*Mhario Lincoln.
Não consigo controlar minha tendência intimista quando leio Luiza Cantanhêde. É impossível não se revoltar com percepções imundas de um Mundo, muitas vezes imundo, mesmo nas filigranas da gota de tinta no papel. E quando o assunto incorpora a poética dessa poeta social incrível, membro da Academia Poética Brasileira, chovem interpretações raríssimas que devem ecoar na alma daqueles leitores que, sensíveis, abortam seu próprio umbigo para reluzir, livre de corpo e alma, o que realmente interessa sentir, na poesia flamejante de Luiza Cantanhêde.
Não posso fugir a este exemplo que recebi de agora: a construção “Lágrimas na escadaria das manhãs”, onde são reveladas explosivas tensão entre o desejo de recompor a realidade social e a inércia diante das desigualdades que marcam o tecido urbano. Isso é claro quando ela verseja: “apagar os dramas do mundo” e instalar um cenário dominado por “contar de rosas”. Nestes, a voz poética contrasta com a aspiração individual de refazer a paisagem humana com a opressiva materialidade da fome, da violência e da morte que acometem, sobretudo, corpos periféricos e racializados.
Lembro que abri meu livro “Segredos Poéticos/2ª. edição”, ao escrever a releitura de “Strange Fruit”, de Abel Meeropol, sobre o linchamento de dois homens negros – Thomas Shipp e Abram Smith, em Marion, Indiana, ocorrido em 7 de agosto de 1930, eu chorei. Chorei muito. E por incrível que possa parecer, lendo Luiza também me veio lágrimas que me lembraram o episódio transformado em poesia por Meeropol:
“Árvores do sul produzem uma fruta estranha (Southern trees bear strange fruit)/ Sangue nas folhas e sangue nas raízes (Blood on the leaves and blood at the root)/ Corpos negros balançando na brisa do sul (Black bodies swinging in the southern breeze)/ Fruta estranha pendurada nos álamos (Strange fruit hanging from the poplar trees)”.
Ah! Como me jogo no escuro das sensações ao ler criações infinitas como essas, de Abel e de Luiza - de forma a tentar, em definitivo, entender essas contradições sociais. Mais ainda: as cenas recorrentes ao amanhecer de cada dia, que ressaltam, in fine, a persistência histórica dos conflitos estruturais.
Por isso, devo confessar uma coisa que até então, não o fiz nesses quase 40 anos de dedicação exclusiva a atividades poéticas (fora meus 55 anos de jornalismo diário): a poesia não pode e não deve ser elitista. Aliás, li recentemente o livro de estreia da carioca Yasmin Nigri, “Bigornas”, sem dúvida, um trabalho surpreendentemente sólido. E foi lá que li uma frase sobre o explícito poético:
“...a sensibilidade poética não é algo a priori, ela tem de ser desenvolvida. Cada um é responsável pela própria experiência e toma da arte apenas aquilo que tem em si. A poesia é exigente”. E encerra assim: “...processo de refinamento dos sentidos, precisa começar de algum lugar (...)”.
Sim! Luiza escreve também forte porque sua poesia começa no lugar mais íntimo de sua composição lírica. Cada poema sai-lhe da alma, da experiência vívida e explícita de sua tez psicológica, para refletir a dinâmica da exclusão, da desigualdade tão naturalizada, ao ponto de se tornar quase invisível no cotidiano, exceto quando irrompe tragicamente na forma de um corpo negro estendido ao chão, imagética profunda saída da dor incomensurável e real de Cantanhêde.
A imagem mobiliza a concepção de “violência estrutural”. Isso fica claríssimo, presente não só na escuna tempestuosa dela, como em diversas outras peles e poros de alguns bons pensadores contemporâneos, como Achille Mbembe, em cuja trajetória literária, discute a “necropolítica” como o poder de ditar quem pode viver e quem deve morrer, sublinhando que “na ordem da necropolítica, o controle sobre a mortalidade define a soberania” (Mbembe, 2003).
O corpo preto estendido não é apenas uma vítima eventual de um ocaso, mas o produto de um ordenamento político-econômico e racial que converte territórios em espaços de exceção, além de (vergonhosamente), pessoas em alvos tácitos de uma violência legitimada por instituições e pela indiferença social.
E como sempre faço, trago a Filosofia para a mesma mesa. Desta feita, a filosofia social. E sob essa análise chego à conclusão de que o poema - “Lágrimas na escadaria das manhãs” - um dos títulos mais lindos que li neste ano inteiro - aponta para o impasse entre a esperança utópica, o desejo de apagar a miséria e implantar a beleza das “rosas pelo caminho”, e a concretude do sofrimento humano.
Esse embate entre o ideal e a realidade é pensado também, por figuras imortais como Frantz Fanon, (psiquiatra e filósofo político natural das Antilhas francesas), ao se referir às estruturas coloniais e racistas, chama atenção para a violência sistemática que não é apenas física, mas simbólica e psicológica:
“O colonialismo não é uma máquina de pensar, não é um corpo dotado de razão. É a violência na sua forma natural e pode abater-se sobre o homem na sua forma mais nua e crua.” (Fanon, 1968).
Essa reflexão filosófica ilumina o sentido do poema, pois o desejo de apagar os dramas do mundo — sobretudo aqueles que recuam sobre as populações mais vulneráveis — acaba se confrontando com a força histórica do preconceito, do racismo e da desigualdade, que resistem a situações pontuais e desativa as tentativas das transformações estruturais.
Destarte, a poesia de Luiza Cantanhêde, aparentemente simples em sua expressão do desejo matutino, escancara as camadas de injustiça que compõem o panorama social brasileiro e global. Ao fazer isso de forma corajosa (mesmo entristecendo a tinta de sua caneta-arma), convida à reflexão não apenas dela mesma, mas também do leitor, enquanto sujeito histórico.
Por fim, a proposta de uma possível utopia — “Fossem minhas / Essas manhãs” — se torna um grito, um ato de denúncia e um chamado à reconfiguração das relações sociais, econômicas e políticas. É na tensão entre a lágrima individual e a coletividade esquecida, entre a estética da rosa e a cruz do corpo caído, que o poema inscreve seu valor sociológico e filosófico-social, apontando para a necessidade de compensar o estatuto ético-político do presente.
Por isso que te adoro, Luiza! Você é muito especial.
Mhario Lincoln, presidente da Academia Poética Brasileira.
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O POEMA
LÁGRIMAS NA ESCADARIA DAS MANHÃS
Fossem minhas Essas manhãs
Eu apagaria
Os dramas do mundo
Não mais as crianças
Com fome
Não mais as balas perdidas
O corpo preto estendido
No chão
As mães de joelhos
Só os meus olhos
Contando rosas
Pelo caminho
(Do livro: Plantação de Horizontes (Editora Litteralux/ Luiza Cantanhêde)
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