*Mhario Lincoln
Não foi uma sensação comum que eu senti ao folhear "A Linguagem da Ausência". Quando comecei a ler veio-me de imediato a vontade de decifrar esse conceito intrigante que tem o livro - em meu bestunto – cravado nas raízes originárias da filosofia e na junção do hermenêutico com o prático, muito além de uma construção, simplesmente, lírica. Algo perceptível, mas que transcende as barreiras acadêmicas para se manifestar como uma outra forma de expressão poética reflexiva sobre o existencialismo.
O livro de Rogério Rocha, de todos os 50 que certamente li em 2023, pode ter sido o mais perto da plenitude legítima da liberdade de expressão poética, especialmente por incorporar o seu papel na transformação das fases criativas do autor. Eu me baseio na historicidade de Rogério, desde quando recebi seus primeiros conteúdos líricos. Além disso, discutir nesse nível - a linguagem da ausência - é algo dificílimo quando se busca alinhar o "eu poético" com a representatividade da alma.
Por isso escrevi, antes de ler a obra, que o tema (seria) complexo por explorar a natureza da ausência e do vazio como elementos centrais das reflexões de Rogério. Para entender, após lê-lo, fui à fenomenologia e descobri 'a ausência' como parte intrínseca da consciência, esta, constantemente dinâmica por buscar preencher lacunas e vazios. O filósofo francês Jean-Paul Sartre, em sua obra "O Ser e a Nada", aborda a ausência como um elemento fundamental da existência humana, enfatizando "(...) a liberdade e a responsabilidade que surgem quando confrontamos a ausência de significado pré-determinado em nossas vidas(...)".
Mas como eu li uma obra poética, (mesmo que vá além, como já disse) tenho que analisá-la nessa abordagem. E nesse aspecto, "A Linguagem da Ausência" traz em seu bojo sublinhas que alcançam conceitos muito perto da linha do simbolismo e do surrealismo, levando-me a convidar para a mesma mesa, por exemplo, Arthur Rimbaud e André Breton exploradores da 'a ausência' em seus escritos, utilizando metáforas e imagens enigmáticas para comunicar a complexidade do mundo interior humano. Ora, "A Linguagem da Ausência", através de seu autor, teve a imensa capacidade única de transformar em poesia toda essa complexidade simbólica e surreal, través de interpretações pessoais do vazio, da incerteza e da ambiguidade, elementos intrínsecos à experiência existencial.
Aí, o lado dolorido de quem compõe versos: a explicitude do existencial. Muitas vezes escondidinho no abissal da própria alma. Veja que delícia ter a oportunidade ímpar de ler versos assim! Mesmo porque, quando os poetas exploram a ausência, eles estão, de certa forma, enfrentando a própria essência da existência humana: a busca por significado em um mundo muitas vezes carente de respostas definitivas.
Essa trapézica e perigosa investida de Rogério Rocha em utilizar a poesia da 'ausência', de certa forma, acaba por desafiar as estruturas tradicionais românticas, acadêmicas e 'preguiçosas" da linguagem e da narrativa. Assim eu, leitor, fui dilaceradamente pespegado a mergulhar em um mundo de simbolismo e imaginação, até então, pouco visitado por mim, em minhas leituras. Então conclui: essa forma de poesia não busca fornecer respostas, mas sim questionar e explorar as perguntas fundamentais sobre a vida, o amor, a morte e a identidade.
À medida que avanço nas páginas desse agregado de ideias poéticas, torna-se necessário ir às mais longínquas nesgas do entendimento diferenciado. E tenha certeza que aprendi algumas coisas muito interessantes que irei usar - e já as estou usando neste texto - porque transcende fronteiras disciplinares e se manifesta na filosofia, na arte e na poesia. Quer ver? É impossível escrever sobre "A Linguagem da Ausência" e não citar excertos que me chamaram bastante a atenção:
"(...) quero um canto de sensatez, com força de recorrência, atendendo com paciência, ao insano amor da musa que assim me quer e fez", onde se revelam elementos relacionados à busca por uma estabilidade emocional e ao papel da paciência na interação entre indivíduos; isto é, um desejo por equilíbrio e racionalidade em meio às emoções humanas e a uma sociedade frequentemente marcada por desafios e turbulências emocionais.
Outro excerto emocionante: "meu corpo é um fantasma do avesso". É pura reflexão sobre a identidade pessoal. Quem sabe não é uma crítica às normas corporais impostas pela sociedade? Cito isso aqui, possivelmente por influência de uma recente obra que li e é essencial para o século XXI. Trata-se de "O Mito da Beleza", de Naomi Wolf. Nessa obra ela mostra que milhares de pessoas ao redor do Mundo, estão literalmente "desconfortáveis em relação ao próprio corpo".
Já o verso "só a tua letra informa, a história da voz e do som que não ouço..." é sui-generis: seria uma grande dificuldade de compreensão completa entre vibrações sensitivas e sensuais, que deve se ter dado de forma fragmentada? A letra, está lincada ao espasmo da mão, a voz reproduz as emoções interiores e o som que não ouço... bem, esse, é um aspecto altamente pessoal e intransferível. O que me levou a escolher esse verso foi a ideia da lacuna entre a linguagem e o espasmo da consciência "duo/sensitives".
Finalmente, não poderia deixar de citar algo que realmente me deu trabalho para analisar: "Sou tormento na calma da tarde, com o fio de Ariadne acerto minha rota (...) O labirinto é sempre um desafio." Mas, depois de ir ao encontro de São Tomás de Aquino, pude interpretar tais versos começando com uma representação da dualidade, nessa experiência lírica. O mais forte, no entretanto, é "O Labirinto é sempre um desafio". O uso da metáfora do labirinto no verso pode ser visto como uma representação simbólica das complexidades ao entorno e pode ser entendida a um simbolismo, até, das estruturas sociais, das normas e dos desafios que as pessoas enfrentam em suas interações com a sociedade. O labirinto pode representar os caminhos intrincados que as pessoas precisam navegar em suas vidas.
Por outro lado, a espetacular assertiva de citar o ‘fio de Ariadne’ é prova de sabedoria, pesquisa e conhecimento de Rogério Rocha. (Eu sempre afirmo que só o dom não resolve). Voltando à mitologia grega, sabe-se que esse fio foi usado por Ariadne para ajudar Teseu a sair do labirinto do Minotauro. Filosoficamente, o fio de Ariadne pode ser interpretado como um símbolo da razão ou da orientação moral que guia as pessoas em sua busca por significado e direção em um mundo complexo ou simplesmente a busca, dele mesmo, por algo existencial querendo respostas e significados que podem ter sido experimentadas nesta sua primeira obra ‘revolucionária’, semente de uma tríade, sem dúvida, a ser continuada sobre o tema.
E por fim, outro verso simples enlouquecedor: "o que faço com o infinito que transborda em mim". Será uma resposta subliminar à pressão da sociedade diante de normas e limitações? Algo próximo a autoexpressão e a conformidade social, destacando a necessidade de equilibrar o desejo de ser autêntico com as expectativas sociais. Pode ser igualmente, uma ideia de que os seres humanos têm riqueza interior e que transcendem a limitações físicas e temporais. Isso se relaciona com a filosofia da mente e da consciência e com a ideia de que a experiência humana é vasta e complexa, indo além das categorias convencionais. Portanto, seria um pecado, tentar analisar esse verso, apenas, como algo poético. O que o verso pode ter feito, foi fornecer insights adicionais para sua interpretação poética.
Desta forma, sinto-me enriquecido deveras por ter lido as 217 páginas textuais de "A Linguagem da Ausência", caro Rogério. Aprendi muito. Refleti muito, porque fui impelido a tal. Obrigado.
Parabéns, portanto, confrade Rogério Rocha.
Mhario Lincoln, presidente da Academia Poética Brasileira.
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