
A Morte do Anjo
LUCIAH LOPEZ
Mal eu desci do carro e meu primo Marcus, veio correndo contar a novidade... Nós vamos ver o anjinho que morreu... Vem Iaiah, corre! Levei um tempo para entender o que ele estava dizendo – um anjo morreu?! Como pode?? Será que ele caiu do céu?!! Larguei tudo e saí correndo junto com meus primos e primas e as outras crianças que moravam na fazenda. Minha avó ficou gritando, mas nem cheguei a dar-lhe um beijo, o anjo morto era mais importante.
Afinal, eu nunca tinha visto nem anjo vivo! Fomos todos em fila junto a cerca de arame farpado, seguindo o caminho dos bois até o rio onde tem uma ponte. Eu fui em silêncio - um anjo morto... Como ele é? E as asas, como são?? Com penas iguais as penas dos gansos?! Fui interrompida dos meus pensamentos quando chegamos ao rio e uma das meninas começou a falar sobre o boi “alongado” que matou o anjinho – então as coisas ficaram piores para o meu entendimento, afinal eu estavas com sete anos e o meu mundo ainda era de faz de contas e boi “alongado” não existia!! A única coisa que eu sabia ser “alongada”, era a carroceria do caminhão da fazenda – meu avô tinha me dito isso.
Caminhei mais um pouco e depois da ponte, mais um caminho de bois e já se podia ver a casa onde estava o “anjo”... Meu coração começou a bater mais rápido e mais rápido e eu fui ficando para trás na fila de crianças, com medo de ver o anjo morto!! A casa era simples, de trabalhadores do café, era feita de madeira sem pintura e janelas com taramelas e o único luxo eram florzinhas plantadas em latas de óleo, e a imagem de uma santa pendurada na parede.
Subimos os três degraus da varanda e entramos na casa em silêncio - eu a última, nem conseguia engolir a saliva tamanha era a minha ansiedade. No meio da sala, dois bancos de tábuas lavadas sustentavam um caixão pequeno tendo aos quatro cantos velas acesas... Algumas das mulheres chorando, abraçavam a uma outra, que estava vestida de preto, e sentada junto do caixão. Meus primos chegaram bem perto para olhar o anjo, e eu fiquei de longe. Então Nasser me chamou: -Vem ver Iaiah. Olha, é Léo! -Que Léo?! Foi o que consegui falar com a voz quase sumindo. – Aquele que anda com as pernas de pau. Senti uma dor imensa no peito – Léo?! Mas nós brincamos de pernas de pau...
Então o Léo era um anjo?!! Como?? Ninguém tinha me dito isso. E agora ele está morto e por um boi “alongado” e eu continuava sem saber o que era essa coisa de “boi alongado”- tentava imaginar o tamanho do bicho! Finalmente meu tio chegou para nos levar para casa, eu criei coragem e olhei dentro do caixão. Vi o rosto do Léo - ele estava dormindo! Só isso, estava dormindo!! Comecei a fazer perguntas, mas meu tio me mandou calar, que depois falaria sobre isso, em casa. Seguimos para o carro num silêncio pesado e absoluto!! Quando passamos pela estrada que dá acesso a cidade, vimos uma multidão - meu tio diminuiu a velocidade do carro para passar e olhamos para ver o que estava acontecendo.
Eram os colonos e o pai do Léo que estavam queimando o “boi alongado” depois de tê-lo matado à pauladas. Gritavam e batiam com paus na carcaça esfarrapada do boi – era só um boi marrom e de tamanho normal! Mas o castigo foi o mesmo. Senti meus olhos embaçados e as lágrimas caíram quentes e amargas - as mais amargas que já havia sentido!
Chorei pelo meu amigo Léo e pelo boi. Tudo na mesma proporção. "Foi uma fatalidade", disse o meu tio e depois explicou o que era uma fatalidade. "Ninguém tem culpa quando um raio cai e provocando um incêndio, como ninguém tem culpa quando nas cheias, o rio transborda levando tudo que encontra pela frente. Fatalidade é a Mão do Destino mexendo com nossas vidas, ninguém é culpado, devemos entender e aceitar as fatalidades". No outro dia levamos flores ao enterro do anjo e eu chorei mais uma vez...
Luciah Lopez é membro da Academia Poética Brasileira
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