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Mundo JAZZ & SWING

Escritores convidados: Augusto Pellegrini e "A Lógica do Absurdo". Capítulo 04. Parte III

Com vídeo bônus ao final.

19/08/2021 09h02 Atualizada há 4 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Augusto Pellegrini
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AS CORES DO SWING

Livro de Augusto Pellegrini

Capítulo 4 – A lógica do absurdo – Parte 3

 

Da mesma forma como a interdição dos bares e cabarés de Storyville – o bairro boêmio de Nova Orleans – foi um dos fatores que determinaram o êxodo dos músicos de jazz tradicional para o Rio Mississipi acima, promovendo uma saudável expansão da cultura musical do Sul, também as dificuldades advindas da Recessão forçaram a diáspora de muitos músicos para os diversos recantos do país, funcionando como um fator multiplicador.

O jazz tradicional começara a ocupar sistematicamente todos os quadrantes dos Estados Unidos durante a década de 1920, de Montana ao Texas e da Califórnia ao Maine. Na década seguinte, foi a vez da invasão do swing. Em ambos os casos, o país acabou sendo o grande beneficiado, pois enriqueceu muito em termos de música e de cultura.

Basin Street, Storyville.

Centenas de bandas brancas e negras se deslocavam incessantemente de trem ou de automóvel, cobrindo todo o território americano num ir e vir constante, saindo de Illinois e Nova York e passando pelo Mississipi, pelo Colorado, Nebraska ou Kansas, tocando às vezes cada noite em uma cidade diferente, e colaborando desta forma para a divulgação do jazz – dixieland, chicago ou swing – num país musicalmente conservador, que ainda misturava a placidez das valsas européias ou a interpretação dramatúrgico-operística com a popular western country music típica do interior americano.

Estas caravanas musicais e a crescente divulgação dos discos de jazz através do rádio e das lojas começavam a unir o país de uma forma homogênea e foram aos poucos mudando os hábitos do cidadão comum, o que ajudou a consagrar o swing como a música americana por excelência, diferente de tudo o que se fazia ou que se fizera até então.

Apesar de, lá fora, o mundo enveredar por caminhos tenebrosos, os Estados Unidos passavam por uma recuperação financeira e moral, dentro da qual o swing não só serviu para unir os americanos em torno de uma ideia como também transformou esta ideia em algo que significava amor pela causa americana.

Banda tocando em Storyville.

De repente, gostar do swing passou a ser um sinal de patriotismo.

Para as orquestras, o swing também significava trabalho, prestígio e a oportunidade de mostrar o talento dos músicos, de modo que as suas apresentações, onde quer que fossem realizadas e apesar das viagens cansativas, sempre deixavam no fim algo de positivo.

Evidentemente, este tipo de excursão em boa parte das vezes era um tiro no escuro e nem sempre lucrativa. No entanto, estas caravanas musicais trouxeram uma vantagem a médio prazo, pois possibilitaram às orquestras difundir a sua música "moderna" pelos interiores do país e fazer com que o swing – ou aquilo que era o seu embrião – começasse aos poucos a se consolidar nacionalmente.

Durante os anos 1920 e a partir daí, a difusão do jazz por todo o território americano trouxe também o benefício da integração racial dentro da música, fato que aos poucos começou a ser claramente notado e que evidenciava uma grande evolução em termos culturais e humanísticos.

A vontade de mostrar o seu trabalho e a necessidade de sobreviver da música pela música estabeleceu entre os músicos uma convenção muda e não escrita que nos faz recuar para o que acontecia nos guetos dos primeiros anos de Nova Orleans.

Lá, negros e brancos coexistiam de uma maneira pacífica e ordenada, apesar da desorganização desenvolvimentista da cidade. Mesmo fazendo parte de sociedades diferentes – os brancos e creoles eram considerados a elite, com alguns direitos e privilégios, como o acesso a certos eventos sociais e a camarotes nos teatros de ópera, sendo destinado aos negros o trabalho mais pesado e menos nobre – eles interagiam sem maiores problemas, tornando o convívio agradável e sem arestas.

Dance club e restaurante em New Orleans.

Os músicos, qualquer que fosse a sua raça, vivenciavam os mesmos problemas, enfrentavam as mesmas dificuldades, tocavam a mesma música nos mesmos lugares e acabaram por criar o mesmo tipo de jazz. Apesar dos inevitáveis resquícios da escravidão, oficialmente extinta em 1863, as diferenças de raça e de cor eram contornadas com muito jogo de cintura em virtude da natureza da cidade.

Nova Orleans professava todo tipo de religião e de cultura. Com a mesma facilidade com que se ouvia uma opereta ou um canto napolitano, podiam ser ouvidas canções espanholas ou advindas das Guianas. Os negros ainda cultivavam os cânticos voodoo que haviam trazido no início do século dezessete – com as evidentes adaptações sofridas em mais de duzentos anos por influência do Novo Mundo, o que não inviabilizava o canto gospel cristão. A cidade era cosmopolita e abrigava toda a sorte de pessoas e, devido à sua localização geográfica privilegiada, já naquela época era um dos mais importantes portos do país.

Lá moravam e conviviam amistosamente os nativos, os negros libertos e seus descendentes, e os creoles – bem-aculturados mestiços de negros com franceses e espanhóis – além de judeus, antilhanos, franceses, italianos, alemães, espanhóis e holandeses e de aventureiros de toda espécie, numa interessante Babel de línguas e de costumes.

Muitos residiam em habitações coletivas, e na verdade uns dependiam dos outros. Esta necessidade de sobrevivência colocou a política racista num plano secundário, pra não dizer quase inexistente, entre eles. Com a sua expansão territorial, o jazz começava a transformar o país, pelo menos musicalmente, numa imensa Nova Orleans.

Por outro lado, a chegada do jazz em Chicago e Nova York não teve uma repercussão muito positiva dentro do núcleo de habitantes. Lá, o branco já estava estabelecido e, portanto, não via com bons olhos a invasão negra do sul à procura de trabalho. Como a migração era inevitável, pois não havia leis que a pudessem controlar, os brancos pouco podiam fazer com respeito ao problema, a não ser exercer a sua porção racista nas coisas do dia-a-dia.

 King Oliver Band.

Nem todos os negros, porém, subiram o Mississipi. Alguns se dirigiram para a costa oeste, onde encontraram um ambiente com certeza menos hostil, embora também menos receptivo ao desenvolvimento da sua música.

Assim, ambos os casos (o fechamento de Storyville por um lado e a Recessão pelo outro, dois eventos indesejados do ponto de vista social e humano) tiveram o condão de projetar o jazz, fazendo com que pouco a pouco ele fosse tomando conta de todo o território nacional.

É claro que esta integração do jazz iria acontecer algum dia de alguma outra forma, mas estes acontecimentos acabaram acelerando o processo. O importante é que quaisquer que tenham sido os meios, a história da música norte-americana deu uma formidável guinada em menos de vinte anos, mudando culturalmente a cara do país.

Esta adoção musical não limitou sua influência ao território americano.

Com exceção dos países do bloco comunista, que levariam outros cinquenta anos para aderirem ao jazz, todo o restante da Europa assimilou o swing, contribuindo para um salutar imperialismo musical que respeitava o folclore e a cultura de cada região ao mesmo tempo em que adicionava muita qualidade à música do Velho Continente, como se verá adiante.

Vídeo Bônus: Basin Street Blues

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