*Mhario Lincoln
"Até ali, ele já contava com 62 anos, e os alinhavos passavam obrigatoriamente pelos degraus da batalha hercúlea da vida - às vezes Quixote, outras Sísifo, outras ainda, em constantes litanias, entendia que os filósofos estoicos talvez nem tivessem tão certos em pregar a ideia dessa coisa de perfeição humana, fundamentada na ideia de que os seres humanos estão ligados à natureza". MHL
Imaginemos um momento de glória para quem exerce uma atividade pertinente À Ciências Humanas: é periodista, poeta e sonha todos os dias em vencer uma grande guerra, apenas com o lápis e a folha de almaço nas mãos.
Assim aconteceu quando o jornalista e poeta Nonnato Masson, (com quem convivi em momentos muito agradáveis de meu começo de carreira), recebeu a notícia de sua eleição, num escrutínio difícil, dia 11 de outubro de 1984, para a gloriosa Academia Maranhense de Letras. A posse seu deu somente no dia 24 de janeiro de 1986, quando foi anfitrionado com honras por seus pares, na Casa de Antonio Lobo.
Imagino que de seu lugar - entre alguns olhares meio desconfiados, até então, viu o acadêmico Evandro Sarney subir à tribuna da Casa e proferir o discurso vestibular, não menos assinado pelo, então, Presidente da República, poeta e confrade José Sarney.
Logo às primeiras linhas, a consagração de um menino nascido em Araioses (MA), município originariamente de 1769, quando um grupo de índios separados dos Tremenbés, tribo que habitava grande parte do litoral maranhense, chegaram aquelas terras e se autodenominaram ‘Araios’.
Seus pensamentos em Araioses foram interrompidos exatamente quando Evandro abriu a fala com o seguinte trecho: "Aqui chega o novo acadêmico, trazido no sopro de uma prosa viva, sopro dos ventos fartos e abertos. É do litoral de Icatu, que lhe conheceram os primeiros gritos."
E lá estava ele sentado em posição privilegiada, ouvindo o discurso do então Presidente da República, seu anfitrião na AML. Com seus grandes olhos, em rápidas pinceladas pelo ambiente, tentava adivinhar os números, enquanto ouvia a voz compassada de Evandro, da tribuna.
A linguagem compassada do colega, imortal da Cadeira 12, com antecessores extraordinários como Clodomir Cardoso e Odylo Costa, filho, dava-lhe tempo para, ainda, alinhavar sua história. Até ali, já contava com 62 anos, e os alinhavos passavam obrigatoriamente pelos degraus da batalha hercúlea da vida - às vezes Quixote, outras Sísifo, outras ainda, em constantes litanias, entendia que os filósofos estoicos talvez nem tivessem tão certos em pregar a ideia dessa coisa de perfeição humana, fundamentada na ideia de que os seres humanos estão ligados à natureza.
Porém, ele tinha certeza do que pretendia fazer quando assumiu a editoria do Caderno “B”, do tradicional ‘Jornal do Brasil’. Levava consigo a sua fórmula inovadora de adaptá-lo ao novo comportamental de uma nova geração.
E como tudo que antecipa mudança no 'comum', o "B" tornou-se polêmico por suas experimentações e ousadia. Isso fez ‘rodar’ a editoria, sendo ela ocupada por Reynaldo Jardim, pouco tempo depois por Claudio Mello e Souza e Nilson Viana.
Até Nonnato Masson assumir as rédeas do "B", como editor, e fazer um brilhante (mas difícil) trabalho entre 1960 e 1964.
Coisa incríveis aconteceram nesse período, como por exemplo: foi ele quem convidou os cronistas Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Clarice Lispector e Carlinhos Oliveira, completando um time de primeira, como ele – exatamente - imaginava.
Foi tão forte e poderoso esse trabalho que tanto o “Suplemento Dominical do Jornal do Brasil”, quanto o “Caderno B”, tiveram grande peso na história da imprensa brasileira ao conquistarem um público-leitor moderno e isso, imediatamente chamou a atenção dos grandes anunciantes.
Masson, ainda, teve participação fundamental no JB, transformando-o - antes alcunhado injustamente de 'popularesco', por publicar os classificados de emprego na primeira página – num matutino cheio de classe e estilo, radicalmente!
Esse foi o Nonnato Masson que conheci mais amiúde, alguns anos depois. Não o vi mais, nem fui a sua posse na AML. Mas aquele jornalista, poeta e transformador, deveria ser o mesmo que ali, sentado, em 1986, ouviu atentamento a 'voz virtual' de José Sarney, o acolhendo na mais alta instituição literária do Estado.
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Intrometendo-me: o interessante é que eu vivi esse tempo em que Masson revolucionou o "Jornal do Brasil". Aos domingos, o JB de meu pai José Santos, ficava debaixo de um pneu velho, (enrolado em um saco de Lusitana, na terceira banca de jornal, de quem sai do Beco da Pacotilha, no rumo do Moto Bar. (Tinham várias bancas na Praça João Lisboa, em S.Luís-MA, onde nasci).
Em 1964 eu tinha 10 anos e era eu quem ia buscar o JB. Mutatis mutandi, isso me fez decidir qual seria minha carreira. Assim, aos 14 anos ganhei, com orgulho (e ainda a tenho), minha carteira de ‘Repórter-Amador do Jornal Pequeno’ e passei a auxiliar o repórter policial Eloy Cutrim, em suas vigorosas buscas por "um presunto" fresquinho.
Saudades desse tempo. Muitas!....
P.S.
Para ler o discurso de recepção do ex-presidente José Sarney a Nonnato Masson (clik no link abaixo):
Natalino Salgado Fº “Uma noite para guardar na memória”, especial de Natalino Salgado Filho
Cordel Brasileiro “CORDEL BRASILEIRO E AS CAPAS QUE CONTAM HISTÓRIAS”, por Esmeralda Costa
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