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editor-sênior, jornalista Mhario Lincoln
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A arte analítica de Socorro Guterres em sua obra "Nos Domínios da Linguagem (Veredas)

Socorro Guterres ´=e convidada da Academia Poética Brasileira, seccional Maranhão.

03/05/2024 13h05 Atualizada há 2 meses
Por: Mhario Lincoln Fonte: Socorro Guterres
Socorro Guterres (Divulgação).
Socorro Guterres (Divulgação).

Veredas: trilha, caminho, rumo, direção, orientação: eis a obra!

*Mhario Lincoln

 

Muitas são as passagens plurinteressantes nessa obra que, para mim, é uma das células-maternas da linguagem interpretativa, a partir de Roland Barthes e Ítalo Calvino. Aliás, é ótimo por ter esses dois pensadores como referência. Isso porque, ao ler "Nos Domínios da Linguagem (Veredas)", fica evidente essa fricção emotiva da vontade de Socorro Guterres, com o prazer do texto. De desnudá-lo, de buscar essências, de retirar as letras do sonambulismo.

Confesso: para ler Socorro Guterres, tive que voltar a ler e compreender, ab initio, “O Prazer do Texto” de Roland Barthes. É dele que retirei o limo que cobria a minha compreensão absurda da metalinguagem propriamente dita. Isso porque, de repente, ao abrir "Nos domínios da Linguagem (Veredas), de Socorro Guterres, logo às primeiras páginas ela me traz Barthes, livre, leve e solto.

E lá mais na frente deparo-me com a citação da autora: “(...) o prazer do texto envolveu-me na sedução da leitura”. Ora, é impossível, nas filigranas, não cheirar a tinta da caneta de Barthes, da orientação e simbolismo do imenso Roland Barthes. Isso é grandioso!

Na verdade, raríssimos leitores conseguem ter prazer quase voyático, da dança das letras no papel, formando frases e parágrafos. É preciso, antes de tudo, não ler apenas o conteúdo, mas entender a estrutura e o jogo de linguagem, ali impressa pela cabeça de quem as criou.

Aliás, em parênteses, penei um pouco, confesso, ao reler Franz Kafka, exatamente porque faltava algo, como, no popular, "entrar na cabeça do autor". Sim, a ideia de “entrar na cabeça” do autor ao ler um livro é uma metáfora - que eu gosto muito, inclusive - porque descreve o processo de tentar entender profundamente as intenções, pensamentos e sentimentos do escritor.

É parte integrante da leitura profunda; é um processo que envolve fazer analogias e inferências pessoais. E por que não fazê-las também em textos acadêmicos, ensaios e teses? Necessário, até, porque essa conexão entre leitor e autor é algo mágico e poderoso da leitura, pois permite uma experiência rica e envolvente.

Talvez seja essa a razão de Barthes distinguir o texto de prazer e o texto de fruição. O texto de prazer é aquele que se alinha com as expectativas culturais e proporciona uma leitura confortável, enquanto o texto de fruição desafia o leitor, provocando uma crise em sua relação com a linguagem e, por consequência, oferecendo uma experiência mais intensa e perturbadora. Claro e evidente que é tentador, sem dúvida, este último, fato que deve ter levado Socorro Guterres a se entranhar nos miolos pulsantes de Camões, Eça de Queiroz, Saramago, o incrível Goethe, Proust, a escolha magnífica de integrantes da escola Arcadista nacional; e muito à propósito seu encontro com os fantásticos Guimarães Rosa, Manuel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Sousândrade, Mário de Andrade e, meu preferido, Manuel Bandeira.

Obvio que Socorro Guterres é explícita, portanto, ao ecoar nessa frase "(...) o prazer do texto envolveu-me na sedução da leitura”, toda uma concepção criada por Barthes, sugerindo que o prazer encontrado na leitura não vem apenas do que é lido, mas do ato de ler em si, da interação com o texto que seduz e envolve o leitor.

Concepção ilustrativa de MHL.

São tantas obras e conceitos plantados, como rosas ou lírios ou cactos ao longo desse caminho (quase Compostela) percorrido por Socorro Guterres que essa obra - "Nos Domínios da Linguagem (Veredas), deveria servir de bússola para quaisquer cursos que mexa com literatura, estudos literários, conceitos, normatividade, inclusive fazer parte integrante da Linguística moderna - leia-se Ferdinand de Saussure -, haja vista a sonoridade, a harmonia, a construção silábica (com sons e vibrações), 'escritas' pela autora. Por que não?

Outra coisa que me chamou bastante a atenção foi a intensidade de Calvino nessa obra. Sim, eu percebi, mesmo onde ele não é citado. Isso porque a leitura apurada leva o leitor a perceber as influências das propostas estéticas de Ítalo Calvino. Como observa o poeta e escritor Luís Augusto Guterres, que assina uma das orelhas da obra, as veredas literárias se metamorfoseiam em espaços amplos e convidativos para o encantamento com a dança das letras, uma característica que ecoa a leveza e a rapidez preconizadas por Calvino.

Pois bem, essa metamorfose, no entanto, não se traduz em uma superficialidade, mas sim em uma profundidade que revela a delicadeza e a precisão erudita das análises de Socorro Guterres. Em consonância com tudo isso, Marcos Falchero Falleiros destaca a eficácia com que a autora conjuga leveza e rapidez com a profundidade das análises, resultando em uma obra cuja pertinência bibliográfica é sofisticada e filtrada por um olhar que aponta para o leitor com precisão e agudeza.

Cabe a mim, no final da fila e quase sem fôlego diante do respiro de muitos bons que chegaram na frente e falaram primeiro, roubando-me o oxigênio, em um espasmo respiratório ainda posso acrescentar que a autora demonstra uma habilidade notável em explorar a multiplicidade da linguagem e a consistência narrativa, aspectos igualmente valorizados por Calvino.

Na obra, ainda, Socorro apresenta uma multiplicidade inerente à experiência humana. No entanto, essa multiplicidade não resulta em dispersão, mas sim em uma consistência narrativa que mantém o leitor, como eu, cativado ao longo de sua jornada pelos domínios da linguagem.

Em suma, a obra de Socorro Guterres, "Nos Domínios da Linguagem (Veredas)" representa uma síntese notável de propostas estéticas, ao mesmo tempo em que oferece uma contribuição única e original ao campo da crítica literária. Ao explorar as veredas da linguagem com leveza, rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência, a autora convida para uma jornada fascinante através dos territórios da literatura, revelando novas perspectivas e insights ao longo do caminho, mesmo que nasçam cactos, junto às flores.

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Referências

Calvino, Italo. "Seis Propostas para o Próximo Milênio". Harvard University Press, 1988.

Guterres, Socorro. "Nos Domínios da Linguagem". Editora X, 20XX.

Falleiros, Marcos Falchero. "A Leveza e a Profundidade dos Domínios de Socorro Guterres". Revista de Crítica Literária, vol. XX, nº X, 20XX.

2 comentários
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JAIME Há 2 meses Brasília/DFPublicação excelente!!!
Joizacawpy Há 2 meses São luís Que texto, e que obra!entrar na cabeça do outro eis um desafio escritor/leitor e quanto mais o escritor se esmera em buscar recursos para que seu leitor mergulhe de fato em suas ideias, mais harmônico acontece o encontro autor/leitor. Obrigada por mais um bom texto.
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