Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes
Quem nasceu nos últimos trinta anos e é fã do carnaval brasileiro, especial do carnaval carioca, vai conhecer bem de perto João Clemente Jorge Trinta, ou, simplesmente, Joãozinho Trinta, nascido no Maranhão e falecido em 17 de dezembro de 2011; mas que completaria 92 anos, se vivo estivesse, no próximo dia 23 de novembro deste 2025.
João Clemente era filho de Júlia Jorge Trinta, operária maranhense de origem árabe. Viúva e com três filhas de 13, 14 e 15 anos, sua mãe o concebeu com um homem desconhecido no carnaval de 1933. Até os 17 anos de idade viveu em casarões ocupados por diversas famílias em São Luís, onde trabalhou na mercearia de seu cunhado, o bem sucedido português Carlos Allen.
Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1951, tendo viajado a bordo do navio ITA. Por ter apenas 17 anos de idade quando embarcou, foi realocado do porão para um quarto especial que ficava ao lado dos aposentos do comandante. Chegou na terça feira de carnaval, enfrentando certa dificuldade financeira e hospedando-se em uma pensão na rua São Clemente, em botafogo.
Empregou-se em uma companhia no RJ, porém conseguia conciliar o tempo e estudar dança clássica no Teatro Municipal. Durante 30 anos, fez parte do Corpo de Baile do Teatro Municipal e apresentou-se em duas óperas - O Guarani, de Carlos Gomes; e Aida, de Giuseppe Verdi.[3]
Mas, foi na escola de Samba do Salgueiro, em 1961, que ele, efetivamente, começou sua carreira carnavalesca. Porém, como ’segurança’. Dois anos depois, a escola foi campeã do carnaval, com o enredo Xica da Silva de Fernando Pamplona e Arlindo Rodrigues. E ao depois, já como assistente, viu a escola ser campeã também nos anos de 1965, 1969 e 1971. E daí, foi um pulo para suas grandes vitórias seguintes, na Beija-Flor, escola de samba que o consagrou.
Na verdade, e ele mesmo faz questão de frisar, Fernando Pamplona foi seu grande tutor. Por isso, em pouco tempo, Joãozinho mostrou que não era apenas um aprendiz — era um visionário. Assumiu como carnavalesco principal em 1973 e, já no ano seguinte, conquistou o título com o enredo “O Rei de França na Ilha da Assombração”. Em 1975, repetiu o feito com “O Segredo das Minas do Rei Salomão”. Isso, no salgueiro, ainda.
Mas foi na Beija-Flor de Nilópolis que seu nome se eternizou. Com enredos ousados, visuais luxuosos e uma estética que misturava crítica social e exuberância, Joãozinho Trinta conquistou o público e a crítica, vencendo os carnavais de 1976, 1977, 1978, 1980 e 1983.
Seu desfile mais emblemático talvez tenha sido o de 1989, com o enredo “Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia”, em que apresentou uma escultura de Cristo coberta por plástico preto, simbolizando o abandono e a miséria. A obra foi censurada, mas a mensagem ecoou com força. Porém outra coisa também o imortalizou. Sua frase de que “pobre gosta de luxo; quem gosta de miséria é intelectual”, dito que virou símbolo de sua filosofia carnavalesca.
No vídeo que a Plataforma Nacional do Facetubes garimpou na internet, Joãozinho relembra com emoção o início de sua trajetória no carnaval carioca. Em suas palavras: “Fui trabalhar com Fernando Pamplona. Ele me recebeu como assistente. Eu não sabia nada de carnaval. Mas ele me recebeu com muito carinho. E eu fui aprendendo. E quando eu vi aquele povo vibrando com os carros alegóricos, com as fantasias, eu disse: ‘Meu Deus, isso é uma ópera popular. Isso é uma ópera popular!’ E eu me apaixonei. Me apaixonei por esse espetáculo maravilhoso que é o carnaval.”
A saúde de Joãozinho começou a se fragilizar nos anos 2000. Após sofrer uma série de AVCs e enfrentar problemas respiratórios, ele passou seus últimos anos em sua terra natal, envolvido em projetos culturais para os 400 anos de São Luís. Morreu em 17 de dezembro de 2011, aos 78 anos, vítima de choque séptico decorrente de pneumonia e infecção urinária. Foi velado no Museu Histórico e Artístico do Maranhão e enterrado com um terno branco, o mesmo que usaria para ser homenageado pela Beija-Flor no carnaval seguinte.
Joãozinho Trinta não foi apenas um carnavalesco. Foi um artista que enxergou beleza onde poucos viam, que deu voz ao povo por meio do luxo e da arte, e que transformou o carnaval em espetáculo, crítica e poesia. Sua ausência ainda ecoa nos desfiles, nas alegorias e na saudade de quem viu o gênio desfilar pela avenida.
VÍDEO-BÔNUS (Facebook/Museu da Pessoa)
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Fontes: Wekipedia. G1. Caras. MSRepórter
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