Carta a Betto Pereira,
*Mhario Lincoln
Meu dileto amigo. Como me fizestes bem, hoje, logo ao acordar. Em teu Instagram, uma tela retratava os diversos padrões feitos de papel seda que 'cobriam' armações estruturais de talos leves: meus papagaios (pipa) da infância.
Ainda me lembro que, meticulosamente trançava as três hastes, a de baixo, tentava um arco côncavo perfeito, medindo e 'amarrando' cada ponta, circundando o formato com as linhas de costura de minha mãe. Nem sempre conseguia surrupiar o carretel de linha branca; a mesma que servia para alinhavar, chulear, embeber, franzir, fazer pences e plissados....mamãe, quantas vezes, cerziu meus sonhos também.
Por isso, a tua tela também me fez lembrar de minha mãe. E me lembrou também que raríssimas vezes a vi sentada na "Singer", mas guardava os apetrechos de sua máquina de costura, da mesma forma como guardava papéis e fotografias em sua mesa de trabalho, onde, no centro, estava uma “Remington”, com a qual exercia sua atividade de jornalista. Era um pedaço dela mesma. Tua tela me fez lembrar disso e de tantas outras coisas, caro confrade Betto.
Fez-me refletir sobre uma época em que engatinhava em meus sentimentos. Quantas vezes me vi diante de angústias, desespero, medo e glórias, enquanto empinava e 'lanceava' meus papagaios, bodes ou jamantas artesanais, feitas por mim ou compradas na casa de Zezé Caveira, rua das Cajazeiras, esquina com Barraquinha, em minha velha S.Luís-Ma. Aliás, conversando com meu amigo Wellington Reis sobre o assunto, ele completou: "Zezé Caveira foi o cara que inventou o papagaio-bode (de tamanho maior). Esse, a gente empinava com linha 20". Sim, uma linha mais forte em que o cerol grudava melhor. Quantos 'bodes' perdi em grandes lanceadas na praça Deodoro....
Mas o simples ato de observar meu artefato no ar me fazia contemplar não apenas a beleza efêmera entre preceitos físicos de equilíbrio e fricção, das formas, da complexidade equacional entre a espessura da linha e o empuxo de sustentação, como também, o medo de perder meu papagaio para outra linha inimiga, cheia do tal cerol-raio, fabricado com lâmpadas fluorescentes, esmagadas nos trilhos dos velhos bondes do Departamento de Transportes Urbanos de São Luís - DMTUSL.
Sempre acabava perdendo, chorando e me desesperando, porque é muito difícil ir (de) encontro à máxima de Heráclito: 'Tudo flui, nada permanece'. Contudo, há mais do que simples movimento de linhas cruzando o céu em disputa por espaços e lanceios. Isso porque, quando o cerol corta a minha linha, estabelece-se, no ato, um conflito real entre o ser e o não-ser, o prazer e a dor, a liberdade e as minhas limitações. E aí vêm os autoquestionamentos: por que não coloquei menos 'goma' na mistura com o vidro? Por que não usei linha '8', ao invés de linha '10'? Talvez se tivesse feito um buraquinho do lado esquerdo do papagaio ele não ficaria tão 'penso' para esquerda e eu teria mais controle na lanceada.
Parece simples, bobagem, mas não é! Quando empinava meu papagaio, feito com coração, cola branca comprada na Livraria ABC, linhas surrupiadas da máquina "Singer" da minha mãe e papéis de seda coloridos, comprados na quitanda de seu João Carvalho, na rua do Ribeirão, canto com a rua do Machado, no centro de minha Ilha dos Amores, crescia liberdade absoluta em meus olhos. Eu sentia um poder incrível com domínio absoluto sobre a linha, manobrando-o com esmero, pelas correntes de ar, mesmo sabendo ser esse sentimento de liberdade, simplesmente temporário. Ora, eu queria ter meus minutinhos de fama.
Então, caro Betto, ao contemplar a tela (no mesmo tom usado pelo maestro Jesus Santos, outro artista maranhense apaixonado por papagaios), essa me oportunizou trazer de volta meus antanhos. Relembrei uma lição importante que aprendi: cada lanceada ou levava ou trazia um pedaço de minha história. Desta forma, a beleza dos teus papagaios em espátula e cores vibrantes, são igualmente linhas imaginárias que meu pensar materializa e as fazem sustentar meus sonhos.
Mesmo que os ceróis intempestivos - vez por outra - cortem minhas linhas imaginárias, me sinto ainda em liberdade absoluta. Sem deixar de refletir sobre a minha existência enquanto indivíduo coletivo. Tentando, de certa forma, me permitir continuar com meus significados, aprendendo cada dia com as experiências cotidianas.
Esse é o milagre da arte visual bem apurada: arte e simbolismo associados a insights cotidianos, com capacidade notável de evocar reflexões profundas, como em mim provocou, desde a ideia básica da liberdade individual. Porém, consigo vislumbrar com mais clareza que essa liberdade (como me referi acima) é, sim, efêmera. Mesmo que meus papagaios e minhas vontades voem alto, elas sempre estarão 'presas' a uma linha emocional - igual àquela em que Pedro, o apóstolo de Cristo, ensinou: "(...) tudo me é lícito, mas nem tudo convém”.
Por fim, enquanto desenrolo minha "bola" de linha dos meus 70 anos, tento entrar na roda do Samsara, buscando percorrer os seis caminhos diferentes, ensinados por Sidarta Gautama, do carma evolutivo, em busca de voar alhures e de minha clarividente iluminação.
(*) Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.
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