*Facetubes e equipe de pesquisa
Que sou eu neste mundo? A deserdada,
A que prendeu nas mãos todo o luar,
A vida inteira, o sonho, a terra, o mar
E que, ao abri-las, não encontrou nada!
(Espanca 2005: 15)
A questão da percepção da morte vai além de seu papel finalista, ocupando espaço nas filosóficas, literárias e psicológicas com interpretações que permitem abordá-la sob uma ótica que vai além da tragédia. Essa reflexão pode ser explorada em diferentes aspectos, como o caráter de acessibilidade e até de esperança, conforme planejado por filósofos e poetas, especialmente no contexto de dilemas como eutanásia e distanásia, onde a questão ética do prolongamento do sofrimento ganha destaque.
Filosoficamente, Martin Heidegger, em *Ser e Tempo*, fala da morte como uma parte integral da existência humana, referindo-se ao conceito de Sein-zum-Tode ("ser para a morte"). Para Heidegger, a morte não deve ser vista apenas como fim, mas como um elemento fundamental dos danos. Essa afirmação sugere uma liberdade da morte como uma dimensão da vida, uma parte intrínseca do ser que nos dá a chance de viver com mais intensidade e desvantagens.
Mas, e na literatura? Albert Camus, em "O Mito de Sísifo", explora a ideia do absurdo da vida e da morte, mas também introduz uma reflexão sobre a possibilidade de esperança. Embora sua abordagem inicial seja a inutilidade da busca pelo sentido, ele conclui que o próprio esforço de enfrentar a realidade — incluindo a morte — traz consigo um tipo de força. Ele escreve: "É preciso imaginar Sísifo feliz." Aqui, Camus transforma o ciclo eterno de esforço em algo menos trágico e mais tolerável, promovendo uma resignação ativa e até esperançosa.
Ainda na literatura, em muitos casos, a morte pode ser tradicionalmente concebida como o termo final da existência humana. Então se pode reinterpretá-la sob um ângulo de esperança, em vez de tragédia? Os conceitos de morte e de morrer são dotados de profunda subjetividade. Fica muito difícil definir uma premissa em cima do tema. Mas que 'a morte' tem sido um tema central na literatura, opcionalmente como objeto de reflexão sobre a existência humana, isso acontece e muito. Para ilustrar, lembramos dois grandes poetas que exploraram profundamente esse tema: Fernando Pessoa e Florbela Espanca.
Fernando Pessoa, por meio de seus heterônimos, oferece múltiplas perspectivas sobre a morte. Em seus poemas, a morte não é apenas um fim, mas também uma passagem ou uma transformação. Por exemplo, através de Alberto Caeiro, a morte é encarada com naturalidade, como parte do ciclo da vida. Já em Álvaro de Campos, há uma visão mais angustiada e existencialista, onde "a morte suscita questionamentos sobre o propósito e a essência da existência humana" (AC).
Florbela Espanca, por sua vez, explora a morte de maneira intimista e emotiva. Em seus sonetos, a morte surge frequentemente como um refúgio ou uma libertação das dores e angústias terrenas. Sua poesia é marcada por um profundo sentimento de melancolia e desejo de transcendência, refletindo uma busca incessante por paz e compreensão além do material da vida.
Acerca dessa explicitude de Espanca, alguns aspectos extra-líricos levam à uma interpretação agregada a intensos conflitos e emocionais. A morte, em sua poesia, é frequentemente retratada como um refúgio ou uma libertação das dores e angústias terrenas, o que sugere uma busca por ruptura de um sofrimento interno profundo, fato que leva ao entendimento de depressão profunda, onde a melancolia é predominante.
Mais adiante, nas pesquisas pertinentes, dois grandes poetas brasileiros também falaram de 'morte'. Mário Quintana e Manoel Bandeira. E um detalhe: algo chama bastante a atenção quando se analisa dois pontos de vistas que impregnam esses versos pertinentes. Nossa equipe escolheu dois exemplos dos mais explícitos:
“Surpresas", de Mário Quintana, publicado no livro ("Esconderijos do tempo", 1980):
Surpresas
Sabes? Os cabelos da morte são entrelaçados de flores,
Não de flores mortas como essas inertes sempre-vivas,
Mas inquietas e misteriosas como os não desfolhados malmequeres.
Ou bravias como as pequenas rosas-silvestres.
As mãos da morte, as suas mãos não têm anéis,
Sua virgem nudez não comporta o peso de uma joia,
Os seus olhos não são, não são uns covis de treva,
Mas cheios de luz como os olhos do primeiro amor.
Porque a morte não faz esquecer, mas faz tudo lembrar,
Porque a morte não é, não é um sono eterno:
Tu vais adormecer como num berço, pouco a pouco,
E acordarás de súbito num vasto leito de noivado!
Manuel Bandeira, por sua vez, é bem mais pessimista em "Morte Absoluta", publicados em "Cinza das Horas" (1917):
Morte Absoluta
Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.
Morrer sem deixar o triste despojo da carne,
a exangue máscara de cera,
cercada de flores,
que apodrecerão – felizes! – num dia,
banhada de lágrimas
nascidas menos da saudade do que do espanto da morte.
Morrer sem deixar porventura uma alma errante…
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?
Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
a lembrança de uma sombra
em nenhum coração, em nenhum pensamento,
em nenhuma epiderme.
Morrer tão completamente
que um dia ao lerem o teu nome num papel
perguntem: “Quem foi?…”
Morrer mais completamente ainda,
– sem deixar sequer esse nome.
Como se vê, em “A morte absoluta”, Manoel Bandeira nos leva a um entendimento oposto ao de Quintana:
Morrer tão completamente
que um dia ao lerem o teu nome num papel
perguntem: “Quem foi?…”
Morrer mais completamente ainda,
– sem deixar sequer esse nome.
Enquanto em “Surpresas”, Quintana afirma justamente o oposto:
Porque a morte não faz esquecer, mas faz tudo lembrar,
Porque a morte não é, não é um sono eterno:
Tu vais adormecer como num berço, pouco a pouco,
E acordarás de súbito num vasto leito de noivado!
Ora, as duas diferentes contemplações foram escritas por pessoas que morreram de forma natural. Porém, e ainda assim, com duas versões bem diferentes porque a contemplação sobre o esquecimento pós-morte é um tema recorrente na literatura e na filosofia, revelando as inquietações humanas diante da finitude e do legado.
Em "A Morte Absoluta" , Manoel Bandeira expressa profundamente o receio de ser esquecido, temendo que, após sua partida, seu nome seja apenas uma nota desconhecida em algum registro: a angústia de "morrer tão completamente que um dia ao ler o seu nome num papel perguntem: 'Quem foi esse?...'". Este sentimento reflete a existência diante da possibilidade de o indivíduo se dissolver no anonimato após a morte.
Em contrapondo essa perspectiva, em "Surpresas", Mario Quintana apresenta uma visão oposta ao afirmar que "a morte não faz esquecer, mas faz tudo lembrar". Quintana sugere que a morte intensifica as memórias e perpetua a presença do indivíduo na consciência alheia, oferecendo uma forma de consolo diante da inevitabilidade do fim.
E você, ilustres leitores? Comentem e expressem suas opiniões.
*Equipe do www.facetubes.com.br
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