Sábado, 27 de Novembro de 2021
24°

Alguma nebulosidade

Curitiba - PR

Mundo Membros da APB

AS CORES DO SWING. Livro do imortal APB Augusto Pellegrini. Capítulo 7 – As cores do swing – Parte 1

Publicado sobre autorização do autor.

05/11/2021 às 15h13 Atualizada em 17/11/2021 às 21h41
Por: Mhario Lincoln Fonte: Augusto Pellegrini
Compartilhe:
Pellegrini com Freddie Keppard, in Kansas City de 1920 (Montagem ML).
Pellegrini com Freddie Keppard, in Kansas City de 1920 (Montagem ML).

AUGUSTO PELLEGRINI é membro da Academia Poética Brasileira

A história da música nos Estados Unidos tem uma estreita relação com as mudanças sociais e com as influências históricas sofridas pelo povo americano no início do século vinte.

Um estudo profundo de sociologia vai levar o leitor à conclusão de que a aceitação pelo público – e pelos músicos – dos estilos musicais que foram surgindo e se modificando ao longo do tempo não aconteceu por acaso. Ela se deveu principalmente às grandes convulsões socioeconômicas acontecidas no país.

O êxodo de muitos habitantes da Louisiana e de outros estados vizinhos Rio Mississipi acima se deu em virtude de diversas razões que incluíram desde a Primeira Guerra Mundial e a crescente industrialização do norte do país até a procura de melhores condições de vida e de empregos assalariados. Quanto aos músicos de Nova Orleans, a sua migração se deu mais pelo desemprego, face ao fechamento de muitas casas noturnas da cidade, do que propriamente por uma necessidade, digamos artística ou estratégica, de expandir seus horizontes.

Tanto isto é verdade que, apesar do jazz tradicional ter se espalhado por diversas regiões do país, a sua trajetória foi claramente direcionada para o norte – Saint Louis, Kansas City, e principalmente Chicago – pois era lá, mesmo com a Lei Seca e outras restrições, que o show business reluzia.

O músico da Louisiana – fosse ele negro, creole ou branco – era definitivamente caseiro, e se não fosse por estritas razões de sobrevivência ele jamais se preocuparia em deixar a sua casa, a sua terra, os seus amigos e o clima do sul para se aventurar para o norte, sujeito ao frio inclemente de certas épocas do ano e às chuvas e trovoadas da vida, emoldurados pela discriminação devido à sua raça ou origem.

De qualquer forma, o país estava mais alegre, pois em 1918 tinha acabado a Primeira Guerra Mundial, e o som otimista do dixieland parecia ter se expandido exatamente para retratar este estado de espírito.

É importante mencionar este clima de alegria, porque nem os hinos solenes utilizados em Nova Orleans para os funerais e celebrações, nem o lamento sofrido do root blues pegaram carona com os músicos que foram para Chicago a caminho de uma metrópole mais realista e possivelmente insensível a essas dores da alma. Assim, este estilo "down" de interpretar o blues de Nova Orleans se manteve como referência da música tradicional do sul, mas não viajou rio acima.

Ford T.

As grandes orquestras que floresceram em Chicago nos anos 1920 eram o reflexo do refinamento de uma sociedade que continuava comemorando o final da guerra e o início da importância que os Estados Unidos passaram a ter para o mundo.

As pessoas estavam vivenciando um impacto tecnológico até então não experimentado. A telegrafia e as radiocomunicações encurtavam distâncias, as indústrias do rádio e do cinema estavam florescendo, músicas eram reproduzidas por discos que eram vendidos e tocavam nas rádios, os aviões começavam comercialmente a cruzar os ares, os médicos já conseguiam enxergar por dentro dos pacientes através das chapas de raios X, e os automóveis passaram a ser produzidos em série.

No mundo da ciência, Freud e Einstein desfilavam suas teorias revolucionárias e os homens aguardavam com expectativa outras inovações tecnológicas para aprimorar o seu grau de conforto.

Original Dixieland Jazz Band.

No campo da música, surgia finalmente em fevereiro de 1917 a primeira gravação de jazz, pela Victor Talking Machine Company – as músicas "Dixieland Jazz Band One-Step" e "Livery Stable Blues" – feita por um grupo de músicos de Nova Orleans (ironicamente brancos, todos eles) a Original Dixieland Jass Band, liderada por Nick LaRocca. A partir daí, por toda a década de 1920 foi aberto o espaço definitivo para gravações da música de jazz e suas assemelhadas, o que fez proliferar um grande número de músicos talentosos.

Na verdade, o primeiro músico de jazz convidado para uma gravação foi o trompetista negro Freddie Keppard, em 1914. Keppard, no entanto, recusou porque temia que com a gravação muitos trompetistas encontrassem facilidades para copiar o seu estilo. Freddie Keppard era um músico de mão cheia, mas sua cabeça, como se vê, era mais ou menos vazia.

Com todas estas coisas se sucedendo, a década de 1920 tornou-se propícia para o surgimento de alguma novidade que consolidasse as tendências populares e ao mesmo tempo criasse um som que representasse a cara e a disposição do povo americano naquele momento.

Daí surgiu o swing.

O swing foi o resultado de uma padronização maciça que tomou conta do país antes de eclodir a Segunda Guerra Mundial.

St. Louis.

A ordem do dia era dançar, mas não da maneira tribal nascida das brincadeiras das spasm bands de Nova Orleans na virada do século dezenove para o século vinte, como propunha a agitação do dixieland, nem da maneira sofisticada e elegante como convinha às orquestras de dança que divertiam a elite do alto da costa leste. A ordem do dia era dançar de uma forma descompromissada, contagiante e frenética, o que fez com que jovens e adultos, homens e mulheres, estudantes e profissionais, pobres e ricos, negros e brancos lotassem os salões e exercitassem a sua alegria através da música das big bands.

Em 1933, enquanto a Era do Swing ganhava corpo, as pessoas tinham muito que comemorar, apesar de a Depressão ainda se fazer presente: a nova política do recém-eleito presidente Franklin Delano Roosevelt revogava a Lei Seca e prometia um período de recuperação financeira, convocando o povo americano para uma cruzada de otimismo, como que antevendo a necessidade de uma forte união entre as pessoas para enfrentar a nova convulsão que aconteceria dali a alguns anos, desta vez de âmbito mundial.

Primeira gravação de jazz 1917.

É claro que a transformação – alguns diriam "aprimoramento" – do dixieland e do estilo chicago, de um maravilhoso primitivismo musical cheio de asperezas, para o melodioso swing a partir dos arranjos mais arredondados, e o distanciamento cada vez maior das raízes do puro jazz de Nova Orleans recheado de gospel, blues e stomp, também fizeram a sua parte na aceitação e na aclamação popular.

Por estranho que possa parecer, apesar do swing soar mais fácil e confortável para os ouvidos do público, ele ficou mais sofisticado com respeito ao ritmo e à concepção dos arranjos. Os estilos provenientes de Nova Orleans possuíam basicamente uma batida 2 por 2, ao passo que no swing o ritmo obedece ao esquema 2 por 4, com variações para 4 por 4, quando acentua as quatro batidas do compasso.

Evidentemente existiam honrosas exceções no jazz tradicional, como Louis Armstrong, que já se aventurava no 4 por 4 nas suas apresentações. Mas Armstrong era ele próprio uma exceção, com seus efeitos inventivos como, por exemplo, fazer um improviso inteiro baseado em uma nota só, parafrasear uma música usando uma linha harmônica diferente da original e modificar em trezentos e sessenta graus a forma de interpretar uma música quando se punha a cantar.

Vídeo-Bônus

Livery Stable Blues (Original Dixieland Jass Band)

HISTÓRICA (primeira gravação de jazz - 1917)

">

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Ele1 - Criar site de notícias