*Mhario Lincoln
Outro dia, conversando com minha confreira Sharlene Serra, da Academia Poética Brasileira, surgiu uma rápida discussão acerca das palavras 'poeta' e 'poetisa'. Então, fui pesquisar mais a respeito:
1 - A GÊNESE:
O que primeiro se deve levar em conta são os conceitos emitidos pela maioria das críticas literárias publicadas. A maioria delas, pode se analisar a questão sob diferentes perspectivas. Por um lado, é importante reconhecer que o uso de gêneros gramaticais na linguagem é algo convencional e pode mudar ao longo do tempo e em diferentes contextos culturais.
2 - A HISTÓRIA
Há, na verdade, uma grande mudança com o conceito etimológico da palavra 'poeta'. Existente em português desde o século 14 – derivado do latim poeta, que tinha vindo por sua vez do grego poietes (“autor, criador”) –, 'poeta' nasceu como substantivo masculino e manteve essa condição por séculos a fio. Ainda hoje aparece assim nos dicionários: para designar "(...) uma mulher que escreva versos, deve-se usar o termo poetisa".
Acontece que a língua real não se conforma com isso há muitas décadas. Tanto no Brasil quanto em Portugal, o uso tem puxado a palavra 'poeta' para um lugar de substantivo de dois gêneros, plantado de modo tão sólido que causa espanto não ter sido consagrado desta forma, por gramáticos e dicionaristas. E mais: a crítica literária pode analisar a questão sob diferentes perspectivas. Por um lado, é importante reconhecer que o uso de gêneros gramaticais na linguagem é algo convencional e pode mudar ao longo do tempo e em diferentes contextos culturais. Por outro, a literatura é uma forma de expressão artística que muitas vezes reflete e influencia as normas sociais e culturais, e, portanto, a escolha do gênero gramatical pode ter implicações mais amplas.
3 - COMPREENDENDO O TERMO
Cabe também analisar o quesito da compreensão de muitos analistas culturais nos últimos 10 anos, no Brasil e em Portugal, referindo-se ao termo 'poetisa', como pejorativo. Várias produtoras líricas do sexo feminino - sempre buscando igualdade de gênero - passaram a rejeitar essa distinção. E porque 'poeta'? Primeiro, o impulso na direção do masculino como gênero neutro, como se o 'eu lírico' não tivesse sexo.
“Não sou alegre nem sou triste: sou poeta”, escreveu Cecília Meirelles (1901-1964) no poema "Motivo", o mesmo em que se declara “irmão das coisas fugidias”. Uma geração depois de Cecília, a portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) completava o percurso, reivindicando abertamente para a palavra, o gênero feminino: 'poetisa'. Contudo, hoje em dia é raro encontrar uma construtora de poesias que se apresente como 'poetisa'. O vocábulo ainda se sustenta com as credenciais de “correto” em certos círculos, mas está claramente em declínio "e não soa bem. Parece soar como algo discriminatório esse termo (...)", como me disse a confreira Sharlene Serra.
4 - NA PRÁTICA
A maioria de nós aprendemos na escola sobre gênero do substantivo. Nos livros didáticos pertinentes, a classificação do substantivo é quanto ao gênero, ao número e ao grau. Neles, ainda há uma tabela que dá aos substantivos masculinos seus correspondentes no gênero feminino. Destarte, o feminino da palavra 'poeta', sempre foi poetisa. Durante muito tempo, esse termo foi usado. Contudo, nos últimos anos, uma nova discussão tem rondado os tão sacralizados substantivos femininos, e o termo 'poetisa' entrou na roda de debates, tornando-se alvo de polêmica.
Isso porque o termo 'poetisa' passou a ser contestado por ter sido atribuído ao termo, um significado pejorativo. "Mais parece um termo perto de diminuição e inferiorização da literatura produzida pela pena feminina", como diz o professor Catunda de Freitas. Claro, respingos de uma história amarga, quando as mulheres eram relegadas às barrancas por causa de um padrão que priorizava a produção do homem, nas lides intelectuais.
Sendo assim, muito antes de serem realmente discutidas teorias feministas na literatura, algumas escritoras apropriaram-se do termo 'poeta' para se autodesignarem feitoras de lírica. Um exemplo disso é o de Cecilia Meireles:
"Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta".
(Fragmento do poema “Motivo”).
À propósito, com relação à questão do poema citado, a crítica literária tem revelado inquietude com a representação e a identidade das mulheres, em um contexto - sim, ainda existe, infelizmente - em que o cânone literário muitas vezes tende a valorizar mais os escritores homens. Isso eleva o patamar de uma discussão de simples contexto gramatical para algo muito mais sério: inclusão e diversidade na produção literária como um todo.
5 - O QUE DIZ A GRAMÁTICA NORMATIVA:
A gramática normativa estabelece uma divisão para o grupo de nomes com dois gêneros: feminino, cuja marca desinencial é [-a], e gênero masculino, que não é marcado. Os dicionários demarcam minuciosamente as acepções nos nomes masculinos, enquanto os nomes femininos ficam relacionados com os significados dos primeiros.
É importante lembrar que, embora a gramática normativa estabeleça uma distinção entre gêneros masculino e feminino, essa classificação não necessariamente reflete as identidades de gênero de muitas mulheres que fazem poesia. Por isso, a crescente acepção lógica ao termo 'poeta', como uma igualdade indicativa e inclusiva, vem sendo usado com maior valia, mesmo que as duas formas - poeta e poetisa - sejam regularmente válidas e admitidas na linguagem escrita e oral. Porém está mais que visível a tendência, de usar o termo 'poeta', para designar mulheres que fazem poesia.
Pesquisando no Google achei uma história muito interessante que surgiu na Academia Carioca de Letras, exatamente numa sessão (2017) dedicada à obra de Cecília Meireles: e tudo começou quando a Presidente da União Brasileira de Escritores, Juçara Valverde, líder feminina na literatura, propôs a volta da palavra 'poetisa' para designar as mulheres que seguem o ofício - ao contrário do que defendia Cecília em seu poema “Motivo”, em que nomeava-se “poeta”. (Citado acima).
Diz o texto: "(...) em sua campanha, Juçara recorreu a um poema da tradutora Helena Ferreira, que respondia à autora de “Ou isso ou aquilo”.
“Cecília saudosa amiga/ Teu belo canto existe/ Porque plena foi tua vida/ Doce tua poesia/ Disseste ‘não sou alegre’/ Nem muito menos ‘sou triste’/ Porém, criaste polêmica com o verso ‘sou poeta’/ Controvérsias, entreveros/ Só por causa dos tais gêneros masculino ou feminino!/ É poeta ou poetisa?/ Logo agora que se quer/ Igualdade a qualquer preço!”.
Bom, apesar dos tapumes ou biombos que separam as razões pessoais e intransferíveis acerca do gênero, em qual das opções você se firma? Poderia deixar a força de sua opinião abaixo para se ter uma ideia real dessa questão?
*Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.
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