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Especial: conto do acadêmico APB, Eloy Melonio, revela surpresa no final. Boa leitura

Acadêmico Eloy Melonio, da Academia Poética Brasileira

14/08/2021 13h26 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Eloy Melonio
Autor: Eloy Melonio.
Autor: Eloy Melonio.

A ÚLTIMA NOTÍCIA

 Acadêmico Eloy Melonio, da Academia Poética Brasileira

Já eram quase onze da noite, e eu, já bocejando, ansiava pelo conforto da minha cama. O telefone toca, e uma voz pausada me dá uma notícia indesejada. Mal podia acreditar no que estava ouvindo:

― Liguei pra comunicar que o Betinho morreu.

Do outro lado da linha, Érico, um amigo da época em que, recém-casado, cheguei ao Jardim Alvorada, bairro de classe média baixa, onde morei por quase treze anos. Lá nasceram minhas duas filhas, e lá fiz grandes amigos. O Érico era o mais chegado, um quase irmão.

Meu novo bairro era calmo, com gente simples e simpática. Todo mundo se conhecia, e todo mundo era amigo de todo mundo. Ruas estreitas, a maioria das casas era do tipo porta-e-janela, uma apegada à outra. Comércio variado, uma pracinha com árvores, um playground. Crianças na rua, adultos sentados na calçada. O Alvorada é só felicidade.

Não demorou muito e eu já era parte de uma turma que gostava de futebol e da cervejada depois das peladas. E que, eventualmente, vestia uniforme e se passava por time de futebol.

Depois da pelada de futebol de salão no sábado à tarde, a gente ia direto para o VILBAR, o barzinho da Vilma, onde se tomava cerveja e se jogava conversa fora. Só saíamos depois das dez. Era o momento em que discutíamos as principais jogadas da tarde: falha do zagueiro do outro time, frango do nosso goleiro, um golaço meu. Havia também as intermináveis polêmicas sobre futebol e política. E muita brincadeira. Algumas até de mau gosto, como pôr no copo do amigo remédio que dava “caganeira” (desculpe o tabuísmo, mas era a palavra que a gente usava). A Vilma era uma “morenaça” e atraía os olhares dos menos avisados. É que ela tinha uma namorada, e não dava a mínima para os homens. Às vezes, a conta não fechava. E aí o jeito era negociar com ela. E só o Érico era jeitoso com essas coisas. E sempre conseguia pendurar parte da conta para o sábado seguinte.

Tempo bom aquele, quando ainda não havia redes sociais. Tínhamos mais afeição e mais intimidade. Fazíamos de tudo, inclusive jogar dominó sob a luz de um poste até tarde da noite.

Depois que saí do Alvorada, fui perdendo o contato com esses amigos. A cidade crescia, e ― assim como eu ― alguns também se mudaram para os novos conjuntos habitacionais. Eu morava longe e não podia mais estar com eles como antes. Anos mais tarde, já separado do grupo, eventualmente encontrava um ou outro em algum lugar. Minha vida era outra: novos amigos, nova rotina social.

Apesar disso, a amizade com Érico continuava nas conversas telefônicas. Ele mantinha contato com quase todos os outros e me repassava as notícias. Em geral, nada agradáveis. E também me ligava no Natal, no Ano Novo, e no meu aniversário.

Quando atendia suas ligações, já me antecipava em tom de brincadeira: Quem morreu dessa vez?

― Ninguém. Graças a Deus, não foi morte.

E me contou sobre o Diego, o zagueirão do nosso time. Gordo, e com mais de sessenta anos, sofreu um AVC e estava numa cadeira de rodas. Morava agora num condomínio popular perto do aeroporto e ainda não tinha linha telefônica. Por isso Érico só soube do acontecido dois meses depois, quando encontrou o primo dele num supermercado. E, assim, sugeriu que lhe fizéssemos uma visita.

Nos últimos anos as notícias eram cada vez mais trágicas, como essa da morte do Betinho. Nada de convite para um aniversário, ou coisa parecida. Meses depois da visita ao Diego, fui ao enterro do Edgar, meu vizinho do lado esquerdo. Separado da Melissa, entregou-se desesperadamente à bebida...

Nesse meio tempo, Érico conseguiu uma proeza: reuniu sete amigos para assistir à final da Copa de 2002 (Japão/Coreia do Sul), quando o Brasil se sagrou pentacampeão do mundo. E o local não podia ter sido outro senão o VILBAR, agora mais arrumadinho, com mais espaço e TV grande. Durante o jogo, pulávamos e gritávamos a cada grande jogada, especialmente nos dois gols de Ronaldo, o Fenômeno. Estávamos, enfim, revivendo os bons tempos e lembrando nossas presepadas. Sem, no entanto, esquecer o Betinho, o Diego e o Edgar. Depois desse dia...

No Alvorada, eu tinha bom relacionamento com todo mundo. Só um incidente manchou essa convivência saudável. Emprestei meu cartão de crédito ao Rui, que queria comprar um fogão a gás top de linha para a esposa no Dia das Mães. E o velho ditado prevaleceu: perdi o dinheiro e perdi o amigo.

Os anos se passaram e as conversas com Érico já não eram tão constantes. O que não mudava era a natureza das notícias. Exceto, como já disse, quando ligava para me felicitar por alguma coisa. A última vez foi há cinco meses, no Dia dos Pais.

Nessa oportunidade, falou-me de seu cunhado Evaldo, o único da nossa turma que não trabalhava e não jogava bola. Era gente boa, mas se envolveu com o tráfico de drogas e estava preso na penitenciária estadual. E deu-me detalhes da separação do João Alberto, depois que este descobriu que sua mulher o traía com o Ricardo Abreu, seu vizinho e melhor amigo.

Em nosso último contato, Érico me passou seu novo número, pois havia perdido seu celular. Depois disso, o tempo congelou nossas conversas. Já não me ligava há mais de um ano. Cheguei a imaginar que perdera o meu número, ou coisa pior. Tenho até vergonha de que isso pareça falta de caráter, mas, estava ― de certa forma ― “aliviado” por ter me livrado das notícias que ele fazia questão de me relatar.

Ontem, quase às onze da noite, atendi, perplexo, uma chamada do Érico:

― E aí, Érico! Quanto tempo, hein? Pensei que tinha se esquecido de mim. Alô? Érico?

Insisti, mas a ligação caiu. Liguei de volta, e nada. Achei estranho, mas, como só tinha esse número, não podia falar com mais ninguém. Nessa noite, quase não dormi, imaginando o motivo da ligação do Érico.

No dia seguinte, às 6 da manhã, ouvia o Cidade Viva, na VIDA NOVA-AM. Antes de encerrar o programa, o locutor ― como de costume ― chama o repórter que sempre fala direto de algum ponto da cidade, geralmente com uma “bomba”: “(...) Um senhor de sessenta e três anos foi vítima de latrocínio ao chegar a sua casa ontem por volta das 22h45. Os assaltantes lhe deram dois tiros e levaram seu carro. Um fato curioso é que, ainda vivo, ele segurava seu celular, como se tentasse ligar para alguém. E o número mais recente na tela do celular era...”.

Soltei um grito: Ai meu Deus! Era o Érico!

 

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