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Mais um texto de Edmilson Sanches: "Quatro Palavras, quatro Mulheres"

Da origem e sentido de palavras e dos fins sem sentido de agressões.

01/11/2023 às 14h56 Atualizada em 01/11/2023 às 15h07
Por: Mhario Lincoln Fonte: Edmilson Sanches
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“As Quatro Mulheres”, de Salua Saleh
“As Quatro Mulheres”, de Salua Saleh

 

Ilustração original do texto: “As Quatro Mulheres”, pintura de Salua Saleh.

 

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DATA – 16, 19 e 21 de outubro de 2022. 

PAÍS – Brasil. ESTADOS – Alagoas, Rio de Janeiro, São Paulo.

(DES)QUALIFICATIVOS – Bruxa. Prostituta. Puta. Vagabunda. 

SUBSTANTIVOS (ANTROPÔNIMOS) - Carmen. Laura. Marina. Michelle.

Segundo a estranha (senão louca) percepção de muitos, Carmen e Marina estão de um lado. Laura e Michelle, de outro. É tempo de eleições, a maior delas, no Brasil.

“Carmen” (latim “carmen”), na origem, significa “canto”, “canção”, “poema”.

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“Laura” (latim “laurus”) significa “vitoriosa”, “triunfadora”. O nome vem do “louro” ou “loureiro”, a planta com cujos ramos, na Roma e Grécia antigas, se fazia a coroa (“corona triumphalis”) colocada na cabeça de heróis e outros vencedores, pessoas de destaque nas Artes, no Atletismo, nas Guerras... As flores e folhas dessa planta têm ou assumem cores/tonalidades amarelas ou douradas.

“Marina” (latim “marinus”) significa “do mar”.

Michelle (do francês “Michéle”, originado do hebraico Mikhael, união de “mikhayáh” e “El”), significa “Deus é incomparável” ou “Quem é como Deus?”

 

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Eram as melhores as intenções dos pais das quatro mulheres acima quando lhes deram o nome que cada uma carrega até hoje. O amor dos pais e o sentido da Etimologia  se igualam na origem: os nomes Carmen, Laura, Marina e Michele são bons e, histórico-linguisticamente, têm nobreza, nobreza de modos e não necessariamente de majestade.

 

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Mas, em menos de uma semana, de 16 a 21 de outubro de 2022, esses nomes (ou quatro mulheres portadoras deles), foram objeto da mais baixa vileza, da mais vil baixeza que habita cada um de nós e que, em certas situações, muitos de nós deixamos aflorar, vir à tona.

 

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Nesses casos, não importa o porquê: qualquer que seja ela, a razão é torpe, a justificativa é ignóbil, o motivo é infame, a origem é suja, o argumento é nojento, a causa é asquerosa. Falou aquelas palavras maculadoras de ou para uma mulher, já está errado. E dizer que uma mulher é bruxa, prostituta, puta ou vagabunda por escrito ou em áudio, em redes sociais, em suportes impressos ou digitais, mais errado ainda. E dói saber do sofrimento íntimo  -- e quiçá duradouro, eterno --  de cada uma das vítimas, cada uma à sua maneira, por terem o substantivo de seu nome obscenamente ligado à repulsa daquele (des)qualificativo.

 

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Se você acha que é exagero, permita-se ouvir de algum boca-suja chamar sua filha, irmã, esposa, mãe, avó de nomes como estes quatro – bruxa, prostituta, puta, vagabunda.

 

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Carmen, que é jurista e ministra, foi ofendida (“bruxa”, “prostituta”) por Roberto, que é advogado e ex-deputado federal, no Rio de Janeiro. Era 21 de outubro de 2022.

 

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Em 16 de outubro de 2022, Laura era criança, estudante, tinha 11 anos e foi ofendida (“puta”) por uma mulher Bárbara, jornalista aposentada, de São Paulo, como antecipado “presente” por seu aniversários de 12 anos dois dias depois. E dois dias depois, no colégio e no dia do aniversário, repetiu-se o “presente” para Laura: um garoto, reconhecendo-a, perguntou: “Você é a puta?” Gente bárbara faz escola...

 

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Marina, que é professora e política, foi ofendida (“vagabunda”) por uns comensais, anônimos e aloprados, em restaurante em Minas Gerais. Era 21 de outubro de 2022.

 

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Michelle, que é intérprete de Libras e ex-primeira-dama do Brasil, foi ofendida (“vagabunda”) por uma mulher, Samya, procuradora-geral, de Alagoas. Era 19 de outubro de 2022.

 

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Quer saber mais sobre as quatro ofensas, veja na Internet.

 

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Não é por nada, não, mas, lamentando profundamente os xingamentos a essas (e a outras) mulheres, fico me perguntando sobre a criança mulher. Não fomos nós brasileiros, por nossos representantes federais, que asseguramos em Lei (nº 8.069, de 13 de julho de 1990) que:

 

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--- “A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, MORAL, espiritual e social, em condições de liberdade e de DIGNIDADE”;

 

-- “Os direitos enunciados nesta Lei aplicam-se a todas as crianças e adolescentes, SEM DISCRIMINAÇÃO de nascimento, situação familiar, idade, sexo, raça, etnia ou cor, religião ou crença, deficiência, condição pessoal de desenvolvimento e aprendizagem, condição econômica, ambiente social, região e local de moradia ou outra condição que diferencie as pessoas, as famílias ou a comunidade em que vivem.”;

 

--- “É dever da família, da comunidade, DA SOCIEDADE EM GERAL e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à DIGNIDADE, ao RESPEITO, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”;

 

--- “NENHUMA CRIANÇA ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais”?

 

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É claro, sabemos que muito antes de Laura e muito depois dela violências verbais e físicas se somarão e assomarão o corpo e a mente de gente criança e adolescente que nem ela. O Brasil ainda é, sob qualquer ângulo, muito injusto...

 

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Quanto à mulher Bárbara, que falou de Laura, tarimbada que é, de família de história em São Paulo, sabe se defender e o que dizer. Disse, entre outras coisas, à “Carta Capital”, em 24/10/2022, oito dias após juntar criança e puta na mesma frase: “Eu sempre vou até o limite. O que sempre faço é polemizar. Fiz a minha vida inteira, tentar ir até o mais longe possível. É como um comediante com a sua piada. Obviamente, fui longe, admito que esse meu ‘tweet’ realmente é ousado. Mas ele não está insultando ninguém”. E continua: “É óbvio que eu estou absolutamente horrorizada com o que eles estão fazendo comigo, porque eles pegaram um ‘tweet’ de uma pessoa que não tem mais uma vida pública, que é uma pessoa particular, e transformaram num fato político. Me jogaram numa frigideira. Pegaram, para variar, uma jornalista mulher, aposentada, que não trabalha em nenhum veículo, que não pode se defender.”

 

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Como se lê, as mulheres sabem se defender. Perpétua Almeida, deputada federal do Acre (PCdoB) alevantou-se: "Nós não podemos aceitar nenhum desrespeito às mulheres” (“Estado de Minas”, 22/10/2022). Simone Tebet, senadora (MBD-MS) foi no mesmo tom: “Ninguém tem o direito de agredir uma mulher, seja ela uma autoridade pública ou não [...]” (“Correio”, Salvador – BA). Estas duas defesas ou alertas foram em favor da ministra Carmen Lúcia, 68 anos à época, chamada de “bruxa” e “prostituta”.

 

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Essas duas defesas ocorreram seis dias depois de, na rede social (microblog) Tweeter (hoje, “X”), Laura, de 11 anos, ter sido chamada de “puta”. Como o Brasil agora se divide em dois lados, um dos lados não socorre, não defende, não alerta, não se indigna, não se comove se o ocorrido ocorre  --  correntemente --  com o lado oposto. Nem mesmo quando se trata de uma criança. Alguém de um lado expressar-se em favor de alguém do outro lado não é de bom tom. É obrigado ser partidário. É proibido ser humano... “Partidário” é agente interesseiro em poder. “Humano” é gente interessada em civilidade.

 

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Aqui, nenhuma intenção de demover nem “a” nem “b” de seus princípios e fins, erros e acertos. Já escrevi que, em certas situações e com certas pessoas, nenhum argumento é preciso, e, em certas situações e com certas pessoas, todo argumento é inútil. Deste modo, apenas exerço o livre direito à expressão (escrita) do pensamento  --  ainda pode? Creio que, do jeito que falo e escrevo, eu não seja desrespeitoso  --  pelo menos não mais e bem distante do que a todo instante se lê, se vê, se ouve por aí.

 

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Suetônio (69-141), escritor romano, creditou a Calígula o lema “Oderint , dum metuant”. A frase é de um drama de Cícero (106 a. C.--43 d. C.). Em português, fica-se sabendo que ela resume sentimentos humanos antípodas mas necessários à convivência:

 

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“Odeiem-me, contanto que me respeitem”.

 

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Mas estamos no moderno Brasil, não na Antiga Roma...

***

Além das quatro pessoas que sofreram os xingamentos, além daquelas que os promoveram, outros entes igualmente se contraíram nessa “Guerra de Seis Dias” de desqualificação de mulheres: as palavras, quatro, todas também femininas, todas substantivas, todas também com sua história, sua peculiaridade, seu... respeito:

 

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BRUXA -  A palavra “bruxa” (de um ainda não provado latim “brouxa”) registra-se em Língua Portuguesa desde 1559. Neste caso, seu uso não tem a ver com seu sinônimo “feiticeira”, mas com dotes de beleza (ou falta deles) ou com estado de espírito (mal-humorada, azeda).

 

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PROSTITUTA – Chamadas de “mulheres de vida fácil”, as prostitutas estão longe de ser o que lhe chamam. Não saber com que tipo de parceiros vai-se envolver em suas saídas, se vai ser amada ou também espancada, humilhada, se conseguirá o necessário para sobreviver mais um dia, se conseguirá ter um futuro longe do ofício  --  eis o que esperam essas mulheres todos os dias, e noites. O nome que denomina a pessoa e a atividade (prostituição) resulta também de um encontro: a união do prefixo greco-latino “pro-“ (que tem, entre outros significados, o de “diante de”) mais o interpositivo “-stare-“ (que significa “estar de pé”). Juntando-se, fica: “estar de pé diante de”  --  neste caso, estar de pé, exposta, “à venda” (está na etimologia da palavra), frente à rua, frente ao vidro (como na Holanda), frente ao possível futuro cliente...

 

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PUTA – A palavra atirada – barbaramente --  contra Laura criança traz na sua origem a inocência infantil... que os adultos logo deturpariam. Realmente, a palavra “puta” tem origem no latim popular “puttus” / “putta”, com o significado de “menino” / “criança”, nome aplicado pelas famílias romanas em lugar do latim culto “pueri”, presente em adjetivos como “pueril” (“infantil”) e “puérpera” (mulher que acabou de ter uma criança) e, entre outras, “puericultura” (ciência do desenvolvimento físico e psíquico da criança, da gestação à puberdade). Ainda hoje, em Portugal, nomina-se uma criança como “puto” ou “puta”. Veja-se também a conexão com o também latim “putus”, com um só “t”, que tem o significado de “puro” --  e com cujo sentido de “apurar uma conta” veio contribuir para a formação da palavra “computar”, “computador” e seus derivados e conexos.

 

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VAGABUNDA – O antepositivo latino “vagus” (significando “que se move de um lugar para outro”, “errante”, “desocupado”) juntou-se ao sufixo latino “-bundus” (“'cheio de, propenso a”) e, com essa riqueza de ociosidade, formou esse substantivo que se aplica à pessoa que leva a vida sem trabalhar, “na flauta”, que perambula, pessoa vadia e, pejorativamente, o malandro, o canalha, gente inferior etc.

 

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Certa vez, quando, menor ainda, adquiri o “Aurélio de fardão” (a versão com encadernação almofadada do “Dicionário Aurélio”), li que as três palavras com maior número de sinônimos eram: dinheiro, bebida... e mulher. Mas a “mulher” cujos significados se avolumavam no verbete principal não era a mulher “mulher”; era a mulher “vadia”, “de vida fácil”, ...puta. Dezenas, senão centenas, de palavras enfileiravam-se em ordem alfabética, formando um tapete de vocábulos todos dedicados à definição desqualificadora da mulher...

 

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Lamentavelmente, as quatro palavras de hoje e seus significados tão cedo ficarão em estado de dicionário. Elas há muito decolaram das pistas de “bits” e de celulose e tinta que as guardavam e foram pousar  -- pelo visto, para sempre – nas mentes e dedos e bocas dos que, incapazes de tornarem melhor a Humanidade, preferem ser o pior dela...

 

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As palavras não têm culpa de nada. Igual às facas na cozinha, que cortam e limpam aquilo que alimenta mas também podem ferir e matar, as palavras, bem utilizadas, têm como alimentar histórias, relatos, biografias, conversas...

 

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...ou, refletindo o pior de quem as manuseia, podem ser agressivas, ferinas, doloridas, infelizes, recalcadas... e covardes.

 

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“Quousque tandem, Catilina, abutere patientia nostra?”

 

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Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?

 

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Lucius Sergius Catilina, desmascarado, ficou sabendo do poder que boas palavras têm.

 

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Hoje, infelizmente, faltam-nos os Cíceros para dizê-las.

 

EDMILSON SANCHES

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JaimeHá 2 anos Brasília /DF Alta magnitude!!!
Evandro ChagasHá 2 anos São Luís/MAEspetacular, além de ser didático....
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Edmilson Sanches
Sobre o blog/coluna
Edmilson Sanches é um dos intelectuais brasileiros mais aplaudidos em diversas áreas da literatura contemporânea. É jornalista, consultor, palestrante, editor, bacharel em administração pública e licenciado em letras.
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