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Paulo Rodrigues: um poema na mão e uma ideia na cabeça

Por Samuel Marinho, poeta

05/01/2022 às 12h00
Por: Mhario Lincoln Fonte: Paulo rodrigues
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Paulo Rodigues
Paulo Rodigues

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Ao término da leitura de Cinelândia (Folheando, 2021) do poeta Paulo Rodrigues, saio com uma forte impressão de ter assistido a um filme, daqueles de causar uma inquietação que invade a madrugada.

Trata-se de uma poesia que, em sua forma, prima pela dicção direta, sucinta e densa, com poemas que remetem a imagens fortes, em um enfeixe cuidadosamente trabalhado.

Uma poética que se alicerça na expansão de olhares em direção ao outro, mergulhada em uma atenta observação da dinâmica social em que se insere, na tentativa de romper com a harmonia da indiferença que dá o tom das relações contemporâneas. 

E em Cinelândia, essa vocação de Paulo Rodrigues para o uso da dimensão imagética da palavra em  favor da exposição da proposta que sustenta, já demonstrada em seus livros anteriores, a exemplo do Escombros de Ninguém (Penalux, 2018) e Uma interpretação para São Gregório (Penalux, 2019), parece aqui encontrar o seu ápice em um conjunto de poemas que, organizado em cenas, demonstra a força e a coesão do discurso. 

 

Aliás, recorrer a metáforas do cinema para desenvolver a sua narrativa de humanidade, faz neste momento da história todo o sentido, além de reforçar uma certa retórica irônica do autor utilizada na medida certa, pois até “Roliúde” e a Netflix já descobriram recentemente que não dá pra ignorar o desastre social que o mundo experimenta com a atual fase do capitalismo, onde a tecnologia assevera exponencialmente os abismos entre classes; vide o sucesso de produções coreanas como Parasita e Round 6 que se afinam, em algum grau, com as preocupações da obra do poeta.

E logo no claquete, essa proposta fica bem clara em poemas como Missiva: “precisamos fundar um planeta! / não construiremos casas / e não deixaremos morrer de frio os miseráveis / o lixo não será o alimento / de nenhuma criança” ou Anti-realismo: “não há palavras que devolvam a vida ao corpo precário.” 

Conhecedor das dificuldades da realização da arte como um todo, sobretudo às relacionadas à arte da palavra, o poeta demonstra uma consciência plena das limitações do seu fazer literário frente ao próprio abismo social que é tema recorrente de sua poesia. Daí emergir uma premissa forte de sua própria existência, talvez resumida no verso expresso em um dos mais belos poemas do livro que dá conta de que “Cada um protesta como pode” (Numa esquina de Havana). 

Com essa sinceridade, os poemas de Cinelândia chegam ao leitor como  uma verdade por vezes dolorosa que vai se escancarando a cada movimento, na medida em que o convida também para refletir sobre a realidade exposta. Algo transformador no microuniverso de quem lê, pois muito pouco provável não sair remexido com a crueza desnuda dos versos, e agora com a consciência, na prática, do resultado do protesto que é possível e real no contexto da palavra poética.  E pra fazer referência à esperança machadiana, vai que uma palavra puxe outra palavra, e uma ideia traga outra ideia, e assim se faça um livro, um governo ou, quem sabe, uma revolução…

E nessa sequência planejada, o livro segue em cenas, como num filme de Glauber Rocha  (expressamente homenageado em um dos poemas), com uma crítica social contundente, em que Paulo desfila uma dinâmica de contrastes, expondo de uma forma muito própria, com o conhecimento de causa de quem nasceu em um dos estados da federação com a maior desigualdade social do país, sua preocupação com as variações da barbárie: a violência contra a mulher, muito bem retratada em Maria da Penha ou Isabelle Adjanir; o racismo estrutural, tema do emudecedor Meus olhos pendurados; e a própria condição humilhada do proletariado, exposta em poemas como Carta ao Metalúrgico e Sessão da Tarde, para citar alguns.

À determinada altura, ouve-se aqui e acolá ecos de João Cabral de Mello Neto, Manuel Bandeira e do conterrâneo Ferreira Gullar, de quem é impossível não se lembrar na leitura de poemas como A felicidade não se compra ou Apocalypse Sim.

No “the end” de Cinelândia, como se fosse uma cena pós-crédito do filme Parasita, há um alento, o que parece ser uma luz no fim do túnel. Assim soa a leitura do poema Graffiti, onde as pedras no meio do caminho abrem espaço para uma rosa na mão e o apaziguamento social parece possível no retrato simplório, quem sabe utópico, de que os espaços podem ser habitados por todos, sem maiores distinções.

Com essa visão íntima compartilhada pelo poeta, que passa e recolhe um resquício de esperança em meio ao caos, é que incorporamos a poesia de Paulo Rodrigues. Uma poesia demasiadamente humana, cheia de inquietações, idealizada a partir  de uma variação da premissa glauberiana: um poema na mão - com o coração na boca; e uma ideia fixa na cabeça - a palavra que irrompe dos versos, convidando o outro a enxergar realidades esquecidas.

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por Samuel Marinho, poeta

Autor dos livros Poemas de última geração e Fotografias para perfis fakes 

 

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