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Todos nós buscamos o nosso sonho. "A CASA DA BASE", novo texto da articulista Joema Carvalho

"O intelecto não é a máxima dos meninos. A inteligência é física".

25/10/2021 às 10h59 Atualizada em 26/10/2021 às 10h31
Por: Mhario Lincoln Fonte: Joema Carvalho
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Ilustração: ML
Ilustração: ML

A CASA DA BASE

Joema Carvalho

Meninos de várias regiões do país realizavam testes visando uma vaga no time de futebol. Vinham em caravana. Muitos sem dinheiro, na caridade de um ente querido, seguiam na busca de um sonho. Ele fora um dos poucos que conseguiu uma oportunidade naquele time série A. Teve que mudar para outro Estado.

Passou a residir em uma casa simples, junto de outros garotos da base. Era uma casa de tamanho médio. Em cada quarto ficavam de dois a quatro jogadores. Havia meninos de todas as regiões do Brasil. O futebol era também, algo social. Filhos de famílias sem condições, quando tinham sorte de serem encontrados por “olheiros”, ganhavam uma possibilidade de mudar de vida e sustentar a família. No clube tinham quatro refeições balanceadas de qualidade. Em um determinado momento, após o reconhecimento, muitos recebiam bolsas, proporcionais a sua faixa etária e qualidade do jogador. As “tias” da casa, tornavam-se uma espécie de mães adotivas, dando suporte emocional, financeiro e resolvendo questões burocráticas, exigidas pelo clube. Acabavam educando alguns meninos. Os que não tinham força emocional para ficarem longe dos pais, mesmo sendo excelentes jogadores, com alto potencial, retornavam para casa.

As responsáveis eram duas mães que eram pagas pelo clube para cuidar deles. Eram religiosas de times diferentes. Com frequência, levavam os meninos para os encontros religiosos para convertê-los.

À noite, uniam-se na torcida do Big Brother Brasil. Momento em que estavam na mesma arquibancada. O som alto na sala, enquanto os meninos tentavam dormir, era constante. O cheiro de fritura de batata, pipoca e hambúrguer caracterizavam o contexto da noite. O panorama do campo de visão era vasto, limitado aquela tela, cheia de conteúdo, assim como um copo transbordando de ar.

No meio do futebol, o intelecto não é a máxima dos meninos. A inteligência é física. Eram superdotados. Extrapolavam a lei da física visando o objetivo do jogo, o gol. A dor física era rotina. Uma constante que passava despercebida e ignorada.

Estar ali exigia senso de coletividade e apoio mútuo. Não era a maioria que resistia ao meio de campo. Vencia a partida quem possuía a melhor ginga e drible diante das adversidades. Eles defendiam a equipe. Jamais um era o culpado pelo problema da partida. Os valores eram adquiridos através da vivência do futebol.

Dias e noites transcorriam no movimento daquela esfera. Sozinho, adolescente, resistia a distância. O cansaço lesionava o corpo. Arrancava espremendo forças que o levassem para a sua realização. A inconstância e a incerteza corroíam toda uma expectativa. Faziam-lhe forte. O seu máximo vinha junto da bola pega no ar. Parecia voar. Extrapolava os seus limites e fluía em sua busca.

Hoje, entrega-se ao vento. Caminhos abertos além de uma partida.

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Joema Carvalho, Curitiba – PR, engenheira florestal, doutora, perita. Autora do livro Luas & Hormônios, selecionado e editado pela Secretaria do Estado da Cultura (2010). Participação em várias coletâneas nacionais e internacionais e em projetos literários.

Contato:

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Livro da autora

https://www.amazon.com.br/Luas-Horm%C3%B4nios-Joema-Carvalho-ebook/dp/B08P1Z987P

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