Editoria de Arte e Cultura da Plataforma Nacional do Facetubes
Hoje uma homenagem mais que merecida da Plataforma Nacional do Facetubes a um dos artistas que mais lutou para se manter de pé diante de várias intempéries em sua carreira. Simplesmente “Jerônimo”, como ele assinava suas obras. Um homem simples que apesar de tudo, manteve-se dentro da linha e dos conceitos que a sua simplicidade impunha. Nunca teve o reconhecimento que deveria ter. Porém, até o fim, lutou contra tudo para mostrar seu talento; e mesmo assim, aconteceram coisas sui-generis.
Por exemplo: antes de seu falecimento, o artista Jerônimo se envolveu em um episódio bem difícil em sua carreira. Ele expôs réplicas de fósseis (em sua melhor fase) em um restaurante, no Shopping da Ilha, em São Luís (MA), convidado pelos proprietários. Porém, após a falência do estabelecimento, as obras foram levadas para o almoxarifado e descartadas sem aviso.
Jerônimo estava ausente da cidade em razão de já ter iniciado seu tratamento contra a doença que acabou por lhe ceifar a vida. Porém o Tribunal de Justiça do Maranhão condenou o shopping a indenizar o artista em R$ 10 mil, reconhecendo o valor simbólico e emocional do seu trabalho.
Aliás, Jerônimo – mesmo com suas qualidades invejáveis e a facilidade de improvisação com as tintas e telas às mãos – “não teve o reconhecimento que lhe era devido”, segundo declarou ao jornalista Mhario Lincoln, sua companheira que com ele viveu até o final.
Na verdade, Jerônimo se destacou por uma carreira que já ultrapassava quatro décadas. Autodidata, o artista confere protagonismo à estética, traços vibrantes e cores quentes, que invocam o imaginário e a força cultural do povo.
Sua obra não se limitava ao objeto artístico: assumia caráter educativo e político, questionando o apagamento cultural e ocupando espaços muitas vezes vetados a outras artistas.
O mesmo jornalista Mhario Lincoln, fez com ele uma das últimas entrevistas para a TV do Facetubes, quando sua exposição estava ainda ativa no “Shopping São Luís”, na época, onde ele mostrou, praticamente, a última faceta criativa: a fase de “fósseis”, extraordinária e incrível percepção artística que, inclusive, o fez ganhar prêmios. Um deles, “O Bisão Pré-histórico” (veja vídeo abaixo) está no Museu do Maranhão.
Essa e outras fases de Jerônimo, com sua variedade temática lhe conferem um perfil de pesquisador visual e colecionador, evidenciando sua inquietação criativa e seu olhar sobre formas e memórias. Em suma, Jerônimo consolida-se como referência na arte plástica do Maranhão, acompanhando uma tendência que teve, à época, seus contemporâneos Lobato, Jesus Santos e Fransoufer.
Ressalva-se que Jerônimo, ganhou aplausos também, por ser autodidata e conseguindo desenvolver técnicas próprias em escultura que resultaram em imagens de fósseis que chamaram a atenção de muita gente, entre os quais o próprio artista plástico e professor da Universidade, José Lobato. Essa vertente confirma seu perfil de pesquisador visual e colecionador, capaz de transitar entre pintura e escultura, transformando barro em formas com forte evocação de memórias e história.
Em suma, Jerônimo construiu uma obra multifacetada a qual deveria ser mais cultuada e mais respeitada por agentes e críticos de arte brasileiros, não só maranhenses porque seu trabalho — de telas vibrantes a “fósseis” poéticos — continua a reivindicar espaços, mesmo após o seu falecimento.
Na última entrevista concedida ao jornalista Mhario Lincoln ele confessa que, “esta minha fase dos “fósseis” enriquece meu trabalho e aprofunda o significado de minha produção como documento de resistência, memória geológica e cultural”, disse ele.
VÍDEO-BÔNUS
Abaixo, a última entrevista do artista plástico Jerônimo:
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