*Mhario Lincoln
Na mais pura das verdades de quem pesquisa amiúde e incita esse lado de pesquisador irremediável, Ferreira Gullar com a sua hiperconhecida e amada frase - “a arte existe porque a vida não basta”, dá voz brasileira e contemporânea a uma percepção que vem atravessando muitas tradições.
Fernando Pessoa já havia dito algo parecido - “A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta”, mas não suficiente. Assim, Gullar fez dessa ideia algo mais contundente, em um ajuste de palavras que trouxe um maior entendimento do contexto, sem as prosopopeias linguísticas de Nietzsche - “temos a arte para não perecermos da verdade”, de Oscar Wilde - “vida imita a arte mais do que a arte imita a vida” e Mallarmé – “a arte é o meio de transcender a realidade e a linguagem comum para alcançar uma forma superior de conhecimento e de expressão da existência”.
Como se vê, Gullar foi no ‘fígado’, sem ‘rebuscos’, mesmo que essa ideia tenha sido exercitada em outros diferentes flancos, a começar por Hipócrates, com seu lastro antigo de que “a arte amplia o que a vida, sozinha, não basta”.
Por outro lado, vale-se aplaudir ainda mais a frase contemporânea, porque Gullar propõe de forma clara e objetiva, que “a existência sem criação não dá conta do que sentimos, dos traços de beleza, memória, desejo e espanto que a vida por si só não suporta, nem revela”, como se expressou em entrevista a um canal de TV.
No plano filosófico, (eu gosto muito de cambar para esse lado) fica claro a ressonância da frase como gesto neoconcreto de Gullar: “a criação não é objeto estático, mas experiência ativa que envolve corpo, mente, mundo”. O Manifesto Neoconcreto, coassinado por Gullar, busca afastar a arte do mero efetivismo para torná-la ação plurissignificada, que dá à obra literária um caráter estético, artístico e transformador, capaz de preencher as fendas entre o fato e o sentido.
No plano poético, fica explícito que há uma vivência radical dessa ausência. Em “Poema sujo”, escrito no exílio durante a ditadura, o poeta maranhense recria sua voz e seu espaço interior com palavras impuras, urgentes, como um ato de resistência—porque viver sob régua e exílio “não basta” (Gullar), sem intervenção criadora que o ressignifique e o eleve.
Diante desses dois momentos tentei ir mais além e fui beber na fonte da sociologia e tentar encontrar alguma similitude prática e real. Aí, exatamente aí, a frase de meu conterrâneo ganha profundidade ao entender, realmente, o sentido de grandes projetos culturais em comunidades periféricas, como organizações ‘AfroReggae’ ou o ‘Projeto Axé’, de Salvador-BA, projeto esse que teve outro maranhense participando ativamente nos primeiros momentos: João Ewerton, membro da Academia Poética Brasileira que ao ler o texto disse: “Perfeito. A frase de Gullar é um tratado pela arte”.
E Ewerton confidenciou: “Esses projetos mostram que a arte oferece inserção simbólica, autoestima e futuro à juventude que, na vida cotidiana, enfrenta a invisibilidade e o desamparo. A arte intercede exatamente onde a vida falha”.
No contexto da frase, vê-se diariamente instituições sérias e apolíticas estenderem-se na aplicação dessa premissa, tornando tangível experiências como ateliês comunitários, saraus itinerantes, oficinas de arte, música e literatura nas escolas públicas. “Em espaços em que a vida diária não supre os modos de expressão, a arte introduz repertório, voz e possibilidade — e melhora não apenas o imaginário, mas o próprio viver”, complementa João Ewerton.
No exterior, redes globais como El Sistema mostram que políticas artísticas organizadas — especialmente em música — transformam trajetórias: jovens em contexto de risco reencontram disciplina, comunidade e autoestima em orquestras sociais. Em paralelo, universidades e governos destacam hoje os benefícios da arte para a saúde mental e o bem-estar, no que se chama “creative health” ou prescrições artísticas, demonstrando que a vida é mais plena com arte como parte dela.
Como se vê – e ampliando os espaços da frase não só no sentido poético – mesmo a ideia original não nascendo com Gullar, ele muscularizou, reorganizou e a eternizou de forma mais contundente e mais universal.
No fim das contas, a sentença de Gullar é um convite: se a vida não basta, cabe à arte torná-la mais densa, mais clara, mais honesta, mais humana. É uma convocação estética e social — para produzir arte, torná-la acessível e reconhecê-la como alicerce vital da experiência.
Mhario Lincoln é presidente da Academia Poética Brasileira
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