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Convidado especial: o pensador e escritor Rogério Rocha publica hoje o conto: "O Visitante"

Prosa e Poemas

12/08/2021 17h19 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Rogério Rocha
Rogério Rocha.
Rogério Rocha.

O VISITANTE

Por Rogério Rocha

Rubens escrevia todas as noites. 

Tinha por hábito começar a elaborar seus textos jornalísticos depois de desincumbir-se de uma leva de atividades corriqueiras, como ler as dezenas de mensagens de WhatsApp dos muitos grupos, visitar sites de notícias e ligar para alguns contatos.

Preparava seu gabinete de trabalho com a luminária focada por sobre algumas anotações que consultava, vez ou outra, numa caderneta, colocava sua playlist de blues no aplicativo de músicas preferido e deixava o volume baixo, para não incomodar no raciocínio. Abria um pouco a janela para refrescar o ambiente com a brisa noturna e, por fim, posicionava sobre a escrivaninha uma xícara de café com leite.

Nesse dia começara o ritual um pouco mais tarde. Eram quase onze da noite quando se sentou para iniciar os trabalhos. Ainda assim, deveres são deveres. Seu ganha pão, afinal, era aquele, e quem trabalha em jornal sabe que os prazos correm contra si como o tempo corre contra todos.

Vinte minutos depois de começar a digitação do artigo que mandaria para publicação no matutino de Domingo, num estalo de trinco que o deixa assustado, a porta do escritório abre-se lentamente. Volta-se para ela num giro rápido de pescoço. Não havia ninguém.

Passado o susto, respira fundo, balança a cabeça em sinal de contrariedade, levanta-se e vai até lá fechá-la de novo. Retorna à cadeira, senta-se, ajeita-se, toma um gole de café e diz para si mesmo: “Puta merda! Que susto da porra!”

Após alguns minutos de trabalho, já esquecido do episódio, alguém toca a campainha do apartamento. Ato contínuo, vocifera, dessa vez em voz alta: “Pronto! Excelente hora para uma visita!”

Rubens, que mora sozinho e pouco recebe pessoas, sobretudo àquele horário, acha estranho. Não havendo muito o que fazer, tira os óculos do rosto e os põe sobre a mesa. Levanta-se, arruma o cabelo e segue até a sala. 

Lá chegando, como é de costume, mira pelo olho-mágico. Nada vê. 

Abre a porta, para confirmar, e dá dois passos para fora da sala. Não encontra ninguém no corredor. Um silêncio sem tamanho toma conta do ambiente. 

Caminha até o elevador e vê sua porta aberta, mas dentro não há ninguém. No mesmo instante, dá meia volta e retorna a sua residência.

O fato o deixa intrigado, afinal, há pouco tempo vivia naquele edifício que, por ser recém-inaugurado, quase não tinha moradores. Além do mais, no quarto andar um único apartamento era habitado. O seu próprio. Os outros três estavam vazios e à venda.

Ressabiado, Rubens tranca a porta e espia outra vez pelo olho-mágico. Fica na mesma posição durante uns três minutos, pelo menos. Vendo que nada aconteceria, afasta-se dali. 

Antes de voltar ao serviço que interrompera, passa na cozinha e bebe um pouco de água. Acende um cigarro, vai até a sacada, olha para baixo, espreita a rua e as cercanias, fuma e resolve ir para a cama. Àquela hora, nada mais produziria.

Já passa de meia-noite quando, após cair no sono, ouve tocar novamente a campainha. Dessa vez são três toques, firmes e pesados. Seu sangue gela, sobe-lhe à cabeça, a pressão arterial parece aumentar. O coração dispara e, também num disparo, levanta-se e lança-se rapidamente em direção à porta.

Num misto de raiva e curiosidade, movido pelos instintos mais que pela razão, apressa-se em abri-la. 

Novamente nada encontra. Só há tempo de ver a porta do elevador fechar-se e ele começar a descer. 

Não pensa duas vezes: segue para as escadas e, correndo o risco de rolar degraus abaixo, tenta, atabalhoadamente, chegar lá embaixo antes do elevador. Só assim poderá descobrir quem o perturba em plena madrugada.

Ao chegar ao térreo, encontra-o de novo com a porta aberta, sem passageiro. 

Atrás de si um homem velho, bem baixinho, de cabelos muito brancos e roupas sujas, acabava de sair pelo portão do prédio. Inexplicavelmente a portaria está deserta. Não há porteiro nem zelador. Ninguém vigia o imóvel.

Bruscamente, Rubens volta-se em direção ao homem, gritando: “Desgraçado! Vou acabar com tua vida, seu miserável!” 

Em sequência, sai rua afora a perseguir o velho.

Por ser muito jovem, pensa que facilmente o alcançará, mas, para sua surpresa, nota que o desconhecido era muito mais rápido que imaginara, despontando à sua frente com surpreendente velocidade.

Na rua deserta, as luzes queimadas dos postes deixam a madrugada um breu. Enquanto isso, grita com o velho enquanto corre: “Pare aí, seu miserável! Volte aqui seu desgraçado?”

O pequeno vulto abre vantagem. Sem olhar para trás, o homem corre, seguindo a rua em sua extensão reta. Lá no final, quando enfim parece que Rubens começa a se aproximar dele, o fugitivo empreende novo fôlego e, num sprint sobre-humano, adentra um matagal.

Cansado, e sem acreditar no que ocorre, o jovem jornalista estanca em frente à mata onde o vulto se embrenhara. No meio da escuridão, respira esbaforido. Depois curva-se, cansado, com as mãos sobre as coxas, a cabeça baixa, quase sem fôlego e à beira de um ataque cardíaco.

Um minuto depois, a menos de dez metros, em meio ao sopro frio da madrugada, envolto pela penumbra da via deserta, percebe um outro vulto sair do mato onde entrara o misterioso velho.

À distância, em meio aos contornos imprecisos de tudo o que a noite oculta, Rubens consegue divisar, na medida em que move-se em sua direção, um grande e feio cachorro, cujos pelos pretos lhe servem de manto de invisibilidade. 

Não fosse pelos olhos vermelhos, que brilham como pequenas lanternas, e por um rosnado gutural, cujo som gradualmente se avoluma, sequer saberia que o terror caminhava ao seu encontro.

Imobilizado pelo sinistro oponente, o desafortunado jornalista começa a tremer. Seu corpo inteiro treme, suas pernas fraquejam, seu semblante se contrai. Percebe que há urina nas calças ao chacoalhar a perna esquerda. A testa, já fria, cobre-se ainda mais de suor. O último fio de razão que lhe habitava a consciência despede-se naquele momento. Vê a vida e a morte correrem frente aos olhos petrificados. Num último arroubo de força, dá meia volta e começa a correr.

Numa repentina mudança de posições, Rubens é agora a caça, não mais o caçador. E sua recente tentativa de pegar o homem que lhe interrompera o sossego vê-se trocada pelo desespero puro e simples. Pela improvável fuga de um animal abjeto saído das brenhas do denso matagal. Numa corrida tresloucada em direção a qualquer lugar.

A besta aumenta a velocidade da corrida, enquanto, em seu último fôlego, a infeliz presa tenta, sem sucesso, chegar até o prédio. 

No meio do caminho, após tropeçar em seus próprios pés, Rubens cai. Em fração de segundos, é finalmente alcançado pela fera das trevas, que ainda o permite rolar ao chão, ficando, assim, com as costas e o cotovelo o asfalto, mas de frente para o seu perseguidor.

O cão avança sobre a vítima, tomado de fúria. A arranha e morde, cravando em seu antebraço os caninos afiados, embebidos pela espuma da saliva quente que sai da sua boca. 

Em meio ao espernear do embate, perdido na solidão da rua escura, Rubens grita em desespero, sem que ninguém o ouça. 

Com a pata direita, de garras enormes, o obscuro cachorro atinge pesadamente o olho esquerdo do jovem que, no mesmo ato, estraçalhado, perde a visão. A partir daí, só o inferno pareceria pior do que a horrenda cena que se revelava como a pintura do cenário do seu último ato na existência.

E com seu único olho são, enquanto fortes mordidas trituravam sua carne, Rubens via aproximar-se, por detrás do cão gigante, saído da mata que o escondera, o velho macabro, a quem por instantes perseguira. 

Com um sorriso no rosto, e a mesma velocidade com que fugira, correu até o jovem e atirou-se sobre ele com uma faca na mão, cravando-a, sem piedade, em sua garganta. Quando o sangue espirrou sobre seu peito, um grito cortante ecoou pela noite.

[...]

Após um clarão de raio e o barulho de um trovão, num sobressalto, Rubens desperta. 

Com os olhos quase saltando das órbitas, o coração aos pulos, suado, com a boca seca, mãos trêmulas e a respiração ofegante, descobre estar ali, em sua cama, dentro do seu quarto. 

O relógio digital sobre a mesa de cabeceira marca quatro horas. Ainda é madrugada. Tudo não passara de um pesadelo. Um terrível e perturbador pesadelo, que nunca imaginou viver, tão nítidas as imagens, as formas e os sons.

Respira fundo, busca retomar o fôlego e o controle das emoções. Afinal, está vivo, dentro do seu apartamento, a sós e a salvo da noite e do frio que faz lá fora. É o que mais importa agora.

Reza três vezes o Pai Nosso e a Ave Maria. Repete incontáveis vezes o sinal da cruz. Enfim, acalma-se. Cobre-se com o lençol, deita lentamente a cabeça sobre o travesseiro, relaxa no silêncio da noite, no sagrado recinto do quarto. Fecha os olhos, suspira, e, exausto, busca entregar-se ao sono. Logo chegará, ele sabe. Logo chegará. Sente estar prestes a dormir.

Nesse momento, a campainha toca novamente.

 

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