
Editoria de Pesquisa e Extensão da Plataforma Nacional do Facetubes
"(...) quando o mito vira conversa sobre partilha, empatia e cuidado, ele deixa de ser “mentira” e vira linguagem da infância?."
A figura que hoje parece “super-herói doméstico” começou bem longe do trenó. A raiz mais citada está em São Nicolau de Mira, bispo do século IV lembrado por atos de generosidade — especialmente a prática de ajudar famílias discretamente, à noite, o que ajudou a colar a ideia do “presente secreto” na imaginação popular cristã. Com o tempo, tradições europeias foram se misturando: o Sinterklaas neerlandês (ligado a São Nicolau) e o Father Christmas inglês (mais festivo e simbólico) acabaram fundindo atributos até virar um personagem natalino único, menos “santo litúrgico” e mais “mito cultural”.
A virada para o “Papai Noel moderno” acontece sobretudo no século XIX, nos EUA, quando essa herança europeia ganha sotaque local e vira espetáculo familiar. O poema de 1823 “A Visit from St. Nicholas” (o famoso “’Twas the night before Christmas…( leia sobre isso no link*: https://www.facetubes.com.br/noticia/7307/a-literatura-as-vezes-nao-so-narra-o-natal-m-ela-fabrica-o-natal-que-o-mundo-passa-a-reconhecer ”) populariza elementos decisivos: a visita na véspera, a entrada pela chaminé, as meias penduradas e, principalmente, o trenó puxado por renas com nomes — uma espécie de “roteiro” que a cultura de massa nunca mais largou. Não é um detalhe: ali o doador de presentes deixa de ser apenas um “santo” e passa a ser um personagem de ação, que chega voando, cumpre a missão e desaparece.
Logo depois, a imagem ganha corpo — literalmente — na mão de ilustradores. Entre os mais influentes está Thomas Nast, que, em charges e pranchas para a Harper’s Weekly durante a Guerra Civil, vai desenhando um Santa mais “humano” e reconhecível: barba farta, presença calorosa, relação com listas de comportamento e uma logística própria (presentes, oficina, rota), ajudando a consolidar a ideia do Polo Norte e do “sistema Papai Noel”. É nessa etapa que o personagem se desloca do altar para a sala de estar: vira figura pública, narrativa compartilhada, mito que serve tanto ao encanto infantil quanto à coesão social de um Natal urbano e moderno.
Aí entra a Coca-Cola, não como “criadora” do Papai Noel, mas como a máquina que fixou um padrão visual global. Em 1931, a empresa encomendou ao ilustrador Haddon Sundblom uma versão “realista e simbólica” do personagem — um Santa Claus (São Nicolau) que parecesse gente de verdade, não fantasia. O desenho de Sundblom é uma aula de persuasão visual: ele troca a figura às vezes rígida ou caricata por um avô robusto, expressivo, corado, de sorriso fácil, com roupas vermelhas e acabamento branco que dialogam perfeitamente com a paleta da marca; dá textura de pele, peso no tecido, brilho no olhar — e, com isso, faz o mito parecer fisicamente presente, “tocável”, quase cinematográfico. O resultado foi padronizar o “gorducho do vermelho no trenó” como ícone contemporâneo: menos lenda distante, mais herói afetivo — o tipo de fantasia que, quando bem desenhada, a criança aceita como realidade do coração.
A partir daí, a travessia do Papai Noel “antigo” para o Noel comercial de hoje é, antes de tudo, uma mudança de sentido. Filosoficamente, essa troca reconfigura o Natal como espetáculo onde a bondade deixa de ser apenas virtude e vira também “métrica” (lista, prêmio, recompensa), enquanto o imaginário coletivo se desloca do sagrado e do folclórico para a vitrine e a propaganda. Ainda assim, a metamorfose não destrói o mito — ela o torna mais “visível” e mais fácil de circular. O risco é que a magia, antes aberta à imaginação, passe a depender do que pode ser comprado; e a esperança, que era um gesto, vira, geralmente, um produto.
No plano psicológico, a figura moderna funciona como um dispositivo de afeto: organiza a espera, alimenta fantasia, encena generosidade e cria memórias. O jornalista Francis P. Church, no célebre texto “Yes, Virginia…”, cravou a defesa mais aguda desse amor simbólico ao dizer que o Papai Noel existe “tão certamente quanto existem o amor, a generosidade e a devoção”.
Contudo, o mesmo mecanismo pode gerar fricções, indicam que uma parcela de crianças (e adultos) sente emoções negativas quando a crença cai, ainda que em geral sejam passageiras — e, em alguns casos, isso pode tocar confiança e frustração. Então, a saída madura não é demolir a fantasia, mas conduzi-la: quando o mito vira conversa sobre partilha, empatia e cuidado, ele deixa de ser “mentira” e vira linguagem da infância.
Assim, socialmente, o Papai Noel comercial ganhou potência porque simplifica um mundo complexo: oferece uma narrativa universal, que atravessa classes, sotaques e telas — e, ao mesmo tempo, expõe desigualdades (quem pode “performar” o Natal, quem não pode). Quanto à credibilidade, não parece ser “o fim”, e sim uma mudança de idade e de ritmo porque recentes levantamentos indicam que muitas pessoas lembram de deixar de acreditar por volta de 8 a 10 anos, variando por contexto e família. Enfim, esquisa acadêmica recente sugere que o peso do Natal não está só em “acreditar ou não”, mas na intensidade dos rituais e do sentido que a família dá a eles.
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(*) “A Visit from St. Nicholas” (o famoso “’Twas the night before Christmas…)
( leia sobre isso no link*: https://www.facetubes.com.br/noticia/7307/a-literatura-as-vezes-nao-so-narra-o-natal-m-ela-fabrica-o-natal-que-o-mundo-passa-a-reconhecer ”)
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