
"Longe da Árvore", Andrew Solomon.
O grande mérito do livro é mostrar uma outra perspectiva daquilo que a sociedade muitas vezes julga como deficiência/transtorno/desvio de comportamento.
(*) ALÉMDACONTRACAPA/ALEXANDRE KOENIG DE FREITAS/MARIANA FONTANA SZEWKIES
O que acontece quando pais têm filhos que não se ajustam aos padrões familiares? Em Longe da Árvore, Andrew Solomon investiga o que acontece com famílias que precisam se reajustar a filhos que são diferentes do esperado. Imagine pais que descobrem que seu filho é surdo? Ou tem Síndrome de Down? Ou é anão? Ou é transgênero? Tratam-se de deficiências/transtornos e portanto devem ser corrigidos ou se tratam de identidades?
Em sua obra, Solomon diferencia dois tipos de identidade. Por um lado, temos as identidades verticais, que são aquelas características obtidas através da família, como etnia, língua e religião. Já as identidades horizontais são aquelas que se diferenciam das encontradas no seio familiar, como uma deficiência ou uma orientação sexual diversa. Curiosamente, famílias tendem a celebrar identidades verticais, pois são vistas como qualidades; enquanto as identidades horizontais são objeto de tratamento, pois são vistas como defeitos.
Solomon explora dez tipos de identidades horizontais, transitando em meio a famílias que tiveram de apreender a lidar com as mais variadas situações, indo desde a surdez e esquizofrenia até a genialidade. Apesar de casos distintos em sua natureza, todos eles desafiam a "zona de conforto" familiar e o grande mérito do livro é mostrar uma outra perspectiva daquilo que a sociedade muitas vezes julga como deficiência/transtorno/desvio de comportamento.
“Não existe isso que chamam de reprodução. Quando duas pessoas decidem ter um bebê, elas se envolvem em um ato de “produção”, e o uso generalizado da palavra “reprodução”, com a implicação de que duas pessoas estão quase se trançando juntas, é na melhor das hipóteses um eufemismo para confortar os futuros pais antes que se metam em algo que não podem controlar.” (SOLOMON, 2013, p. 11)
O mais interessante é que além de fornecer esta outra perspectiva, Solomon levanta inúmeras indagações com o intuito de provocar o leitor. Devemos curar o autismo ou estaríamos privando uma pessoa de ser quem ela verdadeiramente é? Pais com deficiência têm o direito de reproduzir ou deveriam abster-se de dar à luz a um filho que provavelmente carregará a mesma deficiência? Crianças diagnosticadas com deficiência devem ser abortadas?
Longe da Árvore é um livro que fala de forma direta sobre a relação entre pais e filhos, sobre o vencimento do preconceito, o processo de aceitação e até mesmo da celebração da diversidade. O mais incrível de tudo é observar que pais que abraçaram as identidades horizontais de seus filhos passaram por experiências enriquecedoras e que, apesar do sofrimento, jamais optariam por filhos “normais” ou “saudáveis”. E mais: pais que encontraram até mesmo um propósito de vida na identidade dos filhos.
Apesar de ser um livro de não ficção, Solomon utiliza de uma linguagem acessível e fluída, ilustrando todas as identidades com inúmeros exemplos de famílias que enfrentaram estas circunstâncias. Por ser um livro extenso, optei por ler aos poucos, a fim de não perder nenhuma de suas lições, o que me pareceu uma opção acertada visto que o livro pode se tornar cansativo em alguns momentos.
“Estamos mais perto do que nunca do direito à vida, à liberdade e à busca da felicidade. Cada vez menos pessoas se mortificam por ser o que verdadeiramente são.” (SOLOMON, 2013, p. 793)
Mesmo olhando para situações de sofrimento e até mesmo de desespero, o que se sobressai é o afeto e a superação. Em Longe da Árvore, somos levados em uma jornada emocionante e impactante sobre a identidade, aceitação e a essência do amor.
Título: Longe da Árvore
Autor: Andrew Solomon
N.º de páginas: 1050
Editora: Companhia das Letras
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