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"Estranho Amanhecer", de Augusto Pellegrini

Convidado Especial

18/09/2020 21h32 Atualizada há 1 mês
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Por: Mhario Lincoln Fonte: augusto pellegrini
Augusto Pellegrini
Augusto Pellegrini

ESTRANHO AMANHECER

Augusto Pellegrini 

Ao badalar da meia-noite ele se mira no espelho quase apagado pela luz fraca de quarenta velas que vem da lâmpada incandescente pendurada no teto do quarto, e vê seus olhos fundos e cansados, o cabelo como sempre em desalinho e a barba geralmente por fazer, a cara mal lavada.

Ele caminha pelo cômodo à procura dos seus pertences, uma pequena maleta com alguns apetrechos esparsos atirada no canto da cama e um pequeno crucifixo de metal escurecido que jaz sobre a mesa ao lado de uma bacia com água.

Faz frio. Ele veste uma camisa de flanela xadrez por sobre a camiseta de um branco encardido e coloca por cima da camisa um casaco já bastante usado, enfia o boné na cabeça, apanha a maleta e sai pela porta escura de madeira envelhecida portando no rosto uma expressão dura e embrutecida e os olhos opacos dos desajustados. Tranca a porta com uma chave que traz presa a uma argola e a enfia no bolso lateral do casaco junto com o crucifixo.

A noite está terrivelmente feia, uma dessas noites propícias para crimes sem testemunhas.

Ele caminha lentamente pela rua como se procurasse algo, levanta a gola do casaco para suportar a navalha de vento que lhe rasga a nuca e vê a própria sombra na calçada, ora se alongando, ora dele se aproximando a cada poste alcançado, na sua luz amarela com jeito de lamparina.

O chão de pedras brilha umedecido pela neblina espessa e a sua mente é um torvelinho confuso, a mão apertando com força o crucifixo e a chave como se fossem dois talismãs.

 

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Antes do alvorecer, ouvem-se passos descompassados como um coração em sobressalto. Os passos vêm das ruas mal calçadas do outro lado da cidade e a esta altura alcançam o chão pavimentado com pedras, onde algum dia as carruagens deixaram a sua marca tão forte que até hoje sente-se nos ouvidos o poc-potoc das patas dos cavalos.

Ele cambaleia levemente devido a algum passo em falso, se recompõe, passa pelo chafariz sem vida e olha para o alto onde uma janela teimosamente acesa começa a formar um quadro com o escuro do céu já não tão negro, emprestando devagar as cores do alvorecer. Depois, passa pelos becos onde latas de lixo se confundem com insetos e ratos que não dormem.

Penosamente o caminhante alcança o prédio onde mora, abre a porta pesada que geme nas dobradiças e sobe lentamente um lance de escadas cuja madeira range pelo peso do tempo.

Entra enfim no seu aposento singular, exausto como um sodado batendo em retirada, trêmulo como um assassino compulsivo, arfante como quem cumpriu penosamente com o seu dever.

Joga a valise e o boné num canto, tira o casaco e mostra uma camiseta encardida e manchada se sangue. Há um rasto escarlate também no seu rosto suado, tisnando a barba malfeita.

Senta-se pesadamente ao pé da cama e olha para o chão em direção às botinas enlameadas, depois ergue os olhos e se depara com a bacia de ferro esmaltado cheia de água onde vai lavar os seus pecados.

Está farto das madrugadas sombrias e do cheiro da morte.

Está farto de tanto sangue, do gemido surdo, da faca afiada, do rasgar de ventres e da machadinha a dilacerar ossos, está farto da sua sina.  

Ainda pela manhã ele vai ao escritório do frigorífico no qual trabalha para pedir demissão do serviço penoso que faz há anos como magarefe no matadouro da cidade, todas as noites decepando membros, sangrando e esfolando bois.

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