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RESGATE HISTÓRICO

Historiador Euges Lima resgata importante nome da poesia maranhense:

Almeida Galhardo é um dos homenageados na Feira do Livro de São Luís (MA).

06/12/2022 15h28 Atualizada há 4 anos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Euges Lima
Euges Lima, na FELIS
Euges Lima, na FELIS

CENTENÁRIO DO POETA ALMEIDA GALHARDO

Convidado: EUGES LIMA, historiador, professor, bibliófilo e ex-presidente do IHGMH

 

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No último dois de dezembro, o poeta Almeida Galhardo (1922/1948) completou seu centenário (1922/2022) de nascimento e, portanto, oportunamente é um dos homenageados da 15º Feira do Livro de São Luís, a FeliS, que está sendo realizada neste mês (05 a 13) no Centro de Convenções da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Para além de uma mera homenagem, essa lembrança, deve representar um resgate e um reconhecimento literário de um poeta extremamente talentoso, mas esquecido, pertencente a geração de 1940 em São Luís. Suas poesias à época eram bem populares, a exemplo de “Gaivotas e Cruz de Ouro”. Mas quem foi realmente Almeida Galhardo? Qual sua importância para nossa literatura?

 

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Para o escritor Carlos Cunha (1969): “Havia em Galhardo um poeta extraordinariamente lírico, pois ele era um cantor dominado pelos sentimentos [...]. Havia em Almeida Galhardo ou Francisco de Almeida Soares um profundo amor pelas alturas [...] É muito pequena esta homenagem que presto a um dos nossos maiores poetas. Mas os grandes homens são assim: nascem e morrem depressa para que as suas obras permaneçam eternas entre os vivos [...] Mas quem agora de bom senso [...] não recorda o poeta de Tutóia, da terra das areias brancas que será cantado enquanto houver poesia na terra?”

Vera-Cruz Santana (1949), que foi seu amigo e companheiro de geração, ressaltou: “Galhardo é poeta de verdade. Ele, como Castro Alves. Sentia em si o borbulhar do gênio”.

 

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Almeida Galhardo era um dos mais promissores poetas de sua geração. Era centrista, foi membro fundador do Centro Cultural Gonçalves Dias (CCGD), em 1945; atuante agremiação literária que congregava a nova geração de poetas maranhenses de São Luís, onde ocupou a cadeira patrocinada por Maranhão Sobrinho. Faziam parte dessa associação, nomes como Nascimento Morais Filho, Ferreira Gullar, Lago Burnett,  Vera-Cruz Santana, Reginaldo Teles, João Lima Sobrinho, Celso Bastos, Tobias Pinheiro Filho e tantos outros jovens poetas que começavam a projetar-se no cenário literário local nesse período. Boa parte desses poetas ficou famosa, compuseram depois os quadros da Academia Maranhense de Letras, construíram carreiras sólidas, sejam regionalmente ou nacionalmente e publicaram obras importantes. Galhardo viveu em São Luís entre os anos de 1930 e1940 e encantou seus leitores com suas talentosas poesias.

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O cartaz da Feira do Livro e a família Euges Lima.

O vate maranhense nasceu em Tutóia, Maranhão, no dia 2 de dezembro de 1922 na Rua Senador Leite. Seu pai era Pedro Luiz Soares, funcionário público federal da Mesa de Rendas (Alfandega) e sua mãe era Joaquina de Almeida Soares. Ele tinha sete irmãos: Rosa Soares Caldas, Maria de Lourdes Soares Ramos, Antônia de Almeida Soares Maia, Maria da Glória Soares da Cruz, Paulo de Jesus de Almeida Soares, José Ribamar de Almeida Soares e Joaquim Pedro de Almeida Soares. Seu nome de registro era: Francisco das Chagas Almeida Soares.

 

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Veio para São Luís ainda adolescente, aos 14 anos, trazido pelo pai, a fim de estudar no Seminário Santo Antônio para ser padre. Após sete anos de vida religiosa, aos vinte e um anos, em 1943, o jovem Chagas Soares, como era chamado pelos seus colegas seminaristas, percebeu que não tinha vocação para o sacerdócio e finalmente, deixou o claustro, iniciando sua carreira como jornalista, poeta e aviador. Seu primeiro emprego foi como jornalista do “Correio da Tarde”, depois trabalhou nos Diários Associados e por fim, no Diário de São Luís. Também trabalhou como fiscal na Prefeitura de São Luís. O pseudônimo Almeida Galhardo surgiu quando ainda era seminarista e estava começando a publicar suas primeiras poesias no jornal “Correio da Tarde”. Para não se identificar, passou a utilizar esse pseudônimo, que adotou definitivamente a partir daí.

 

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Infelizmente, numa tragédia que gerou comoção e abalou a cidade de São Luís naquela tarde do dia 8 de agosto de 1948, o vate maranhense, cognominado por seu contemporâneo, Lago Burnett, de “o poeta das gaivotas”, tragicamente, morreu jovem, aos 25 anos, em um acidente de avião que ele pilotava ao sobrevoar o então povoado da Forquilha.

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Algumas das mais conhecidas poesias de Almeida Galhardo. Organizadas e revisadas por Euges Lima:

 

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Gaivotas

Gaivotas do azul, Veleiros do infinito...

Que possuis o adeus nas asas de alabastros,

Da saudade vós sois os luminosos rastros

Perdidos n’amplidão que extasiado fito...

 

Calmas, singrais os céus entre a espuma dos astros,

Velas pandas de amor – Pampeiros do meu grito…

Poesias trazeis, como divinos lastros,

Nos remígios de luz mais fortes que o granito!

 

E vós rasgais os céus, sem rota e sem destino...

Beduínos vós sois do belo auri divino,

Enchendo a amplidão de versos e de mito...

 

Saúdo-vos daqui, da tenda do meu sonho,

Sentindo-me feliz por vos fitar risonho,

Gaivotas do azul, Veleiros do infinito!

+++++++++++++++++

Cruz de Ouro

Entre o rendado ebúrneo de teu seio,

Arfar sentindo o peito alabastrino.

Pendia um crucifixo de ouro fino...

E em minha dor eu, sem querer fitei-o.

 

Fatal inveja me feriu, notei-o,

Ao ver o Cristo pequenino,

Roçar nesse teu seio, Altar divino

E a ideia de ser Cristo, então me veio.

 

Pequei, bem sei, em desejar ser tanto,

Em ser o Cristo divinal e santo,

Que em teu colo puríssimo se via…

 

Se nesse Cristo eu me tornar pudesse,

Seria o Nazareno da tua prece,

E minha Madalena eu te faria!…

+++++++++++++++

Troféus ao vento

Hoje, eu rasguei tuas cartas, gargalhando.

Tuas cartas de amor, velhas cartas de querida.

E a cada uma que ia, em minha dor, rasgando.

Sentia que rasgava a minha própria vida.

 

Todas elas rasguei...Porém, a mais fingida.

Aquela em que dizias tu, de vez em quando,

Que me amavas demais, essa eu deixei no bando,

De outras cartas de amor, entre as mesmas perdida.

 

Vendo rompê-las, teu retrato me dizia:

Contigo guarda a que tem mais hipocrisia

E rasgas as outras, pois cupido te ameaças.

 

Escutas: Não vá tu, te aborrecer comigo

Porque diz, um velho adágio amigo.

Que uma desgraça sempre atrai outra desgraça.

+++++++++++++++

Soluços...

Há soluços de amor brincando nas calçadas

Do templo de marfim dos teus seios vibrantes,

Envolto pelo véu das rubras alvoradas.

Dos meus sonhos febris – Vermelhos diamantes.

 

E as suas notas de fogo, em loucas revoadas,

Pelos céus da minh’alma, entre luzes fascinantes.

Volúpias de prazer vão deixando gravadas

No divino esplendor dos meus versos gigantes.

Dentre a rubra explosão de amor dos meus tormentos,

Eu olho que eles vão fugindo velozmente

Para o azul d’amplidão, no arcabouço dos ventos.

 

E vejo e escuto e sinto as sombras das calçadas

Do templo de coral da minh’alma descrente

Que há soluços de amor também pelas calçadas.

 

Saudade, amor repleto de ais dolentes

E ainda mais presente dos ausentes,

A vida do meu ser, manar divino...

++++++++++++++++

Um resgate histórico do historiador Euges Lima: aplausos.

Mulher

Mulher – anjo divino – estátua da Esperança,

Esculpida por mim na argila do meu Sonho.

Reverente a teus pés, prostrado, agora, ponho

Tudo o que vai n’alma e me ocorre à lembrança.

 

És a razão, Mulher, dos versos que componho...

A Vênus lendária a quem meu ser se lança

E sorve a inspiração na Fonte da Bonança,

Que é Beleza sem par do teu corpo risonho.

 

És o poema do Amor e a glória deste mundo,

O epinício do Sol, do Oceano profundo,

Que em vagalhões oscula a praia e a rocha nua...

 

Mulher, doce ilusão, murmúrio de uma prece,

Frágil Lírio de Deus, que a um ósculo fenece,

És da Vida a Razão que no meu peito estua!

 

O meu poema e o povo

 

Meu poema de fogo é um grito de batalha,

Trazendo em cada letra o sol de um novo dia...

Ele está n’amplidão... E o vento que gargalha

São suas asas febris vibrando de alegria.

 

É o vermelho arrebol que pelo céu se espalha,

Varrendo do universo a noite da agonia...

É o pranto do plebeu do casebre de palha,

Com os olhos no porvir, que a alvorada irradia...

 

Meu poema de fogo é a grossa fumarada,

Das negras chaminés erguidas para o espaço...

É o próprio coração da plebe desgraçada.

 

Meu poema é o soluçar dos órfãos sofredores,

Que imploram pão e luz na casa do ricaço...

É o arrojo milenar de todos os condores...

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Renata BarcellosHá 4 anos atrásRio de JaneiroBelo texto. Não conhecia o POETA ALMEIDA GALHARDO. Em 2023, estará em minha sala de aula. Parabéns pelo resgate!
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