FELIZ ANO VELHO, nem tão velho assim…
*Mhario Lincoln
Felizmente alguém teve a ideia de reeditar um dos maiores romances "vivos" da história moderna da literatura nacional: "FELIZ ANO VELHO", de Marcelo Rubens Paiva, numa edição comemorativa de 40 anos.
Agora dá pra imaginar como andava a juventude brasileira naquela época, dos truncados anos 80, pós-geração70, a dos hippies, das drogas injetáveis em abundância, do pensamento “Woodstock”, da fatídica revolta dos filhos contra os pais, do ‘vou morar só’ e do aumento considerável do uso da pílula anticoncepcional, liberada desde 1962, provocando inúmeras ideias e argumentos científicos relacionados ao tema hormonal, diretamente ligado ao "tal" contexto sócio-histórico e religioso.
Tudo isso, mais uma juventude brasileira borbulhante, sobre o fogo da brasa psicológica e da influência inconteste do "Peace and Love", cantada e decantada por grandes grupos de rock progressivo (ou não), tocado a cada segundo, nas rádios do país.
Ou, ainda, o rock da turma do protesto, nascido pós-64, que também tocava nas emissoras de rádio insistentemente. Exemplos: “Faz Parte do Meu Show”, (Cazuza), “Dona”(Roupa Nova), “Como Eu Quero”(Kid Abelha), “Que País É Esse?”(Legião Urbana), “Inútil” (Ultraje a Rigor), “Banho de Espuma”(Rita Lee), “Rádio Pirata”(RPM), dentre tantas.
E foi nesse clímax que, em dezembro de 1982, Marcelo Rubens Paiva lançou seu primeiro livro, com 23 anos e ainda cursando a Escola de Comunicações e Artes. Não tinha nenhuma fama como escritor. Pelo contrário.
O livro parecia desconhecido. Entretanto, o insight era fundamental para o enredo que escrevera. Tudo começou em 1979, quando banhava no açude do sítio de um amigo, em Campinas/SP.
Paiva, num salto despretensioso na água, quebrou a quinta vértebra cervical e comprimiu a medula. Ficou tetraplégico. Esse foi o mote para o enredo e o livro ganhou o nome de "Feliz Ano Velho".
Numa das reportagem acerca desse lançamento histórico, o autor mesmo escreveu:
"Subi numa pedra e gritei: -- Aí, Gregor, vou descobrir o tesouro que você escondeu aqui embaixo, seu milionário disfarçado. Pulei com a pose do Tio Patinhas, bati a cabeça no chão e foi aí que ouvi a melodia: biiiiiiin. Estava debaixo d'água, não mexia os braços nem as pernas, somente via a água barrenta e ouvia: biiiiiiin." E agora??? Ficaria eternamente numa cama? Numa bolha indissociável do mundo e da sociedade que lhe cercava?
Não! Marcelo foi mais além e "Feliz Ano Velho" passou para a história como o reverso da moeda, onde o personagem principal, ao contrário do que se poderia esperar, se envolveu numa explosão de sexo, drogas e rock'n'roll.
Uma das matérias mais interessantes que li sobre esse importante evento, está assinada Ivan Finotti, jornalista e crítico, com uma vasta experiência profissional em grandes jornais e revistas do Brasil. E é dele o seguinte parágrafo:
“Ao descrever sua vida, Paiva falava das relações com suas namoradas, da maconha que formava os anéis esfumaçados de sua mente e das noites alucinantes nos clubes de São Paulo. E, assim, Feliz Ano Velho se tornou, além de um fenômeno de vendas, o romance que representava uma geração. Um ícone”.
No prefácio desta edição comemorativa, sendo lançada efusivamente, Marcelo Paiva escreveu: "A missão era retratar uma geração chamada de alienada, a 'geração AI-5', que cresceu durante a reforma educacional da ditadura militar, geração que Renato Russo imortalizou como geração Coca-Cola, considerada consumista, fútil e apolítica, numa época em que os pais proibiam os filhos de ler gibis".
Claro e evidente que na obra, também, excertos das consequências graves do acidente que o autor sofreu. Diz, ainda, o jornalista Ivan Finotti: "Paiva mostrava o universo de deficientes físicos, e do preconceito que sofriam, sempre associados a tristeza e doenças, 'quando na verdade era um grupo muito bagunceiro, maluco, sarcástico, que conheci em encontros, viagens, congressos e centros de reabilitação'. (…). Quis falar abertamente de drogas. Quis falar de dilemas da virgindade. Quis falar do primeiro amor", completa Ivan Finotti.
Foi um impacto tão maluco na história das famigeradas listas dos mais vendidos, da revista Veja, a ponto de tirar o primeiríssimo lugar de "Eu, Christiane F., 13 Anos, Drogada, Prostituída...".
Na mesma reportagem de Finotti, li: “(…) ‘Porque absolutamente todo mundo te leu! Era você e Christiane F., anos 1980 na veia’, escreveu a amiga e atriz Maria Ribeiro na apresentação dessa nova edição (...)”. Finalmente, o jornalista Finotti traduziu numa frase, o que representava aquela obra de Paiva: "(...) um coquetel molotov criado por Paiva que acertou no alvo (...)".
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Ficha técnica (1ª edição): ISBN: 19891260/ Código de Barras: 26011989/ Origem: Nacional/ Idioma: Português/ Categoria: Livros/Autor: Marcelo Rubens Paiva/ Título: Feliz Ano Velho/ Editora: Circulo do Livro/ Edição: 1ª Edição. (Estas referências são pertinentes à capa do livro ilustrativo nesta página).
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