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"Recepção em Grande Estilo", conto de época do jornalista Mhario Lincoln

A ilustração foi cedida pelo artista Cordeiro Filho./Esta é uma história ficcional, não havendo nenhuma correlação com fatos, nem coincidências com pessoas vivas ou mortas, exceto a citação de "Madame Satã", amplamente divulgada nos jornais e rádios da época.

01/12/2021 às 13h32 Atualizada em 01/12/2021 às 17h21
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario Lincoln
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Cordeiro Filho
Cordeiro Filho

Contos pra toda vida

Texto: Mhario Lincoln/Ilustração: Cordeiro Filho

Contam as más línguas lá pelas bandas da Rua da Saúde, que São Luís, a Cidade dos Azulejos, tinha sido escolhida para encerrar a campanha de um candidato à presidência da República muito importante.

Os 'puxas' de plantão – como sempre acontece - levantaram logo a hipótese de fazerem a maior recepção de todo o Brasil. "Assim ele pensaria nos organizadores, depois de eleito", alvoroçaram os pensamentos.

Uma semana antes da chegada do candidato, o responsável pelo setor, no Governo, com o paletó de linho branco nos ombros, sobe apressado as escadas laterais do Palácio dos Leões, na Praça D. Pedro II, onde ficam também os prédios tombados da Prefeitura da cidade e do Tribunal de Justiça. Entra na sala e chama um de seus auxiliares mais espertos: “Você sabe que eu me aposento no mês que vem e já indiquei seu nome para me substituir. O governador achou a ideia muito boa. Por isso quero lhe dar uma missão muito importante”, disse o rosado e ofegante chefe.

O auxiliar recebeu a notícia de forma emocionante. Mais, a tarefe que iria realizar: a inesquecível recepção ao candidato à Presidência da República. Ensaiou algumas lágrimas. E segurou a ponta da gravata, no intuito de enxugar o molhado no rosto. Mas a euforia não deixou o choro vir. Então, fazendo rápidos cálculos, repassou ao chefe quanto poderia ser uma recepção em grande estilo para o futuro presidente.

Recebeu autorização para retirar parte da verba e de posse do dinheiro foi para a sua sala se reunir com outros funcionários e pensar numa ótima ideia. Alguém sugeriu o nome de um ex-deputado, “assim com o home”.

Falou da aproximação dos dois. “Esse conhece todos os gostos do futuro presidente e pode nos dar dicas importantes para incluir na recepção”, disse o funcionário.

Com o nome do ex-deputado, foi só achá-lo na lista telefônica. Ligou imediatamente. Após se identificar, marcam uma hora no final do dia, numa casa de tolerância, famosa, na rua 28 de julho. Centro da cidade.

Ansioso, o coordenador da festa de recepção encontrou o ex-deputado numa farta mesa, à esquerda do salão, onde da maneira como estava sentado, tinha uma visão total de quem entrava e saia do recinto. Deu um abraço apertado, juntou o paletó do ex-parlamentar que havia caído sem o dono perceber, e foi contando a novidade: "Vamos receber fulano. Eu sou organizador e você, deputado, estará na linha de frente". Porém, afoito, se esqueceu o funcionário público palaciano que o ex-deputado era inimigo número um do tal do candidato à Presidência. Esse, esperto, como na concorrência num terreiro de galinhas com um galo só, vislumbrou a oportunidade ímpar de se vingar do candidato. E melhor: na sua terra natal. Isso seria algo que o inimigo nunca mais esqueceria.

Pois bem, entre um uísque e outro, o ex-deputado começou contando um grande segredo desse candidato. "Em toda cidade que chega ele pede uma recepção igual. Ele gosta demais e com certeza, não esquecerá jamais de você, meu jovem. Possivelmente o verei trabalhando no Palácio do Catete, logo após a posse dele.

A conversa ficou interessante para o funcionário que passaria, então, poucos meses em função estadual. Pensou: ”Pelo visto esse deputado tem muita força com o candidato”, e fez uma cara relaxada para ouvir mais detalhadamente as ‘importantes’ dicas do ex-parlamentar.

Sorrisos na mesa, abraços e tapinhas nas costas eram uma constante. Até a gerente da casa de encontros vir ao local e pedir silêncio. Ia se apresentar Luzanira De Bois o primeiro e único travesti da 28 de Julho a passar pela Broadway, quando ainda era jovem.

Silêncio total e aí rolou um repertório de Maísa, Carmen Miranda, as Cantoras do Rádio, Angela Maria, Emilinha Borba, Marlene...

O funcionário do Estado bateu na mesa e disse: "pronto, deputado! Eis a artista que vou contratar, seguindo sua orientação". O deputado deu um sorriso maroto mexendo o lado esquerdo da boca, contrário à visão do parceiro, e replicou: "É a maior novidade. Ele adora um show assim só para ele", insinuando outras atividades.

Terminada a apresentação, o cerimonialista se dirigiu a De Bois e reservadamente lhe fez a proposta, aproveitando também, para dar um tapa na aliviante diamba que a artista consumia. De Bois topou, mas pediu imediatamente um adiantamento para mandar confeccionar roupas com as cores do país: "Vou roubar um modelo do Denner e comprar voal verde e amarelo...". Combinaram tudo certinho. Depois, o artista deu de costas e seguiu seu rumo, desaparecendo no corredor pouco iluminado, com um rapaz de feições jovens e musculoso.

O funcionário do governo saiu felicíssimo. Achando que o dever tinha sido cumprido. No outro dia, perguntado sobre a recepção pelo seu chefe, ele disse: "não se preocupe. Ontem conversei com uma pessoa íntima do nosso presidente e ele revelou as preferências. Disse que nas cidades visitadas, fizeram esse mesmo tipo de evento. O candidato saiu superimpressionado, prometendo - olha só - cargos importantes no Catete, para todos.

Sem saber o espírito da festa, o chefe elogiou o funcionário e ainda disse acreditar piamente no profissionalismo dele.

Uma semana se passou. O candidato chegaria às 13 horas. O pessoal da segurança interditou o pequeno aeroporto ainda construído pelos americanos, na época da Segunda Grande Guerra. Mas estava arrumadinho. Pintado com cal e limalha de ferro. Dava uma cor serena, ao final da química. A pista tinha sido alisada no dia anterior, sem pedrinhas pontiagudas e pronta para receber o DC3 da Panair, trazendo à bordo o candidato à Presidência da República.

Como a notícia da chegada vinha sendo divulgada por um bom período pelo jornal ‘O Combate’, sempre em matérias de primeira página, tal fato acabou atraindo ao local quase metade da cidade.

Antes das 13h, muita gente já se acotovelava no descampado, em frente ao aeroporto, para ver o presidente desfilar em carro aberto. Um Chevrolet (barata) conversível esperava à porta, com o motorista lustrando o automóvel com uma flanela pintada com o nome e o número do visitante.

O coordenador da recepção havia improvisado um galpão, onde a surpresa estava escondida. Exatamente às 13 horas, quando o DC3 triscou no solo, o funcionário correu para as autoridades que estavam no saguão e pediu que se afastassem. O grande show para o futuro presidente ia começar.

Logo que o candidato apontou na porta, o ajudante de ordem, devidamente pré-combinado, pediu que ele esperasse um pouco antes de entrar. De repente, começa o espetáculo. A banda do Bigorrilho, com Zé Boquinha, no Violino, Carlos Cachaça no Banjo, Zé Trude no tarol, e Piau no Trombone adentrou no ambiente, puxada por De Bois. A artista usava um biquini minúsculo verde e um ‘corpete’ também minúsculo, com seios artificiais, relíquia ainda dos tempos da Broadway. Um detalhe, porém, chamou mais a atenção: atrás do biquíni o nome e o número do candidato. Na cabeça, penas de pavão e como integrante do bloco das boas-vindas, as 10 melhores baby-girls que faziam ponto naquela casa de encontro da rua 28 de julho, praticamente nuas.

As autoridades quando viram aquilo se desesperaram. O povo diante daquela muvuca estava dividido. Metade vaiava ferozmente. Outra metade ria e aplaudia. Vale lembrar que naquela época, era cruel a homofobia, cujo nome ainda nem tinha sido cunhado. Principalmente porque não havia punição para esse tipo de crime horrendo, infelizmente. Por isso, diariamente os jornais publicavam matérias de agressões violentas a homossexuais, sem nenhuma punição a esses brutamontes.

(Excerto veritas): Porém, no Rio, começava a aparecer alguém, fazendo justiça com as próprias mãos: Madame Satã, um homossexual com habilidades incomuns de ataque com lâminas de barbear, escondida entre os dedos dos pés. Satã era sempre noticiado quando se envolvia nas brigas de rua, defendendo seus amigos da Lapa. E sempre saia vitorioso haja vista essas habilidades incríveis de capoeira e malabarismo. Os noticiários nacionais de rádio, inclusive no programa ‘Repórter Esso’, sempre falavam em Madame Satã e sua lâmina justiceira.

Voltemos a cena: enquanto De Bois desfilava com o nome e número do candidato escrito atrás do minúsculo biquini, acenando para as autoridades, e sob o som de “Jardineira”, executada fora do tom, em razão dos músicos estarem virados de um dia para o outro e inflamados pelas garrafas de Jurubeba Indiano consumidas na dolorosa espera no barracão, o povo lá fora se danava a rir, vaiar e aplaudir, copiosamente.

O candidato, pasmo, aflito e ensopando ainda mais a camisa de algodão comprada na famosa Casa Colombo, no Rio de Janeiro e enxugando o suor com seu lenço de seda ‘Cardin’, não sabia onde esconder a cara. Fez um ‘sinal misterioso’ ao seu ajudante de ordem e correndo, empoeirando os sapatos de cromo alemão, presentes de um amigo do Rio Grande do Sul, voltou para o avião, que ainda estava reabastecendo e pediu que parassem tudo e zarpassem imediatamente no rumo de Teresina. Toda essa cena resultou num escândalo nacional, fortalecido pela manchete dos jornais brasileiros.

O ex-deputado que a tudo assistia em um canto do saguão, soltava gargalhadas orgásmicas.

Tempos depois, o, agora, ex-funcionário do governo, ficou sabendo que o tal candidato era evangélico radical e integrava o grupo que algum tempo depois iria fundar o movimento Tradição, Família e Propriedade. (TFP). Ele havia caído numa desastrosa armadilha.

Obs: esta é uma história ficcional, não havendo nenhuma correlação com fatos, nem coincidências com pessoas vivas ou mortas. Exceto a citação de "Madame Satã", amplamente divulgada nos jornais e rádios da época.

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