
Há um ponto de encontro raro e potente entre os versos de “Meus Balões”*, de Mhario Lincoln, e a crônica de Rubem Braga sobre o vendedor de balões de borracha. Esse ponto não está apenas no objeto visual, leve e colorido, mas no que ele revela sobre o humano quando é tocado por duas forças contrárias, a ternura e a engrenagem social. Em Mhario, o balão nasce como gesto interior e sobe como desprendimento. Em Braga, o balão aparece cercado pela rua, pela vigilância e pela frieza normativa. Em um caso, ele se eleva. No outro, ele é contido.
MEUS BALÕES* Mhario Lincoln
Eu encho balões
no largo do Paraíso.
Encho-os com gratidão,
amor, carinho, juízo,
Mas não os vendo.
não os faço doar, pois,
solto-os para colorir
no firmamento,
o meu depois.
....
O sol ajuda
a minimizar a espera.
.....
O poema de Mhario Lincoln trabalha com uma economia verbal que é, por si só, uma tomada de posição estética. A simplicidade não empobrece o sentido, ao contrário, concentra. Quando o eu lírico diz que enche balões com “gratidão, amor, carinho, juízo”, ele retira o objeto do circuito da mercadoria e o devolve ao campo da dádiva, do afeto e da memória. O balão deixa de ser produto e se torna extensão de uma ética íntima. Não se vende, não se negocia, não se mede por preço. Solta-se “para colorir no firmamento o meu depois”, imagem que transforma um gesto quase infantil em projeto de permanência simbólica.
Rubem Braga, por sua vez, parte de uma cena igualmente simples e cotidiana, mas a converte em denúncia silenciosa da desproporção entre vida e norma. Sua escrita, aparentemente despretensiosa, encena o conflito entre o colorido frágil do ambulante e a máquina impessoal da legalidade urbana.
A força da crônica está justamente nisso, em mostrar que a violência institucional nem sempre se apresenta com grito ou espetáculo, muitas vezes ela se manifesta no cumprimento automático da regra contra um trabalhador pobre, numa manhã comum, diante de um ofício mínimo, quase inocente aos olhos da sensibilidade. O drama é pequeno apenas para quem vê de longe.
A analogia acadêmica entre os dois textos se sustenta na diferença de regime simbólico que cada autor atribui ao mesmo elemento. Em Mhario Lincoln, o balão é signo de sublimação, uma catarse íntima que converte experiência em gesto de beleza. Em Rubem Braga, o balão é signo de vulnerabilidade social, um trabalho precário submetido à racionalidade punitiva do espaço público. O primeiro texto acende uma ética da generosidade. O segundo expõe uma política da contenção. Ambos, porém, convergem no essencial, pois reconhecem que há dignidade em torno desse objeto leve que a sociedade costuma tratar como detalhe.
É nesse ponto que a expressão “dura lex, sed lex” ganha espessura crítica. Na crônica de Braga, a fórmula jurídica aparece como máscara de uma cegueira moral. A lei, quando aplicada sem proporção, sem inteligência social e sem compaixão, deixa de organizar a convivência e passa a humilhar o pequeno. Rubem não precisa discursar contra o sistema para revelar isso. Basta a cena, a presença do vendedor, o constrangimento público e a sensação de que algo está errado para além do texto legal. A crônica mostra que o problema não é a existência da lei, mas seu uso desumanizado contra quem já vive no limite.
Já no poema de Mhario Lincoln, a recusa da venda e a escolha da doação funcionam como resposta ética a esse mesmo mundo regulado pelo cálculo. É como se o eu lírico, consciente da dureza do cotidiano, afirmasse que ainda existe uma soberania possível no gesto de oferecer. O balão, então, não é apenas cor no ar. É uma forma de resistência simbólica. Ao soltá-lo, o poeta devolve ao espaço comum aquilo que a vida utilitária insiste em reter, o encanto, a gratuidade, a delicadeza, a infância preservada como valor e não como fraqueza. E, ainda, em chave lírica e minimalista, reabre a possibilidade de um mundo menos áspero.
Por isso a aproximação entre ambos é tão fértil. O mesmo balão que, em Braga, revela a crueldade difusa de uma ordem que se pretende civilizatória, em Mhario Lincoln reaparece como imagem de elevação interior e legado afetivo. Um texto mostra o peso da cidade sobre o indivíduo. O outro mostra a força do indivíduo para reinventar a cidade, ainda que por alguns instantes, com cor, memória e gesto. Entre a crônica social e a catarse poética, há uma mesma defesa da dignidade humana, dita por caminhos diferentes e complementares.
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Para ler a íntegra da crônica de Rubem Braga:
(https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/21284/o-vendedor-de-baloes-de-borracha)
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