José Neres
(Especial para o FaceTubes)
Um dos livros mais interessantes que li foi “O Conselheiro Come”, de João Ubaldo Ribeiro. Ali, em deliciosas crônicas, o prosador baiano discute diversos assuntos, entre eles está a desvalorização do trabalho intelectual, que sempre é bem-vindo - quando interessa, mas que raramente é remunerado e, quando o é, apenas um restrito grupo recebe tais benesses. A maioria, principalmente os palestrantes locais, pagam para falar e nem têm a garantia de que serão ouvidos.
Como um dia desses reli parte desse livro do João Ubaldo, algumas passagens acabaram remetendo a diversas situações que fazem parte do cotidiano das dezenas de pessoas que doam seu tempo e seu conhecimento em prol de uma sociedade que nem sempre os valoriza.
Passo então a relatar algumas cenas que presenciei e que poderiam servir como ilustração para as argumentações do autor do livro.
UM EPISÓDIO
Um dos episódios que guardo na memória ocorreu durante um evento realizado em uma escola elitizada. Era quase final de ano e foi desenvolvido um projeto envolvendo saúde física e mental dos alunos, bem como as estratégias de estudo para os vestibulares da vida. A mesa era composta por três profissionais: uma médica, uma psicóloga e uma pedagoga.
Pouco antes do início das falas, a médica se dirigiu à pedagoga e disse, sorrindo: “ Vocês professores estão bem, dão palestras quase toda semana!”. Diante da expressão de surpresa, completou: “Para mim, perguntaram quantas consultas eu teria nesta tarde e me pagaram direitinho, adiantado.” A psicóloga entrou na conversa e acrescentou: “Também recebi ontem mesmo o equivalente a minhas consultas. E quando eu disse que não sabia como chegar à escola, já que aqui é meio complicado, disseram que iam me buscar e me deixar no consultório.”
A pedagoga só então descobriu que ela era a única ali no regime 0800 e ficou pensando como havia sido difícil chegar ali no horário marcado. Jurou para si mesma que da próxima vez, caso fosse convidada, cobraria um cachê equivalente às aulas perdidas na faculdade. Aulas que ela deveria repor em outro momento.
PAGANDO PARA FALAR
Ao ser convidado a participar como palestrante de algum evento cultural em uma escola pública, uma das primeiras falas que se ouve é a seguinte: “Como você sabe, aqui é uma escola pública e não temos verba para pagar por sua participação, mas queríamos contar com sua ajuda e compreensão…” Raramente há algum tipo de recusa por parte do palestrante, mas logo depois ele é surpreendido com os valores dos altíssimos cachês que são pagos a cantores e bandas que animarão uma das badaladas festas que ocorrem por aí. Ou seja, dinheiro há, o que nunca existiu foi uma verdadeira preocupação com alguns vieses dos aspectos educacionais e culturais.
No caso das escolas particulares, não é muito diferente. “Sabe, né, tenho certeza de que será muito bom para o senhor ter esse contato com nosso alunado. Não podemos repassar os custos para os pais, eles já estão sufocados pagando as prestações da festa de formatura. Obrigado pela sua colaboração para o bem da educação do nosso país”.
Será que esse mesmo papo cola com os demais profissionais que são contratados para as demais atividades? Creio que não. Mas…
SÓ A PRESENÇA NÃO BASTA
Após aceitar o convite, o palestrante costuma receber a seguinte mensagem: “Ah, não esqueça de trazer alguns livros seus para doar para a biblioteca da escola” ou a variação “Traga alguns livros para sortear para os alunos, eles estão loucos para conhecer a sua obra”... Significando que mais uma vez o intelectual paga para trabalhar.
ERA UMA VEZ UM DESCONHECIDO
Nos chamados “Cafés literários” que sempre ocorrem em alguma escola, geralmente um dos autores “trabalhados” durante o projeto é chamado para um bate-papo ou para uma palestra. Logo após as apresentações protocolares, os gestores da instituição avisam que têm “algo muito importante a resolver” e se retiram para seu confortável gabinete, onde, provavelmente, ficará jogando paciência, pois não tem paciência para ouvir o convidado que tão gentilmente se dispôs a visitar a escola.
Nesse casos, o palestrante descobre que, ao cruzar os portões de entrada, era um quase total desconhecido, mas que, ao sair, tem certeza de que se tornou ainda mais desconhecido ainda, pois, com raras exceções, ninguém - às vezes nem mesmo os professores que o convidaram - conhecia sequer uma página de seus escritos. Isto é, ele foi chamado para fazer um trabalho que deveria ser feito pelos alunos e seus respectivos mestres.
DOIS ADVERSÁRIOS IMBATÍVEIS
Durante as palestras, pelo menos dois adversários desafiam quem se arrisca a falar em público, principalmente para estudantes, mas não apenas a eles: o celular e a sirene.
É quase certo que a maioria dos alunos presentes não está interessada no que será dito, mas sim na certeza de que não haverá mais uma aula. Contudo, geralmente o assunto não interessa, então a solução é fugir para as redes sociais. É impressionante a quantidade de pessoas com os olhos grudados nas telas, em uma postura totalmente alheia ao que é dito.
Quando a sirene da escola toca, a sensação de alívio é instantânea. Aquele som é geralmente interpretado como uma permissão para a incivilidade de nem deixar o assunto ser concluído. Basta levantar-se, de preferência, arrastando a cadeira, e seguir em busca da tão sonhada verdade.
A PARTE MAIS IMPORTANTE
Algo interessante acontece logo após a fala do palestrante. O animador ou mestre de cerimônia pega o microfone e anuncia: “Agora, sim, vem a parte boa que todo mundo esperava…” e anuncia uma apresentação musical. Realmente, ele tem razão. É a parte que todos esperavam. A palestra foi apenas uma reles tentativa de dar um verniz cultural ao evento. É no momento da atração musical que os rostos na plateia se iluminam e que a energia palpitante volta ao corpo.
OUTRO EPISÓDIO
Certa vez, fui convidado para uma palestra sobre a importância da leitura na vida escolar. Fui advertido de que o horário seria oito horas em ponto e o local seria em um parque - ao ar livre! Acontece que, quando cheguei - pouco antes do horário combinado - ainda estavam organizando o espaço. Às dez horas, fui comunicado que o evento iria começar, mas que, antes, haveria uma série de apresentações - capoeira, desfile de moda, danças folclóricas etc - só depois então eu falaria.
A coordenadora veio falar comigo - não para pedir desculpas pelo atraso -, mas para pedir que eu falasse pouco, no máximo uns cinco minutos, pois os alunos estavam cansados. Agradeci, disse que tinha um compromisso (pura verdade!) e fui embora. Possivelmente, fui chamado de irresponsável!
PARA FECHAR…
Ao convidar alguém para dar uma palestra, é importante lembrar que aquela pessoa, além de não receber um centavo por seu trabalho, ainda terá que custear seu deslocamento, gastar seu precioso tempo, preparar-se para passar as informações da melhor maneira possível, adiar algum compromisso importante… Então é muito justo que as pessoas e instituições providenciem pelo menos condições para que os palestrantes seja pelo menos ouvidos e respeitados.
***
Hora de voltar para o livro de João Ubaldo Ribeiro. Mas antes vou tomar um pouco de água, pois nem isso, em alguns lugares, é oferecido aos palestrantes!
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