MIGRAÇÕES
Luciah Lopez
o dia começa
meu pai está aqui
a vida e a morte andam juntas
feito a ferida e a casca
a repulsa e o nojo são os cavalos dessa loucura
cavalgando a poesia na pressa do existir
me acostumei ao suor e ao fel
como as anêmonas e os peixes à solidão abissal
vejo o meu sangue no espelho quebrado
e os meus ancestrais gritam
em cada glóbulo e em cada hemácia recém nascida
um pouco da tortura dos corvos na carne abjeta
sei que não sou de lugar algum
a raiz e nem a flor
assim como a abelha que faz veneno e mel
sabe a razão do seu breve existir
ou mesmo conta os dias em cada pôr do sol
ou a sanha do tubarão entorpecido
é tormento praquele que será o seu alimento
jamais voltarei a olhar àqueles olhos de adeus
porque cada um sabe a urgência dos seus passos
os caminhos de ditadura eterna são o interior da serpente
ossos vísceras e vértebras
regem a peçonha na malemolência da língua
meu pai está aqui
segura a minha mão e
me conduz pela sala
pelos quartos
sobre os livros empoeirados e mofos
pelas engrenagens do velho relógio
pelos quadros antigos
pelo quintal e jardim
entre espinhos sombras e a escuridão das palavras rotas
todos os meus medos uivaram
desatrelando a velha canga
livramento do espinhaço sob o peso das asas molhadas
é quase noite na inércia dos pensamentos
meu pai segue ao meu lado
é preciso catalogar as misérias
cortar do corpo os brotos e figos podres
olhos de peixe e calosidades
e indagar pelos cachorros perdidos e sem nomes
dar-lhes nomes e água para beber.
quem sabe isso os faça voltar a um estado de felicidade
quando as chuvas retornarem molhando a boca da terra.
gatos e cachorros bodes e cabras
homens e meninos sem nome caminham lado a lado
em sua cegueira são como aves migratórias
que perderam a rota voando em círculos
tudo passa por mim como miragens
ilusórias são as horas os dias os meses os anos
a resposta é dissolvida e desaparece na memória
eu não me importaria tanto com a dor
não fossem esses pássaros famintos voando ao redor
com seus olhos de rubi e seus bicos de jade
meu pai me perguntou: qual o seu nome?
jamais pude responder
mesmo raspando a minha pele com uma faca
nunca descobri o meu nome
isso dói demais por me sentir como animal selvagem
acuado
farejando no ar a umidade de uma chuva vindoura
anunciada em nuvens escuras
aquela presença não decodificada
se avoluma em maré sanguínea e engole a lua e o sol
e todas as notas daquela canção
fazem silêncio agora e o céu escuro
é denso útero de precárias tiranias
meu pai solta a minha mão
e eu experimento violenta e ofensiva tristeza
de estar só
tive mil vidas
terei mil vidas
e a substância adocicada que escorre dos meus poros
é o avesso de cada lágrima que não chorei
==============
Luciah Lopez é membro da Academia Poética Brasileira, escritora, poeta e cronista.
REPLAY IHGM 100 anos de preservação e construção da identidade maranhense
12/10/2026 A Fé: Luiz Dernizo Caron é convidado da Plataforma Nacional do Facetubes
ESPECIAIS A Permanente Luta das Mulheres pela Quebra de Tabus na Política Brasileira
Especiais Projeto Arte em Fibra transforma saberes de mulheres maranhenses em coleção de bolsas e oportunidades de renda
CÍRIO DE NAZARÉ Do casco dos barcos às ruas de Belém: a arte ribeirinha veste o Círio e transforma tradição em renda
Especial CINEMA Sharon Stone é uma atriz, modelo e produtora norte-americana. É uma boa atriz e tem muitos filmes na carreira. Mín. 10° Máx. 19°
Mín. 10° Máx. 17°
Tempo nubladoMín. 11° Máx. 21°
Tempo nublado
Colunista Socorro Guterres COMO UM CÃO: O ABSURDO JURÍDICO EM O PROCESSO
Coluna de RUY PALHANO Dr. RUY PALHANO em texto que fala profundamente sobre a “perda do sentido e o vazio exsistencial”
Academias Brasil/Exterior Coirmãs João Ewerton celebra 50 anos de pintura e revela, em sete fases, as raízes culturais do Maranhão
Coronel Carlos Furtado De Carlos Furtado:“A DIFÍCIL ARTE DE SER POETA”