TEXTOS ESCOLHIDOS: Bom base em fala sobre o centenário do manifesto surrealista Professores Robert Ponge e Ruben Daniel Castiglioni, publicado originalmente pelo "Correio do Povo". (19/10/2024). Materia sugerida pelo poeta mineiro Leonardo de Magalhaens.
Relido e ampliado pela Redação do Facetubes
Em agosto de 1920, em Paris, o poeta André Breton utilizou pela primeira vez o termo "surrealismo" em um artigo, buscando denominar criações geradas pelo inconsciente na linguagem, particularmente na escrita automática. Em 1924, retomou o termo para referir-se às atividades de um grupo de jovens—Louis Aragon, Paul Éluard, Benjamin Péret, Philippe Soupault e ele próprio, entre outros—que conspiravam contra a conjuntura vigente, impulsionando um "laboratório de pesquisas surrealistas " e objetivando realizar uma "revolução surrealista". Nesse mesmo ano, foi publicado o Manifesto do Surrealismo , assinado por André Breton. Este documento constituiu um grito de revolta e não conformismo, exaltando o maravilhoso e os poderes da imaginação, sendo, sobretudo, um chamado à prática da poesia e à transformação da vida.
O surrealismo surgiu como um estado de espírito, um modo de pensar, uma maneira de ver e sentir, uma atitude poética, social e filosófica. Configurou-se como uma oposição ao status quo, propondo uma luta pela libertação total do ser humano e buscando, em última instância, refazer o conhecimento humano. A expressão "Isso é surrealista!" é frequentemente ouvida, tratada como um uso figurado e informal para caracterizar algo pejorativamente (espantoso, que causa assombro) ou positivamente (algo genial). Ambos os usos se distanciam do emprego original da palavra "surrealismo", mas talvez isso ocorra porque o surrealismo, de alguma forma, permanece vivo e pulsante. Muitos movimentos surgiram na Europa no século passado – como o cubismo, o ultraísmo e o expressionismo – mas apenas o surrealismo é lembrado quando se quer dar ênfase a algo ou alguma situação. Na rua, ouvimos alguém reclamando de algo surreal; nas redes sociais, encontramos comentários relacionados ao surrealismo de determinada situação, geralmente fazendo referência à loucura ou a algo insano (ou, no melhor dos casos, ao irracional ou ao desvario).
Contudo, para esclarecer: a loucura nunca foi meta dos surrealistas; entretanto, não lhes causava temor. “Não é o temor da loucura que nos obrigará a deixar a bandeira da imaginação a meio pau”, escreveu Breton em seu famoso manifesto (Breton, 1924). Quanto ao irracional, vários surrealistas já recomendaram evitar o uso do termo. O francês Jean Schuster, por exemplo, afirmou: “Quando dizem que o surrealismo é contra a razão, é um erro: ele é contra a razão estreita dos racionalistas”, isto é, o racionalismo fechado, positivista e mecanicista. E Schuster completa: "Ao contrário, o surrealismo é a favor da razão que joga dialeticamente com a paixão ou com a desrazão, que sabe dar passagem a uma ou a outra" (Schuster, 1988).
Os apelos do manifesto foram ouvidos internacionalmente, e o que começou como um grito de revolta em Paris logo se difundiu pelo mundo por meio de núcleos de poetas, artistas e intelectuais. O primeiro grupo surrealista fora da Europa surgiu em Buenos Aires, em 1926, em torno do poeta Aldo Pellegrini (1903-1973), que publicou a revista Qué em 1928, sendo este o primeiro periódico surrealista em língua espanhola. No Brasil, foi necessário esperar até os anos 1960 para que se organizasse o grupo surrealista de São Paulo e Rio de Janeiro, com os poetas Sérgio Lima, Claudio Willer, Leila Ferraz e alguns outros. Porém, antes disso, uma lista significativa de nomes—como Prudente de Moraes Neto, Elsie Houston, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Flávio de Carvalho, Walter Lewy e Maria Martins—foi associada ao surrealismo, de forma breve ou rigorosa, à moda brasileira ou não.
Por motivo de efeméride e com grande satisfação, lançamos na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) o número 77 da revista Organon , com artigos de pesquisadores da área (disponíveis em [link]), e o ciclo de palestras "Surrealismo em todos os quadrantes", eventos que também comemoram quarenta anos de pesquisa do surrealismo na referida universidade. O título da revista, "O surrealismo completo 100 anos", comemora o centenário do manifesto; mas, em rigor, buscamos invocar embriões do surrealismo muito antes no tempo, inclusive citando o poeta surrealista argentino Enrique Molina, quando evoca os primórdios da humanidade:
"No planeta em que ainda estava viva a delicadeza dos dinossauros, produzido-se o primeiro ato surrealista quando, enfeitiçado pela sua inédita consciência do mundo, um homem, em cujo peito se aninhava a chuva e o trovão, a fumaça das tempestades e a desmesura de seu desamparo primordial, gravou a imagem de um bisonte na pedra de sua caverna. Um gesto provocado pelos mais profundos impulsos de seu sangue, acessíveis à morte e ao resplendor do sol." (Molina, 1979)
Molina elimina as fronteiras entre o mundo interior e o exterior, exaltando a existência desse ponto único formulado por Breton onde "a vida e a morte, o real e o imaginário, o passado e o futuro, o comunicável e o incomunicável cessam de serem percebidos como contraditórios". Ao submeter o andar da fauna à imaginação, a humanidade "se instalou no centro da criação e recuperou sua liberdade absoluta". Essa raiz antropológica do surrealismo, sua manifestação premonitória, que "ainda não tinha nome nem estava instalada como uma constelação brilhante no céu das ideias", é a revelação desse agora centenário manifesto.
No século XXI, pensadores como Michael Löwy destacam a relevância contínua do surrealismo como movimento cultural e filosófico que continua a desafiar as convenções e a promover uma visão crítica da sociedade. Löwy argumenta que o surrealismo permanece como uma força vital na luta contra o conformismo e a racionalidade instrumental, promovendo uma imaginação libertadora que busca transformar não apenas a arte, mas a própria vida (Löwy, 2010).
VÍDEO-BÔNUS
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Referências
Bretão, A. (1924). Manifesto do Surrealismo . Paris: Éditions du Sagittaire.
Lowy, M. (2010). Estrela da Manhã: Surrealismo, Marxismo, Anarquismo, Situacionismo, Utopia . Austin: Universidade do Texas Press.
Molina, E. (1979). As coisas e o delírio . Buenos Aires: Edições Calle Abajo.
Schuster, J. (1988). Le Surréalisme, ici, aujourd'hui, demain . Paris: Éditions Syllepse.
(*) Leonardo de Magalhaens, 45 anos, bacharel em Letras, FALE/ UFMG, com ênfase em Literatura Brasileira, com tópicos de romance e poesia. Tem escrito e divulgado poesia desde 2002. Atualiza blogs com prosa e poesia, com crítica literária e comentários sobre filosofia e política. Pelo Selo Editorial Starling, publicou "Spleen de BH: Ásperas Flores", Vol.3 da Coleção Flores do Caos, homenagem pelos 200 anos de Charles Baudelaire. Atuou na Academia Betinense de Letras ABEL [2003-2005] e na Oficina de Produção Artística OPA! [de 2006 a 2010], com eventos e saraus, além de bastidores de shows musicais.
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