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Convidada especial, a imortal APB Luciah Lopez escreve sobre um interessante tema: "A Morte do Anjo"

"No outro dia levamos flores ao enterro do anjo e eu chorei mais uma vez..."

25/10/2021 às 12h49 Atualizada em 26/10/2021 às 10h30
Por: Mhario Lincoln Fonte: Luciah Lopez
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Ilustração: ML
Ilustração: ML

A Morte do Anjo

LUCIAH LOPEZ

Mal eu desci do carro e meu primo Marcus, veio correndo contar a novidade... Nós vamos ver o anjinho que morreu... Vem Iaiah, corre! Levei um tempo para entender o que ele estava dizendo – um anjo morreu?! Como pode?? Será que ele caiu do céu?!! Larguei tudo e saí correndo junto com meus primos e primas e as outras crianças que moravam na fazenda. Minha avó ficou gritando, mas nem cheguei a dar-lhe um beijo, o anjo morto era mais importante.

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Afinal, eu nunca tinha visto nem anjo vivo! Fomos todos em fila junto a cerca de arame farpado, seguindo o caminho dos bois  até o rio onde tem uma ponte. Eu fui em silêncio - um anjo morto... Como ele é? E as asas, como são?? Com penas iguais as penas dos gansos?! Fui interrompida dos meus pensamentos quando chegamos ao rio e uma das meninas começou a falar sobre o boi “alongado” que matou o anjinho – então as coisas ficaram piores para o meu entendimento, afinal eu estavas com sete anos e o meu mundo ainda era de faz de contas e boi “alongado” não existia!! A única coisa que eu sabia ser “alongada”, era a carroceria do caminhão da fazenda – meu avô tinha me dito isso. 

Caminhei mais um pouco e depois da ponte, mais um caminho de bois e já se podia  ver a casa onde estava o “anjo”... Meu coração começou a bater mais rápido e mais rápido e eu fui ficando para trás na fila de crianças, com medo de ver o anjo morto!! A casa era simples, de trabalhadores do café, era feita de madeira sem pintura e janelas com taramelas e o único luxo eram florzinhas plantadas em latas de óleo, e  a imagem de uma santa pendurada na parede.

Subimos os três degraus da varanda e entramos na casa em silêncio - eu a última, nem conseguia engolir a saliva tamanha era a minha ansiedade. No meio da sala, dois bancos de tábuas lavadas sustentavam um caixão pequeno tendo aos  quatro cantos velas acesas... Algumas das mulheres chorando,  abraçavam a uma outra, que estava vestida de preto, e sentada junto do caixão. Meus primos chegaram bem perto para olhar o anjo, e eu fiquei de longe. Então Nasser me chamou: -Vem ver Iaiah. Olha, é Léo! -Que Léo?! Foi o que consegui falar com a voz quase sumindo. – Aquele que anda com as pernas de pau. Senti uma dor imensa no peito – Léo?! Mas nós brincamos de pernas de pau...

Então o Léo era um anjo?!! Como?? Ninguém tinha me dito isso. E agora ele está morto e por um boi “alongado” e eu continuava sem saber o que era essa coisa de “boi alongado”- tentava imaginar o tamanho do bicho! Finalmente meu tio chegou para nos levar para casa, eu criei coragem e olhei dentro do caixão.  Vi o rosto do Léo - ele estava dormindo! Só isso, estava dormindo!! Comecei a fazer perguntas, mas meu tio me mandou calar, que depois falaria sobre isso, em casa. Seguimos para o carro num silêncio pesado e absoluto!! Quando passamos pela estrada que dá acesso a cidade, vimos uma multidão - meu tio diminuiu a velocidade do carro para passar e olhamos para ver o que estava acontecendo.

Eram os colonos e o pai do Léo que estavam queimando o “boi alongado” depois de tê-lo matado à pauladas. Gritavam e batiam com paus na carcaça esfarrapada do boi – era só um boi marrom e de tamanho normal! Mas o castigo foi o mesmo. Senti meus olhos embaçados e as lágrimas caíram quentes e amargas - as mais amargas que já havia sentido!

Chorei pelo meu amigo Léo e pelo boi. Tudo na mesma proporção. "Foi uma fatalidade", disse o meu tio e depois explicou o que era uma fatalidade. "Ninguém tem culpa quando um raio cai e provocando um incêndio, como ninguém tem culpa quando nas cheias, o rio transborda levando tudo que encontra pela frente. Fatalidade é a Mão do Destino mexendo com nossas vidas, ninguém é culpado, devemos entender e aceitar as fatalidades". No outro dia levamos flores ao enterro do anjo e eu chorei mais uma vez...

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Luciah Lopez é membro da Academia Poética Brasileira

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Faisal IskandarHá 5 anos CuritibaQue maravilha!! Não é a toa, que sou fã de Luciah Lopez. Palmas para essa artista.
Pedro SampaioHá 5 anos Fortaleza CeNão tem com muita facilidade não ser remetido a um passado que marca, essa mistura de sentimento de medo e dor não ficar marcado na memória e coração vi despedida de alguns anjos na infância e uma dessas a minha irmã a primogênita de 12 filhos adqueriu um trauma ao entrar numa casa pra pedir um pouco d'água se deparou com um Anjo sendo velado solitariamente por sua Mãe vestindo preto,nunca mais na vida ela viu alguém num caixão partiram nossos pais irmaos tios avós, amigos e até marido e não viu
José de JesusHá 5 anos Fortaleza CEEsse texto me chama a atenção para minha vida da infância na praia quando morei em Jericoacoara e vi meu primo ser morto por um tubarão. Como estava na época da guerra, os adultos falavam que era um submarino alemão.
Graciliano Pedrosa, professor de arte. Perfeito texto.Há 5 anos São Bernardo do campo.Possivelmente a descrição aparentemente "de ignorancia dos sitiantes", tem uma razão física. O princípio da Gestalt que consta ser um estímulo visual. A partir daí, nosso cérebro não recebe uma excitação sensorial isolada, mas vários sinais complexos que agrupam todas as características que consideramos semelhantes (boi alongado x caminhão). Nosso cérebro prega peças na gente. Faz a gente imaginar formas inacabadas ou silhuetas. Aí a gente imagina algo mais próximo de nossa consciência.
Ju Carmona, psicólogaHá 5 anos Umuarama PRLuciah Lopez. Essa violência contra o "boi alongado" (uma figura de hermenêutica, na visão de uma criança de 7 anos?) é para se entender como conceito de Deus Razão, no que diz respeito à vingança, ou de um Deus Verdade? Podem ser pensados juntos?
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