Quinta, 19 de Maio de 2022

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"A POESIA CONTIDA NA SEXUALIDADE DA PESSOA COM DEFICÊNCIA", por Sharlene Serra

Publicação autorizada pela autora. (Público Adulto).

17/01/2022 às 18h28 Atualizada em 18/01/2022 às 12h48
Por: Mhario Lincoln Fonte: Sharlene Serra
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Leninha
Leninha

Hoje amanheci lembrando de uma amiga muito amada: Leninha Acessibilidade como todos a conheciam, ela não gostava de dizer seu nome e por respeito não o colocarei aqui.

Uma mulher que ousou, sabia da sua inteligência, beleza, do seu encanto, de um sorriso que iluminava, acreditava no amor, no desejo, era apaixonante e muito intensa em tudo que fazia. Aos 19 anos em um acidente de carro perdeu seu amor e a lesão medular a tornou uma mulher com deficiência. Paraplégica, lutava incessantemente pela inclusão, acessibilidade, respeito e a sua voz ecoava forte em tudo que acreditava. A deficiência nunca tirou o sorriso e a sensualidade, que era sua marca registrada.

Eu e Leninha nutríamos uma amizade pela conexão da inclusão, ela conhecia meu trabalho na literatura inclusiva e eu sua luta por inclusão, existia então, uma admiração recíproca, conversávamos sobre tudo e o tema sexualidade da pessoa com deficiência foi surgindo, pois era um um assunto que ao mesmo tempo que fazia os olhos de Leninha brilharem a preocupava, mediante a falta de informação que existia, mas ela transitava nele com naturalidade, ignorando os tabus que a sociedade nutria.

- Sharlene precisamos escrever sobre a sexualidade, pois muitas pessoas acham que  o sexo não existe para as pessoas com deficiência. dizia Leninha.

Sharlene e Leninha.

Homens e mulheres com deficiência se fecham para o amor por acharem que o sexo fora do patrão " sem movimentação "causa estranheza. Precisamos entender que o casal deve buscar novos caminhos, novos jeitos de desfrutar da companhia um do outro. Na tetraplegia por exemplo (lesão medular do pescoço para baixo), precisamos entender o sexo de forma subjetiva. A sociedade estabelece padrões, mas o padrão deve ser estabelecido pelo casal. É importante lembrar ainda que a ausência ou amputação de membros, assim como deficiência visual, auditiva ou outras deficiências, não impedem homens e mulheres de vivenciarem uma vida sexual mediante a sua condição, quando entendem que tem direito à sexualidade e que tem necessidade sexual como qualquer pessoa, que não é feio querer ser tocado, beijado, acariciado, amado, seu comportamento e atitudes mudam e a parte erótica flui com mais naturalidade. No entanto, não há como isso acontecer se a pessoa com deficiência não se depreende dos seus próprios receios ou a sociedade não respeita sua condição na liberdade da própria intimidade. E Leninha se libertava, era essa mulher que voava em sua cadeira de rodas, repleta de desejos, de aceitação, acreditava no seu potencial de sedução e se permitia amar e ser amada.

Diante as nossas conversas, nasceram alguns poemas que na tentativa de fazer surpresa, o tempo nos mostra que a vida é agora, Leninha nãos chegou a ler, faleceu no dia 20 de agosto de 2021, mas plantou a semente para que muitos sentissem prazer ao ler cada poema de exaltação ao amor e respeito a condição do outro.

  Dedico cada poema a todas as pessoas com deficiência em especial a minha amiga Leninha, pela força feminina, pelo sorriso que mesmo em dias tristes, nunca deixou de sorrir. Leninha partiu mas em cada pessoa que conheceu, permanece a  continuidade da sua luta.

VOZ DA MULHER COM DEFICIÊNCIA 

Sou mulher com todas

as letras e sensações

soletro lutas, lagrimas,

partos,

vidas

 

Não me negue o direito

de ser, viver,

não discrimina

 

O desejo latente

na veia percorre

Sou mulher loba

ou de repente,  gata.

 

A deficiência não me abate,

Mas o teu olhar,

me torna invisível

enfraquece

me mata. 

(Sharlene Serra)

CHAMAS NO GIRO

Rodas

rodeiam

rodopiam

giram

giram

movimento

emoção

Passos em

liberdade

visto como

prisão.

 

Sensualidade e

sexualidade

Gira em rotação

Mulher com

deficiência

exala sedução.

 

Enlaço de

rodas- pernas

Entregue o prazer

no desejo em

abundância 

o movimento  do giro

na sensualidade                 

da chama. 

(Sharlene Serra) 

PRAZER FORA DOS PADRÕES 

Entre pernas

mãos, silêncios

ou rodas 

prazer

Libido

força

desejo

*oda

 

Fluidos que se trocam

Intimidade prazerosa

Da vontade do querer

Poesia vira prosa

 

No toque da pele

Do bem querer

Suspiros desejos

nos pontos A, B, C, G

 

A nudez da alma

Liberdade do corpo

cumplicidade

a sensatez do desequilíbrio

acessibilidade x intimidade

O desejo dita regra

Beijo, línguas em reciprocidade

 

O prazer

presente divino

àpice que leva ao infinito

 

Não existe padrão

a liberdade dita a regra

o amor direciona

 ao prazer que ele

mesmo gera

(Sharlene Serra)

ORGASMO NEURAL

O prazer visto e revisto  na

presença.

No olhar sem visão,

enxergar com o toque,

corpo no movimento imóvel

no sussurro dito com as

mãos.

Inclusão do poema em excitante conexão.

 

Poemas da pele,

da intimidade do

 corpo sem movimento,

do instante e

o beijo como alimento.

 

O fetiche  da  liberdade sensorial,

o desejo incontrolável 

do possuir e apenas

no imaginar

sentir orgasmo neural. 

(Sharlene Serra)

MÚLTIPLOS  PRAZERES

A sensualidade e a sexualidade

preconceito latente

como se a deficiência

eliminasse o desejo  presente.

 

A deficiência  constrói e reconstrói,

o cérebro vira  um órgão sexual, 

identifica o  excitante, atraente,

gerando prazer neural.

 

A percepção do prazer

Cérebro    acionado

na congruência do ato.

Braços, pernas amputado

envolvendo   todos os

sentidos: visão, audição, paladar e tato.

(Sharlene Serra)

______________________

Sharlene Serra – de São Luís Maranhão, poeta, escritora. Graduada em desenho industrial, pedagogia e especialista em Ed. inclusiva. Participa de diversas antologias/coletâneas nacionais.  Membro da Academia Poética Brasileira , vice presidente da AJEB- Associação de jornalista e escritoras do Brasil, coordenadoria do Maranhão e de outras associações literárias.

 

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