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Mais um conto de Edomir de Oliveira: "FINALMENTE UMA NOIVA PONTUAL". (Crônica baseada em uma história real).

Autorizada a publicação pelo autor

03/12/2021 às 10h13 Atualizada em 04/12/2021 às 09h30
Por: Mhario Lincoln Fonte: Edomir Martins de Oliveira
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Do Livro: “Finalmente a Noiva Chegou" II

Edomir Martins de Oliveira

Vice-Presidente Nacional da ACADEMIA POÉTICA BRASILEIRA - APB

Marcos 4:39 – E Ele, levantando-se, repreendeu o vento, e disse ao mar: Cala-te, aquieta-te. E cessou o vento, e fez-se grande bonança.

Habituara-se a ser destemido desde jovem. Agora, estava sendo designado por uma Organização de Apoio aos Povos Indígenas, onde trabalhava, para ir fazer uma pesquisa junto a tribos que habitavam em regiões de difícil acesso do país. Lembrou-se dos seus tempos de serviço militar, quando fora designado para locais longínquos, com viagens que demoravam várias horas, e até dias.

De certa feita, foi designado para ir a uma localidade onde ficavam tribos indígenas que ameaçavam conflitos com garimpeiros, que estavam invadindo seus territórios, em busca de riquezas minerais e ele foi para colaborar na mediação da situação. O deslocamento foi difícil; foram 2 dias mudando de embarcação, pois não havia lanchas a motor. As embarcações eram muito limitadas. Neste serviço agora, haveria de ter o mesmo sucesso de outrora.

Mas esses grandes desafios não ficaram só para os homens. Conhecera uma jovem antropóloga, que também estava realizando uma pesquisa exatamente junto a essas tribos indígenas. Quando lhes permitia o tempo, conversavam sobre seus objetivos, que era um só, a busca pela melhoria de vida dos indígenas. O modo de os conduzir era diferente, mas o resultado final era igual para ambos: procurar que a paz predominasse nas aldeias, sendo evitado conflitos violentos.

Cada um cumpria bem sua meta proposta, conseguindo serenar ânimos onde estes estavam exaltados e, assim, levar a bom termo suas respectivas missões. A antropóloga estudava o homem em seu habitat, via seus costumes, e ao tomar conhecimento deles, sabia como proceder para tomar decisões e conseguir paz e harmonia.  

Ele, por sua vez, cumpria fielmente o que desejava a Organização à qual e estava vinculado. Aprendera a obedecer ao planejamento para obter o resultado final desejado.  A antropóloga e o jovem se tornaram amigos; sempre que lhes sobrava tempo, levavam um dedo de prosa, e assim, foram se conhecendo reciprocamente, ao ponto de começarem a sentir falta da presença um do outro. Entenderam que essa amizade estava se tornando mais profunda.  Decidiram então que, cumpridas suas respectivas missões, eles se encontrariam na cidade onde moravam. Foi aí, que a antropóloga lhe disse que iria visitar os pais no povoado onde nascera, e onde até hoje eles moravam, pertencente a um Município da Amazônia Legal, bem longe da capital.  Essas viagens eram demoradas, em virtude da dificuldade de locomoção. Esses deslocamentos não os assustava, depois de tudo que haviam passado para chegar onde estavam prestando seus serviços no momento. 

Um pajé da tribo que vinha acompanhando seus trabalhos, pediu-lhes autorização para realizar um ritual de proteção a eles, pois sentira que um nascera destinado ao outro. Eles ainda não tinham percebido que o sentimento que sentiam mutuamente ia além da amizade.- “Tenho sentido as vibrações da natureza confluindo em favor de vocês”.- 

Concluídas as missões, despediram-se. Ele ainda continuou no local por algum tempo mais, e ela voltou para seu povoado, para visitar seus pais que não via a algum tempo, enquanto estava trabalhando na sua tese de Doutorado, de acordo com a anuência do seu Orientador, que tinha autorizado que boa parte do seu trabalho ela concluiria por lá. Estava levando muita saudade do namorado e também de duas crianças indígenas que estavam sempre junto dela. Habituada a enfrentar as grandes dificuldades de locomoção, ela enfrentou galhardamente as viagens de retorno ao seu povoado. 

O deslocamento só se dava via marítima, levando muitas horas para chegar, e enfrentando águas fluviais revoltas, baías e mares bravios, passando por assustadores boqueirões - um acidente geográfico, tipo garganta, cavado pelo rio entre duas serras, constituindo-se um profundo vale.- Era muito preocupante e ela se habituara a fazer, confiando nos habilidosos barqueiros já acostumados a enfrentar esses perigos. 

Então, ele lhe disse que por ela iria a qualquer parte do mundo, pois a amava muito. E ela confortada com essas palavras de amor partiu. Ele orava a Deus para que ela fizesse boa viagem e ela orava para que Deus estivesse presente na vida dele diariamente.

 Concluído o serviço de pesquisa, ele retornou para sua cidade natal, e a jovem antropóloga não lhe saía da cabeça, nem do coração. Assim que terminou sua missão, retornou à sua cidade propondo-se de logo visitar a moça e fazer os acertos para noivado e casamento.

Programou tudo e se dispôs ir ao encontro de sua amada. Sabia das dificuldades que o aguardavam na viagem, mas valia a pena revê-la. Enfrentou as mesmas dificuldades, fluviais, da baia, dos mares bravios coisas que só o amor estimula.

Em chegando ao seu destino foi logo visitar a moça, pois o lugarejo era pequeno e facilmente localizou seu endereço. Quando se encontraram, abraçaram-se com muita emoção, entusiasmo, carinho, estima e muito tiveram por conversar. 

Falaram sobre seus planos de casamento e ela sempre dizendo que continuava no seu coração o desejo de casar com ele. Graças a Deus, suas preces tinham sido ouvidas e eles estavam juntos novamente, ao que o rapaz lhe disse que incontáveis foram os dias para reencontrá-la. Ela, então, lhe confessou que tinha esperado tanto por essa oportunidade de encontrá-lo que muito agradeceria, se ele quisesse casar na próxima vez que fosse visitá-la.

Ele então lhe disse algo que inicialmente a assustou: -“Não haverá uma próxima vez. A minha ansiedade para ter a tua companhia é grande, mas as dificuldades para se chegar até aqui são preocupantes e até alarmantes. A travessia é mesmo apavorante, que se depender de mim, casa-se não da próxima vez, mas desta vez mesmo”. – Ele até mostrou as alianças que levara para ela, para que noivassem. Noivaram!

Edomir Martins de Oliveira.

Ela ficou extremamente feliz. Já de aliança no dedo ela apresentou-o aos pais e disse que iriam casar. Os pais gostaram dele, bem como seus irmãos e avós, A preferência dela tinha sido casar ali, pois toda a família poderia assistir, bem como as pessoas amigas. Foi então que um amigo da família da moça, que ela até chamava de padrinho, disse: -“Vocês da cidade são complicados mesmo. Para casar, criam uma burocracia enorme. Eu e minha mulher, quando quisemos casar, dissemos um ao outro o que desejávamos, fomos a Igreja, e juramos ajoelhados, que seriamos um do outro até que a morte nos separasse. Pronto. Saímos dali casados, em nosso modo de entender. E assim permanecemos juntos e amamo-nos muito, até hoje, e já se vão mais de 50 anos de uma feliz união, tendo 6 filhos, 8 netos e 2 bisnetos”.- 

Os pais da noiva, nem os próprios enamorados, não concordaram com a opinião do compadre. Esse negócio de juntos, ajoelhados na Igreja, eles mesmo se darem por casados, disse o pai, não queria para a filha deles. 

Eles, então, foram ouvir o Padre da Igreja para se aconselharem, e saíram com a informação de que deveriam ir à cidade mais próxima para casarem, onde havia Cartório do Registro Civil, segundo as leis do País, e depois voltar para receber as bênçãos sacerdotais. 

Os pais e os noivos não concordaram com esse procedimento. Filha deles dizia o pai, sairia dali casada na Igreja. E como o Padre não quis realizar o casamento, a moça não casaria.  O noivo fez então um convite aos pais da moça para que eles fossem à Capital levando a jovem; seriam seus hóspedes, e os jovens casariam com a presença deles. Receberiam as bênçãos sacerdotais como desejavam, e seus pais também.  

Marcaram a data e o jovem voltou para a Cidade para aguardar a chegada dos sogros e da noiva. Esta se apressou em ir logo para a Capital para providenciar seu vestido de noiva e enxoval. Uma irmã do noivo ofereceu sua casa, que era muito grande, para hospedar a noiva, seus pais e seus quatro irmãos. Agradeceu à irmã e assim aconteceu. Na época marcada, casaram como combinado, tendo um amigo dos noivos, grande articulador de amizades, feito contato com as tribos onde eles trabalharam para mandar o cacique e o pajé representando a tribo, e as duas crianças às quais a noiva se afeiçoara.

Foi então celebrado o casamento em uma Igreja, com a presença do Padre, que efetuou a cerimônia religiosa com efeitos civis. Haviam poucos convidados presentes, pois todos já estavam acostumados com atrasos de noivos e muitos chegaram à hora em que os noivos já pronunciavam o sim.  E pela primeira vez viu-se uma noiva chegar pontualmente no horário do seu casamento, tendo o padre erguido os braços aos céus e pronunciado as seguintes palavras: -“Finalmente uma noiva pontual. ”- 

O pajem e a daminha que levaram as alianças foram dois indiozinhos, aos quais ela muito se afeiçoara. Estavam lindos, compenetrados e muito felizes pela oportunidade; e os convidados encantados com a beleza e desenvoltura deles! Foi a forma que os noivos encontraram para homenagear os índios, grandes professores de coisas da natureza, que aprenderam a admirar e respeitar.

 O Padre em seguida, declarou-os casados e deu as bênçãos sacerdotais, instruindo-os a observarem o que determina a Bíblia Sagrada em I Pedro 2:17 – Tratem a todos com o devido respeito: amem os irmãos, temam a Deus e honrem o rei. ”

Foi, então, que uma fofoqueira disse á outra: “Bem feito que ela casou com poucas pessoas presentes. Quem mandou chegar no horário? Todo mundo sabe que elas atrasam sempre”. – E outra acrescentava: -“Essa noiva quis se exibir não se atrasando”.- E uma terceira dizia ainda: -  “Estava escutando os comentários de vocês. Que coisa lamentável, escutar comentários desse tipo! Até quem chega no horário, respeitando seus convidados, vocês criticam. Vocês conhecem o Salmos 64:3? – Leiam o que ele diz: “Eles afiam suas línguas como espadas, e como flechas disparam suas palavras cheias de veneno. ” - “E uma delas ainda respondeu: “Que mulher audaciosa”! 

Após o casamento, em salão da própria casa da cunhada da noiva, realizou-se a tradicional festa de comemoração do enlace, debaixo de muita música, dança e alegria. O Cerimonial preparara tudo com esmero. Os noivos partiram felizes para sua lua de mel. 

 

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