Texto de Mhario Lincoln, jornalista e poeta, para a Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes.
Em Rogério Rocha, o intervalo de apenas quatro anos entre Pedra dos Olhos (2020) e A linguagem da ausência (2024) não é um simples dado de calendário: é o tempo de uma virada interna, um adensamento da mesma seiva que já vinha amadurecendo há mais de três décadas de escrita. O poeta maranhense, advogado e filósofo de formação; e leitor voraz de Nietzsche, Heidegger, Hölderlin, Rilke e dos grandes nomes da poesia moderna, construiu desde cedo um repertório que mistura densidade conceitual e lirismo imagético.
Pedra dos Olhos, como registra a apresentação da “Livraria AMEI” – aliás, vale ser citada por sua luta em prol da linguagem emérita da cultura do Maranhão - reúne poemas escritos ao longo de trinta anos, marcados por traços filosóficos, forte carga imaginária (hermenêutica interna, posso dizer assim) e um lirismo que já delineia sua identidade autoral.
No primeiro livro, o mundo ainda chega em ondas largas, com versos que se permitem o fôlego do épico e a insistência da meditação. Basta ler um poema como “Cavalgando estradas” – “Como um raio, vai ao longe,/ cavalgando estradas…/ não há tempo de temer/ a sedução dos precipícios” – para perceber o poeta em movimento, atravessando paisagens físicas e metafísicas, atento ao perigo, ao sangue e ao cheiro inflamável do caminho. Há aqui um sujeito lírico que se lança às aventuras da existência com uma consciência aguda das fraturas do mundo, mas ainda trabalhando com longos períodos, imagens sucessivas, amplas variações de tom.
Essa mesma fase de Pedra dos Olhos deixa transparecer a vocação filosófica de Rogério em poemas como “Símbolo”, quando escreve “Somos sonho, somos signo,/ somos tempo, somos símbolo”, ou em “A golpes de martelo”, em que a ferramenta se converte em metáfora da incompletude e da desconstrução de todo “vulto civilizatório”.
Rogério Rocha, nesse livro de estreia, já experimenta um vocabulário conceitual, aproxima filosofia, mito e experiência cotidiana e existencial, mas sua dicção ainda se permite uma retórica mais expansiva, quase sinfônica, em que o verso segue a pulsação do pensamento em espiral.
Posso até ter-me equivocado, porém, açoito-me em dizer que no miolo desse primeiro ciclo, aparece também um eu lírico que investiga o próprio desamparo. Foi o que entendi em: “Navego, navego e naufrago/ no ego (sem fim)./ Afago e trafego/ na rua (incerta)/ deserta de mim.” (Belíssima reflexão). Aliás, foi nessa página que comecei a me apaixonar pelo trabalho dele.
Portanto, esse fragmento concentra a marca de Pedra dos Olhos: o trânsito entre o ego e a cidade, entre o fluxo do trânsito e o vazio identitário, num jogo de aliterações e trocadilhos que revela o gosto de Rogério pela dobra sonora do verso, mas ainda preso a uma materialidade mais concreta: rua, corpo, ego, deserto.
Quando chegamos a “A linguagem da ausência”, o próprio autor declara que ali está sua “verdadeira estreia na poesia”, considerando Pedra dos Olhos uma “amostra juvenil”, embora construída sobre décadas de escrita. Ou seja, o que antes era amostra, torna-se, nesse, alicerce! Contudo, notei que a nova fase não abandonou a raiz filosófica, nem o lirismo, mas condensou o gesto. A experiência, antes narrada em ondas longas, passa a ser dita no fio de lâminas mínimas, como se o poeta tivesse aprendido a concentrar um universo inteiro em poucas palavras.
A crítica que se debruçou sobre “A linguagem da ausência”, (inclusive eu mesmo fiz uma resenha sobre), reconhece esse movimento. Antonio Aílton, na publicação Sacada Literária, lê o livro como um trabalho que habita a zona entre o manifesto e o indizível, explorando os interstícios da linguagem e a tensão entre o que pode e o que não pode ser dito; para ele, a poesia de Rogério encena um jogo permanente entre presença e “já ausente”, trabalhando o silêncio como uma instância fundamental do poema. Em resenha publicada na Plataforma Nacional do Facetubes, (www.facetubes.com.br) Joizacawpy Costa insiste no caráter desafiante dessa escrita, que convoca o leitor a sair dos “eixos delimitados” e faz até o cotidiano tornar-se uma “espécie de braço da filosofia”.
Essa nova dicção aparece com nitidez em versos como “meu corpo/ é um fantasma/ do avesso” ou “BARCO/ vai vazio/ sobre/ o mar/ distante/ náufragos/ que deliram/ expostos/ ao sol e/ ao ócio/ do paraíso”. A frase, que poderia render páginas de ensaio fenomenológico, desce ao papel como miniatura incendiária. A compressão do verso não empobrece a reflexão; ao contrário, obriga o leitor a habitar o intervalo entre as palavras, a completar, com sua própria experiência, o que o poema sugere e recusa dizer por inteiro.
Portanto, caro amigo Rogério Rocha, é nesse contexto que brilha o salto entre o verso de 2020 – “Navego, navego e naufrago/ no ego (sem fim)” – e o de 2024: “Tu és quase tudo,/ és sumo/ de fruta rara/ na boca de Deus.”
Entre um e outro, algo se desloca da crise do eu para a descoberta do outro como centro brilhante (vou usar novamente essa palavra), dessa bela experiência. Aliás, o poeta é um alquimista da palavra e com elas, faz, sim, inúmeras experiências. Um adendo: certa vez conversando com o poeta maior Luís Augusto Cassas, ele me falou que após a ideia (insight) inicial, ele trabalhava cada palavra, aprimorando seu verso). Portanto passo a acreditar ainda mais nos poetas-alquimistas que fazem essas experiências subjetivas para transformar o ‘mote’ em grandiosidade lírica, com marcas digitais únicas.
Então, poetas, e em especial Rogério Rocha. Se há uma muscularização nessa alquimia, assim como eu entendi, ela passa menos por didatismo e mais por clareza estrutural. O professor de filosofia, o jurista, o pesquisador em criminologia e o intelectual que discute técnica, cansaço e subjetividade contemporânea aparecem aqui, não para explicar o mundo ao leitor, mas para organizar o pensamento do próprio poema.
Ao ler as duas obras, enfim, tornei-me mais maduro ao entender esse percurso entre as variações internas do próprio autor, essa “chave cromossômica”, que permanece entre o jovem que escreve “Navego e naufrago no ego” e o homem maduro que confessa “Tu és quase tudo”. Ao fim, o que se pode afirmar é que, entre Pedra dos Olhos e A linguagem da ausência, Rogério Rocha consolida um patrimônio verbal singular: parte de uma seleta que recolhe trinta anos de experimentação para chegar a um livro em que ausência, silêncio, corpo e amor são trabalhados como pontos de máxima tensão entre filosofia e lirismo.
O poeta que hoje é membro destacado da Academia Poética Brasileira e colunista da Plataforma Nacional do Facetubes carrega, em cada verso, o rastro dessa evolução. Sem ruptura com o que foi, mas com a depuração paciente de uma voz que aprendeu a dizer menos para fazer o leitor sentir muito mais.
Texto de Mhario Lincoln, jornalista e poeta, para a Editoria de Literatura e Arte da Plataforma Nacional do Facetubes.
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