Nota do Editor: o Facetubes, plataforma nacional de literatura, arte e música, honrado com a estreia da escritora Judith Bogéa Bittencourt em suas páginas. E mais especial ainda é o objetivo dessa estreia: o de resgatar uma história magnífica da Rua das Hortas, importante artéria da cidade de São Luís, onde ilustres nomes maranhenses residiram. Só agradecimentos sinceros ao aceite dessa digna colaboradora, à partir desta primeira publicação. Seja bem-vinda. Vale um agradecimenmto, também, ao maranhense Jaime Aranha, residente em Brasília DF, por ter feito as apresentações pertinentes.
O texto da escritora Judith Bogéa Bittencourt.
Do livro: "História Comparada da Rua das Hortas". Capítulo I
Jornalista e Poeta Mhario Lincoln,
Este contato que lhe faço tem como ponte a amiga Maria Benedita Silva "Bibi" que aos 91 anos lúcida e com amigos, residente desde que nasceu na Rua do Alecrim, nas proximidades da Rua das Hortas, colocou-me em contato com o Sr. Jaime Aranha por ele já ter residido em São Luís e ser apreciador e conhecedor da nossa cidade. Na conversa com o Sr. Jaime disse-lhe que havia elaborado “uns escritos" como chamo o que denominei "História Comparada da Rua das Hortas".
A princípio supunha que fosse descrever a vivência dessa rua, onde residi por quase um quarto de século com meus pais e irmãos, numas 40 (quarenta) folhas, porém com a colaboração de 30 (trinta) pessoas vizinhas e amigas que lá moraram e continuamos a manter contato (dessas só uma ainda lá reside), chegamos a um pouco mais de informações através de pesquisas de moradores desde 1832 até 2021, com a caracterização de suas residências entre outras informações.
Hortas que gera luz, reluz calor, com afago dos plantadores, carícia dos ventos e a germinar sementes no chão com as pessoas que nela se estabeleceram tornou-se a Rua das Hortas significado do nome oriundo das plantações de hortaliças quando seus antepassados moradores, entre eles portugueses açorianos, se dedicavam a essa cultura nessa via, fato que de geração em geração foi repassado e gerou amizades.
E então nestes quase dois séculos, de 1832 a 2021, nos encontramos entrelaçados ao presente com a caracterização das moradias, das lembranças dos moradores, suas atividades laborais e de entretenimento, aliadas às brincadeiras das crianças dessa época assim como das atividades dos serviços de todos os profissionais que ofereciam suas mercadorias, desde jornais e alimentos como verduras, peixes, pães, leites, quitutes como quebra-queixo, pirulito da tábua, sorvetes no cone com gosto de biscoito, pipoca anunciada por som para a criançada porta-a-porta n’um gosto de levar suas oferendas para todos na Rua das Hortas.
Os festejos carnavalescos ocorridos no início dos anos, a quem até a década do final de 70 do século XX viveu ou transitou na Rua das Hortas, transcorriam com a participação de quase todos os moradores, a maioria como plateia em janelas e as visitas nas residências dos amigos, denominadas “assaltos carnavalescos”, para convidá-los a participar das festas de rua com os animados corsos e nos blocos de bandas. Nos meses de junho e julho quando os festejos juninos se caracterizavam com apresentações dos grupos do Bumba-Meu-Boi da Camboa, Recanto da Floresta, Liberdade e Madre - Deus na Praça Deodoro, ainda com o coreto que recebia os brincantes e com a magia de brinquedos do parque de diversões que lá se instalava nesses meses, era o momento em que os moradores das Hortas migravam para esses locais com a família e amigos de ruas da vizinhança para apreciarem e participarem das brincadeiras juninas com quermesses e passeios na roda gigante, carrossel, montanha russa, vai-e-vem além de saborearem os quitutes das virtuosas doceiras com suas cocada, pamonha, canjica, mingau de milho roleto de cana, maçã do amor. A Praça Odorico Mendes era a favorita para andar de bicicleta e conversar o que também ocorria na Praça Gonçalves Dias que no mês de novembro se transformava no Largo dos Remédios no período dos festejos de Nossa Senhora dos Remédios.
Havia em tempos remotos nos arredores da Rua das Hortas, então localizada no Bairro dos Remédios, vastas Quintas uma delas a Quinta do Marajá, também denominada Macacão e Aurora onde desde o início do século XVIII, em 1828, existia uma fonte conhecida como Fonte do Marajá, tinha essa fonte o estilo da Fonte do Ribeirão, porém pequena, com um paredão, uma carranca de cantaria ou pedra de lioz e uma biqueira de cobre, na época essa fonte era oferecida como de utilidade pública e era propriedade do dono da Quinta do Marajá com seu casarão hoje ocupado por uma escola municipal atualmente localizada na Praça do Macacão defronte da Rua Celso Magalhães. A Quinta da Vitória era outro local aprazível ficava no final da Rua das Hortas, no trecho na época conhecido como Genipapeiro com vista para o Rio Anil, era de propriedade e residência da família do poeta Sousândrade, Joaquim Manuel de Sousa Andrade (1833-1902), engenheiro de minas, graduado em Letras pela Sorbonne em Paris, professor, escritor e poeta maranhense, patrono da cadeira n. 18 da Academia Maranhense de Letras.
Foto: Localização da Rua das Hortas e suas adjacências. (Fonte: Prefeitura de São Luís, 2012. Acréscimos da autora).
O relato da vivência dos moradores da Rua das Hortas busca sensibilizar a outros moradores de logradouros como os das Ruas Formosa e Grande, anterior Estradas Reais, a Rua da Misericórdia que finaliza, nas proximidades onde hoje estão localizados o Hospital Português e o Posto de Saúde Dr. Paulo Ramos na antiga Quinta do Monteiro, assim como a Rua do Giz anteriormente denominada Rua Vinte e Oito de Julho em homenagem ao reconhecimento nessa data, por parte da Província do Maranhão à Independência do Brasil e que recentemente foi considerada uma entre as 10 (dez) mais bonitas ruas do Brasil por sua sinuosidade no traçado e seus belos casarões, sobrados alguns revestidos com azulejos coloniais e onde encontramos portas e janelas com umbrais revestidos com pedra de lioz, pavimento em paralelepípedo e/ou pedra de mão e calçadas com pedra de cantaria que se mantêm a nos lembrar através das suas histórias, quem nelas habita ou nelas viveu, contidas nas belíssimas poesias e musicais de encantamentos sobre São Luís do Maranhão. Quiçá haja a intenção já em desenvolvimento dessas histórias para que permaneçam nos nossos corações e nos olhares de quem visita a cidade e se enternecem com sua beleza; alguns visitantes citam que São Luís do Maranhão é a cidade brasileira que tem mais azulejos, provável mais que outras cidades do Brasil também com reconhecimento histórico.
São Luís (MA), 12 de dezembro de 2022.
Judith Bogéa Bittencourt.
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