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Ao transformar curiosidade, objetos cotidianos e memória em matéria poética, Neruda deixou uma reflexão que hoje encontra diálogo com estudos sobre criatividade, estresse e relações humanas.
Pablo Neruda construiu parte de sua literatura a partir de uma capacidade que o mundo adulto costuma abandonar sem perceber: olhar novamente. Olhar uma cebola, o mar, uma casa, uma pedra, uma lembrança e descobrir ali matéria suficiente para a poesia. Nascido Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, no Chile, em 1904, o escritor recebeu o Nobel de Literatura em 1971 e morreu dois anos depois, deixando uma obra em que amor, política, natureza e vida cotidiana ocupam o mesmo território.
Entre as reflexões associadas às suas memórias em - Confesso que vivi, - uma atravessou gerações: a ideia de que a criança necessita brincar para viver plenamente a infância e de que o adulto, quando elimina o brincar de sua existência, perde uma dimensão de si mesmo. O centro do pensamento não está no brinquedo. Está na preservação da curiosidade, da imaginação, do espanto e da liberdade de experimentar.
Essa dimensão ajuda a compreender o próprio Neruda. Suas coleções, casas, objetos encontrados, peças náuticas e coisas aparentemente sem importância revelavam uma relação de descoberta com o mundo. Na literatura, esse olhar alcançou expressão nas Odas elementares, em que alimentos, roupas, utensílios e elementos comuns deixam a rotina para ingressar no território poético. O procedimento ensina algo fundamental: criar começa, muitas vezes, quando alguém recupera a capacidade de prestar atenção.
A psicologia contemporânea oferece outra linguagem para uma questão que a poesia de Neruda colocou no campo da sensibilidade. Estudos sobre ludicidade adulta descrevem pessoas capazes de reorganizar mentalmente determinadas situações, encontrando nelas interesse, humor, desafio ou possibilidade de criação. Pesquisa publicada em 2025, com 503 adultos nos Estados Unidos, encontrou entre participantes com maior grau de ludicidade formas mais flexíveis de responder às dificuldades vividas durante a pandemia, sem que isso significasse desconhecimento dos riscos existentes.
Outro estudo, publicado em julho de 2026, analisou 125 experiências lúdicas relatadas por pessoas de 42 nacionalidades. Os depoimentos associaram essas experiências principalmente a emoções positivas, redução da percepção de estresse, fortalecimento de vínculos sociais e aprendizado sobre si. Os resultados não transformam o brincar em tratamento, nem autorizam promessas de felicidade. Mostram que a ludicidade continua presente depois da infância e pode participar da construção do bem-estar humano. Brincar, nesse sentido, não significa infantilizar o adulto.
Pode estar numa improvisação musical sem compromisso com desempenho, numa conversa construída pelo humor, num desenho feito sem intenção de exposição, numa receita inventada, num jogo, numa caminhada sem roteiro ou simplesmente na disposição de fazer alguma coisa sem submetê-la imediatamente à produtividade. A maturidade não exige o desaparecimento do lúdico. Exige compreender que responsabilidade e imaginação podem ocupar a mesma vida.
É aí que Neruda continua falando ao presente. Uma sociedade que mede o dia por tarefas cumpridas corre o risco de considerar inútil tudo aquilo que não produz resultado mensurável. A literatura oferece outra medida. Preservar alguma coisa da criança não significa recusar a idade adulta. Significa impedir que o tempo retire do homem a curiosidade, o humor, a criação e a possibilidade de ainda se surpreender. Talvez seja essa a questão deixada por Neruda: envelhecer é inevitável; perder inteiramente a capacidade de brincar é outra história.
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