Lincoln Fonte: Luciah Lopez
Convidados especiais: Luciah Lopez volta com sua poesia à flor da pele:

MIGRAÇÕES

Luciah Lopez

 

o dia começa

meu pai está aqui

a vida e a morte andam juntas

feito a ferida e a casca

 a repulsa e o nojo são os cavalos dessa loucura

 

cavalgando a poesia na pressa do existir

me acostumei ao suor e ao fel 

como as anêmonas e os peixes à solidão abissal

 

vejo o meu sangue no espelho quebrado

 e os meus ancestrais gritam 

em cada glóbulo e em cada hemácia recém nascida

 um pouco da tortura dos corvos na carne abjeta

 

sei que não sou de lugar algum

a raiz e nem a flor

assim como a abelha que faz veneno e mel

sabe a razão do seu breve existir

ou mesmo conta os dias em cada pôr do sol

ou a sanha do tubarão entorpecido

é tormento praquele que será o seu alimento

 

jamais voltarei a olhar àqueles olhos de adeus

porque cada um sabe a urgência dos seus passos 

os caminhos de ditadura eterna são o interior da serpente

ossos vísceras e vértebras 

regem a peçonha na malemolência da língua

 

meu pai está aqui

segura a minha mão e

me conduz pela sala

pelos quartos

sobre os livros empoeirados e mofos

pelas engrenagens do velho relógio

pelos quadros antigos 

pelo quintal e jardim

 

entre espinhos sombras e a escuridão das palavras rotas

todos os meus medos uivaram

desatrelando a velha canga 

livramento do espinhaço sob o peso das asas molhadas

 

é quase noite na inércia dos pensamentos

meu pai segue ao meu lado

é preciso catalogar as misérias 

cortar do corpo os brotos e figos podres

olhos de peixe e calosidades

e indagar pelos cachorros perdidos e sem nomes

dar-lhes nomes e água para beber.

 

quem sabe isso os faça voltar a um estado de felicidade

quando as chuvas retornarem molhando a boca da terra.

gatos e cachorros bodes e cabras

homens e meninos sem nome caminham lado a lado

 

em sua cegueira são como aves migratórias

que perderam a rota voando em círculos

tudo passa por mim como miragens

 

ilusórias são as horas os dias os meses os anos

a resposta é dissolvida e desaparece na memória

eu não me importaria tanto com a dor

não fossem esses pássaros famintos voando ao redor

com seus olhos de rubi e seus bicos de jade

 

meu pai me perguntou: qual o seu nome? 

jamais pude responder

mesmo raspando a minha pele com uma faca

nunca descobri o meu nome

isso dói demais por me sentir como animal selvagem

acuado

farejando no ar a umidade de uma chuva vindoura

anunciada em nuvens escuras

 

aquela presença não decodificada

se avoluma em maré sanguínea e engole a lua e o sol

e todas as notas daquela canção

fazem silêncio agora e o céu escuro 

é denso útero de precárias tiranias

meu pai solta a minha mão

e eu experimento violenta e ofensiva tristeza

de estar só

tive mil vidas

terei mil vidas

e a substância adocicada que escorre dos meus poros

é o avesso de cada lágrima que não chorei

==============

Luciah Lopez é membro da Academia Poética Brasileira, escritora, poeta e cronista.

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