
Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes c/Centro de Pesquisas GINAI.
No Brasil, número de autorretratos digitais disparou com smartphones potentes e front camera, impulsionando compartilhamentos instantâneos, influenciadores e campanhas virais, revelando transformações na comunicação visual em plataformas como Instagram, WhatsApp e TikTok e disseminação de tendências culturais. E qual a verdadeira origem da palavra? E os perigos de tirar uma selfie. Você sabe?
Desde que um usuário australiano postou, em 13 de setembro de 2002, num fórum da ABC Online, “sorry about the focus, it was a selfie” para se desculpar pela baixa nitidez de um autorretrato, o termo selfie deixou de ser apenas gíria local e se espalhou por todo o planeta como definição de autorretrato fotográfico moderno.
Em 2013, o Oxford English Dictionary elegeu selfie como palavra internacional do ano, reconhecendo seu caráter diminutivo – a junção de self (“si mesmo”) e o sufixo -ie (“-inho(a)”) – e oficializando sua incorporação nas línguas ocidentais pela difusão de câmeras frontais em smartphones e pela febre das redes sociais. Antes do uso massivo dos celulares, autorretratos eram chamados simplesmente de “self-portrait” ou autorretrato, termo formal herdado da fotografia analógica; selfie ganhou contornos próprios ao permitir enquadrar o próprio rosto ampliando o compartilhamento instantâneo. Apesar de “selfie services” (cabines fotográficas que imprimem autorretratos) remeterem à mesma ideia de autorregistro. E mais: selfie denota o ato de fotografar-se, selfie service formaliza o serviço de captura e impressão imediata.
No Brasil, ferramentas como o Google Keyword Planner e a SEMrush indicam que a palavra selfie alcança, em média, meio milhão de buscas mensais, o que equivale a aproximadamente 16 000 buscas diárias. Esse número reflete apenas pesquisas ativas; se contabilizarmos menções em mensagens instantâneas, posts em redes sociais e manchetes de portais de notícia, é razoável supor que selfie seja citado dezenas de milhares de vezes por dia, quase 1 milhão de citações, cifra que cresce em datas comemorativas ou durante grandes eventos, quando autorretratos se tornam linguagem cultural.
Para além do sentido óbvio de autorretrato, selfie carrega significados curiosos. Já se registrou como hashtag #selfie em espaçonaves — o robô Curiosity enviou selfie desde Marte — e, curiosamente, primatas como o macaco-de-crista tiraram “selfies” acionando câmeras automáticas. Existem ainda variantes lexicais em outras línguas: em espanhol, selfi ou autofoto; em francês, selfie; em alemão, Selfie; no japonês, セルフィー; e em indonésio, selfie mesmo, mostrando a adoção universal do anglicismo.
Também surgem neologismos derivados — shelfie, autorretrato de prateleiras; belfie, fotografia de glúteos; carfie, selfie no interior de um carro — que atestam a criatividade linguística contemporânea e a capacidade do português de incorporar anglicismos mantendo regras locais de formação de palavras. Assim, selfie não é apenas um reflexo de rostos no espelho digital, mas um fenômeno cultural que molda e é moldado pela evolução da tecnologia e das práticas comunicativas no século XXI.
Além de seu percurso linguístico, selfie transformou-se em objeto de estudo acadêmico ao iluminar como construímos e projetamos nossas identidades no espaço digital. Pesquisas em sociolinguística demonstram que o verbo “selfear” passou a circular informalmente no Brasil, revelando um processo de vernáculo que vai muito além da simples reprodução de um anglicismo. Esse fenômeno reflete uma dinâmica contemporânea em que cada imagem não apenas registra, mas negocia autoimagem, afetos e pertencimento a comunidades virtuais.
Por outro lado, a selfie assumiu papel central em campanhas sociais e movimentos de visibilidade, como a hashtag #MeTooSelfie, que uniu autorretratos de ativistas para denunciar silêncios e celebrar solidariedade. Esse uso político e emotivo comprova que a palavra selfie, embora nascida de um deslize técnico: “sorry about the focus, it was a selfie” , hoje é uma das palavras mais fortes da atualidade, no Mundo, até mesmo por 'retratar' empoderamento e memória coletiva.
Finalmente, cabe lembrar os riscos dessa cultura fotográfica incessante: estatísticas globais apontam tragédias ocasionadas por selfies em locais perigosos, levando autoridades a proibirem autorretratos em pontos turísticos de riscos elevados. Essa faceta extrema mostra os limites entre "expressão" e "segurança", fazendo reavaliar até onde a selfie é reflexo, não só do desejo de autodeclaração, mas também de nossas contradições na era digital.
Selfie também usada por desatentos é tão grave quanto outros acidentes. Considerando "quedas de altura, afogamentos, eletrocussões, atropelamentos, ferimentos por arma de fogo e ataques de animais", enquanto se tira selfie em locais perigosos, o Global “Death by Selfie” registra, de março de 2014 a junho de 2024, 314 incidentes, dos quais 425 resultaram em mortes e 82 em ferimentos graves.
Focando nos últimos anos (2020–2024), levantamentos especializados apontam 8 mortes em 2020, 33 em 2021, 30 entre 2022 até 14 até julho de 2023, além de várias ocorrências fatais e não fatais reportadas em 2024, perfazendo cerca de 85 fatalidades e mais de 130 acidentes em lugares perigosos nesse período. Esses números indicam uma média anual de 17 acidentes e 12 mortes, evidenciando que a busca pela selfie perfeita em cenários de risco permanece um grave problema de segurança pública.
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C/ copywriter e tradução livre da pesquisa, do jornalista Mhario Lincoln.
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