Equipe de Pesquisa Literária do Facetubes c/Redação.
Não é a pornografia que é obscena, é a fome que é obscena. E enquanto nós não compreendermos isto, que não há o direito, que não há nenhuma razão para que um único ser humano morra de fome, então todo o discurso sobre a moralidade pública será um discurso hipócrita. (José Saramago).
A frase de José Saramago nos toca profundamente, questionando as prioridades éticas e morais que adotamos hoje. Com um olhar crítico, ele desafia a percepção tradicional do que é considerado obsceno na sociedade, redirecionando essa noção da pornografia para a fome, uma questão que afeta a humanidade de maneira muito mais profunda e direta. Essa inversão revela um desvio preocupante em nossa atenção coletiva, deslocando o foco de questões vitais para a sobrevivência e dignidade humana para debates muitas vezes superficiais sobre moralidade.
Sob uma lente sociológica, a perspectiva de Saramago encontra ressonância no conceito de "estruturas de pecado", que o sociólogo Robert Bellah usa para descrever como as sociedades modernas, focadas em capital e individualismo, acabam por gerar estruturas sociais que perpetuam desigualdades e exclusão. Estas estruturas, segundo Bellah, são "pecaminosas" não só em um contexto religioso, mas porque alimentam injustiças sociais profundas. Isso se alinha com o argumento de Saramago, onde a fome exemplifica como a distribuição desigual de recursos pode manter uma obscenidade palpável e profundamente injusta.
Do ponto de vista filosófico, a declaração de Saramago faz eco às ideias de Peter Singer, especialmente quando este aborda a ética prática em seu livro "Famine, Affluence, and Morality". Singer defende que os mais afortunados têm uma obrigação ética de ajudar aqueles em extrema pobreza, incluindo os que sofrem de fome. Ignorar tal obrigação, enquanto se debate outras moralidades, é para Singer, uma forma de hipocrisia. Saramago, portanto, reforça essa crítica ao apontar a hipocrisia nos discursos sobre moralidade pública que negligenciam as questões essenciais à vida humana.
Essa comparação entre o que é obsceno e o que é moralmente urgente levanta questões cruciais sobre as prioridades de nossa sociedade. Enquanto a pornografia frequentemente ocupa debates sobre ética e moralidade, a fome, que tem consequências devastadoras, raramente recebe a mesma atenção crítica. Saramago destaca essa desconexão, mostrando como debates sobre moralidade pública podem desviar-se dos problemas reais que precisam de ação imediata.
Saramago também nos convida a reavaliar as bases de nossa ética e moralidade. Ao confrontar a normalização da fome em contraste com o estigma da pornografia, ele nos chama para refletir sobre os fundamentos de uma sociedade verdadeiramente justa e moral.
As palavras de Saramago, na verdade, são um lembrete poderoso das distorções nas prioridades morais que adotamos. Elas nos provocam a refletir sobre o que verdadeiramente constitui uma obscenidade — a existência da fome em um mundo de abundância. Ele nos incita a reconhecer e tratar essas questões como o cerne da moralidade pública, ressaltando a necessidade de uma ética que priorize a erradicação da miséria sobre o controle de expressões de conteúdo moralmente debatível. Tanto do ponto de vista sociológico quanto filosófico, Saramago nos desafia a olhar além das superfícies e a agir sobre as verdadeiras urgências éticas de nosso tempo.
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