Por Mhario Lincoln (*), jornalista e poeta, editor-sênior da Plataforma Nacional do Facetubes.
No discurso de posse na Academia Maranhense de Letras, proferido em 22 de novembro de 2024, Salgado Maranhão apresenta uma narrativa marcada por vivências intensas, em que a poesia surge como força vital, reflexo direto de sua origem no Maranhão profundo. Ele evoca um tempo em que as condições de vida eram precárias e medievais, sem serviços básicos e repletos de violência e injustiças sociais. Esses fatores, paradoxalmente, funcionaram como estímulo para a sua linguagem poética, que brotou da oralidade dos cantadores repentistas e do ambiente em que sua mãe promovia cantorias, cultivando a sensibilidade que viria a tornar-se marca essencial de sua obra.
Através dessa marca, e assim, sem tirar nem botar, conheci (não em tanto tempo assim) esse Salgado Maranhão, purificado pela grandiosidade de estar e ser, diante de um Planeta desabitado ( e desabilitado) de condições humanas, em sua maior parte, mas gerador de personalidades mais fortes, que de muitos fracos, que nasceram em berço de ouro. Por isso fica impossível não chamar para a mesma mesa James Baldwin, de quem li e me emocionei demais, "Notes of a Native Son" (Notas de Um filho Nativo).
Baldwin nasceu no bairro do Harlem, em Nova York (EUA), em meio a condições de pobreza e muitas dificuldades familiares. A discriminação racial e a precariedade econômica eram desafios constantes em sua juventude. Mas, como nas cantorias da mãe e nas leituras subsequentes, como em Salgado (como revelou em seu discurso), o americano encontrou no prazer de ler e escrever um refúgio contra a hostilidade do ambiente. Daí para tornar-se um mito, foi um pulo.
Então é a Literatura uma âncora, um bálsamo; um lugar seguro para caminhar sonhos? E qual seria, então o valor prático dessa literatura, especificamente, a poesia praticada como expurgo de males viscerais como faz Salgado Maranhão? Pois bem. Em seu discurso, o maranhense de "Canabrava das Moças" toca nesse ponto e questiona esse valor prático da poesia, imersa em um mundo que nem sempre permite sua importância. Ele insiste, contudo, que a lírica transcende o mero interesse mercadológico por ser lugar de experiência estética e modo de revelar a dimensão incompleta da existência humana.
Nesse sentido, Salgado aproxima-se de teóricos e poetas como Affonso Romano de Sant'Anna, para quem a poesia é capaz de desautomatizar a linguagem, e do também nosso Ferreira Gullar, que a vê como fruto do espanto diante do mundo. Salgado Maranhão vai além, afirmando que a poesia não se destina a contar verdades exatas, mas a conscientizar sobre a impermanência do ser, ecoando ideias de Heráclito de Éfeso e de António Machado, quando retoma a máxima “Caminhante não há caminho / o caminho se faz ao andar”.
Confesso que estivesse na AML naquele dia, estaria na primeira fila dos convidados para ouvir com acuidade maior, esse derrame cerebral de plasmas e hemácias de alto poder proteico. (Quem o ouviu, deve ter saído amplamente vitaminado). Porque esse discurso foi costurado (também pelas agulhas da mãe de Salgado) com pontos, contrapontos, chuleios, pontos corridos a fim de 'barrearem' a questão racial.
Como disse em parágrafo anterior, Salgado e Baldwin tem, sim, algumas coisas em comum, mesmo que, usando a fórmula haversine para estimar a distância aproximada entre Harlem e Caxias-Ma (“Canabrava das Moças”) chegue a 6.700 km, em linha reta. Coincidências ou escolha divina? Como lírios? Salgado, filho de camponeses, negro, nascido na década de 1950, foi colocado no mundo com um propósito, usando seu precioso dom (mas aprimorado ao longo dos tempos por inúmeras leituras): afastar do ódio ou da vingança, a prática de sua lírica, mesmo em alguns momentos, muito fortes, pois pelo que pude perceber, o estudando mais visceralmente desde 2014, suas obras, antes de ralhar com o podre mundo circunflexo, defende a equidade e a construção de novos caminhos de convivência.
Desta forma, a luta que o alimenta é a de dar voz aos invisibilizados, sem, contudo, cair em um discurso de revanche. Nesse aspecto, aproxima-se de pensadores como Lélia Gonzalez e Abdias do Nascimento, que também viam na arte uma forma de retirada e de emancipação social.
Em passagens poéticas como “no fim da linha / o que sobra é a poesia: / construção sobre ruínas / plasmada em palavras e silêncios”, Salgado Maranhão sintetiza a ideia de que o verso brota das fissuras da realidade, onde se entrelaçam dor, superação e esperança. Esse entendimento remete tanto à metáfora de João Cabral de Melo Neto, em que a pérola surge do incômodo na concha, quanto à “transcriação” defendida por Haroldo de Campos, a qual vê no ato poético uma insurgência contra o previsto. Assim, o poeta maranhense afirma que a força de sua escrita deriva justamente do passado de exclusão, que se converte em potência de expressão.
Por fim, Salgado Maranhão enaltece o aspecto ético e estético do fazer poético e celebra a entrada na Academia Maranhense de Letras como uma forma de reafirmar suas raízes, sem jamais esquecer aqueles que permanecem à margem. Ao citar o perdão e a conciliação, reforça a ideia de que a palavra pode ser instrumento de libertação, aproximando o indivíduo de uma consciência mais ampla sobre si e sobre os outros. Em sua concepção, a poesia é o “lugar do coração que pensa” e se manifesta como canto que atinge a coletividade, ampliando o olhar para a beleza e a dignidade humana.
Repito: queria estar lá. Na primeira fila!
*Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira.
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