
Editoria de Literatura e Arte do FT: "A poesia de Socorro Guterres manifesta uma nítida inclinação filosófica ao transcender o lirismo convencional em favor de uma densa exploração analítica e existencial. Empregando uma "arte analítica" que reflete influências de pensadores como Roland Barthes e Ítalo Calvino, sua obra se debruça sobre os domínios da linguagem para desnudá-la e buscar essências, transformando o ato poético em um espaço de reflexão profunda. Essa tendência se evidencia tanto em suas incursões pela metalinguagem quanto em seus poemas de caráter social e épico, como "O Canto do Condor", onde o diálogo com a tradição literária e a história se fundamenta em aspectos da metafísica e na especulação sobre a condição humana e suas travessias morais".
Mulheres...
Socorro Guterres
Relembro algumas delas
Que foram romantizadas
Em célebres ficções.
Primeiro, a Capitu,
São os olhos de ressaca
Que arrastam Bentinho à sedução.
E então, veio-me à mente
Diadorim, neblina de Riobaldo,
Ambiguidade atraente
Na solidão do sertão.
E volto mais tarde no tempo
E encontro a bela Helena,
Por quem os gregos
Lançaram mil navios
Para sustar o sequestro,
Dessa filha de Zeus,
Esposa de Menelau,
Pelo troiano Páris,
No ímpeto de bravios mares.
Contudo, na serenidade,
Recordo também de Penélope,
Que em sua fidelidade,
E muita inteligência
Aliada ao tear,
Adiou por 20 anos
Inúmeros pretendentes,
À espera de Odisseu,
A quem seu coração
Sempre e sempre pertenceu.
E por fim,
Nesse rápido relato,
Trago também Sherazade,
Que com o poder das palavras
Adiou a morte certa
Na alcova do rei Shahryar,
Em mil e uma noites:
Contando para não morrer,
Vivendo para o dizer.
E até hoje mulheres
Ainda se inspiram
Nesse exemplo de superação
A toda e qualquer opressão.
Mulheres da ficção...
Presentes no dia a dia
De nossa imaginação.
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