Por Orquídea Santos — Editoria de Curiosidades Literárias da Plataforma Nacional do Facetubes.
Imagine abrir um romance pela manhã e, antes de chegar à segunda página, perceber que o livro está subindo em direção ao teto. A xícara de café segue pelo mesmo caminho. O marcador desaparece atrás de uma luminária. O leitor também começa a flutuar. Isso é um exercício, apenas de Maiêutica, claro, já que o desaparecimento da gravidade terrestre pertence ao território da especulação científica: a própria massa da Terra produz seu campo gravitacional. Contudo, continuemos nesse exercício de imaginação e vamos ver até onde iremos.
Essa hipótese produz uma questão curiosa: ainda seria possível ler um livro físico sem gravidade? A resposta é sim, desde que o leitor, o livro e suas páginas fossem devidamente presos. (Obvia resposta).
Pera aí! Voltemos à história e vamos procurar saber se existe ou não - já que o tema é gravidade - um livro mais pesado do Mundo. Sim: existem exemplares capazes de desafiar até leitores acostumados a grandes obras. O Guinness World Records registra o volume “This the Prophet Mohamed”, apresentado em Dubai em 2012, com cerca de 5 metros por 8 metros, 429 páginas e aproximadamente 1.500 quilos. Entre os grandes manuscritos históricos também está o Codex Gigas, produzido no século XIII e atualmente preservado pela Biblioteca Nacional da Suécia. O manuscrito pesa aproximadamente 75 quilos. Mesmo assim, esses livrões não resistiriam à nulidade gravitacional.
Vejam agora o trabalhão que daria para ler um livro sem gravidade. Mas, ainda, no campo de uma bela suposição: no espaço, o problema seria diferente. Experiências realizadas em ambientes de microgravidade mostram que astronautas precisam fixar objetos utilizando Velcro, presilhas, cabos, elásticos e suportes. Uma biblioteca espacial poderia adotar técnicas semelhantes. O volume seria preso à mesa; elásticos manteriam as páginas abertas; pequenos clipes controlariam as folhas; suportes articulados segurariam livros grandes; o leitor poderia prender os pés ao piso; dedais aderentes ajudariam a virar uma folha por vez; molduras transparentes poderiam manter páginas imóveis; edições especiais receberiam pequenos pontos metálicos para fixação magnética; cordões retráteis impediriam fugas literárias; cabines de leitura teriam circulação de ar controlada. E na Lua e em Marte?
Na Lua, a leitura de livros físicos também seria possível dentro de uma instalação pressurizada. A gravidade lunar corresponde a aproximadamente um sexto da registrada na Terra. Livros continuariam sobre mesas e leitores continuariam apoiados no piso. O cuidado maior estaria na construção do ambiente, protegido do vácuo, da radiação, das fortes variações de temperatura e da poeira lunar. Ler um livro diretamente na superfície, usando traje espacial, transformaria o simples ato de virar uma página numa operação pouco recomendável para quem deseja chegar rapidamente ao final do capítulo.
Marte oferece outra situação. Sua gravidade corresponde a aproximadamente 38% da terrestre. Um livro colocado sobre uma mesa permaneceria ali. Uma estante continuaria cumprindo sua função. A futura biblioteca marciana precisaria controlar pressão, temperatura, umidade, poeira e conservação do papel. O bibliotecário de Marte talvez não tivesse de perseguir livros pelo teto. Teria razões suficientes para pedir aos primeiros colonizadores que fechassem a porta antes de qualquer tempestade de poeira.
Poeira, fragmentos e isso leva a outra realidade. Esta, concreta: o livro atravessou argila, papiro, pergaminho, papel, guerras, incêndios, censuras, naufrágios e revoluções tecnológicas. Uma eventual civilização instalada fora da Terra encontraria formas de levar consigo esse objeto aparentemente simples formado por folhas, tinta e memória. Em Constantinopla, o desafio foi salvar os textos do fogo.
Aliás, falando em fogo & livros, imediatamente leva ao evento da destruição da Biblioteca de Constatinopla. Contudo, vale aqui uma importante explicação. Constantinopla manteve, durante o Império Bizantino, uma das grandes iniciativas de preservação de textos da Antiguidade. No século IV, escribas trabalharam na transferência de obras guardadas em papiro para suportes de pergaminho, ampliando as possibilidades de conservação. Por volta do ano 475, durante o governo do imperador Basilisco, um grande incêndio atingiu a região da Basílica onde existia uma importante coleção de manuscritos. Fontes antigas mencionam cerca de 120 mil unidades escritas. A interpretação desse número exige cautela, já que uma unidade poderia significar rolo, parte de uma obra ou volume.
Vale acrescentar que a Biblioteca de Constantinopla não desapareceu em uma única noite cercada por chamas, como frequentemente aparece em narrativas populares. Incêndios, conflitos militares, mudanças políticas e saques produziram perdas sucessivas durante séculos. O saque de Constantinopla pelos cruzados, em 1204, provocou nova destruição de patrimônio artístico e intelectual. Muitos textos já haviam sido copiados e circulavam em outros centros. Não existe documentação capaz de informar quantos papiros ou manuscritos desapareceram em cada episódio. O incêndio existiu. A ideia de uma fogueira única consumindo todo o conhecimento armazenado na cidade pertence ao campo da simplificação histórica.
Finalizo com o bilhetinho do nosso editor-sênior Mhario Lincoln para que esta pauta curiosa e fora de catálogo se tornasse realidade: “O livro tem gravidade própria. É o único pacto que o ser humano assina com a eternidade. Seja em argila, papiro, pergaminho, papel ou pixel, ele sempre encontra um modo de permanecer, porque a palavra não morre...".
Orquídea Santos é jornalista profissional, apresentadora de TV, consultora de jornalismo empresarial. (UFMA).
Editoria de Curiosidades Literárias — Plataforma Nacional do Facetubes
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Fontes: Guinness World Records; NASA; European Space Agency (ESA); Biblioteca Nacional da Suécia; Metropolitan Museum of Art.
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