
*Mhario Lincoln, jornalista e poeta.
Ao juntar curiosidade, rigor e amor pelo repertório, o projeto de Alessandro Neves — Território Maranhense — tende a virar referência para o público, para músicos, para pesquisadores e para quem, um dia, precisar entender como o Maranhão cantou (e ainda canta) o próprio tempo. (Mhario Lincoln).
A estreia do novo programa de Alessandro Neves na TVFacetubes nasce com um propósito raro na televisão digital: transformar memória musical em conteúdo de pesquisa — sem abrir mão do charme da curiosidade, do ouvido treinado e do prazer de redescobrir canções que formaram gerações quando o Brasil ainda “girava” no ritmo dos LPs. Em tempos de consumo rápido, a proposta aposta no contrário: aprofundar, contextualizar e devolver ao público aquilo que a pressa quase apagou — os grandes clássicos da música maranhense, inclusive os que ficaram fora do circuito mais óbvio.
Esse tipo de trabalho importa porque a música popular do Maranhão tem uma história que, por décadas, dependeu de registros físicos, tiragens limitadas e circulação local. Quando o acervo não é reescutado e recontado, ele não some de uma vez — ele vai ficando inaudível. E a história prova que selos e projetos de documentação, como os LPs da Discos Marcus Pereira (fundada em 1973), foram decisivos para registrar e mapear sonoridades regionais brasileiras, criando um lastro de memória que hoje sustenta redescobertas e reedições.
Ao longo dos anos, foi-se criando um verdadeiro acervo de grandes nomes da música maranhense. Chiquinho França, o primeiro grande desbravador da música instrumental, mudou a história discográfica maranhense com Fissura, conhecida em 80 países, tocada e retomada em programas da Rede Globo de Televisão e em inúmeras outras rádios e emissoras de TV do mundo. Com isso, dá para entender o tamanho do que Alessandro se propõe a fazer, com responsabilidade e dedicação.
Outro exemplo: “Bandeira de Aço”, álbum de Papete, lançado em 1978 pela Discos Marcus Pereira — frequentemente tratado como marco da música maranhense e, por extensão, da própria ideia de “arquivo sonoro” do estado. Nesse LP, a ficha técnica vira mapa cultural: as faixas trazem compositores centrais do Maranhão — e é justamente esse território que um programa de TV, quando bem pesquisado, consegue reabrir para o grande público.
Entre os autores desse núcleo, César Teixeira também se impõe como um dos arquitetos da canção maranhense urbana: compositor, cantor, jornalista e poeta, ligado à efervescência cultural de São Luís e ao imaginário da Madre Deus. No próprio Bandeira de Aço, ele assina faixas como “Boi da Lua” e “Flor do Mal”, mostrando como o Maranhão pode ser, ao mesmo tempo, tradição e invenção formal.
Já Josias Sobrinho representa a ponte entre criação autoral e pesquisa da cultura popular: nascido em Penalva (MA), compositor, cantor e violonista, aproximou-se do Laborarte ainda nos anos 1970, numa fase em que estudar e recriar manifestações maranhenses era também um gesto de afirmação cultural. Sua obra atravessa o cancioneiro do bumba-meu-boi com força de clássico — toadas como “Engenho de Flores” e “Catirina” viraram referências repetidas e regravadas, e aparecem no repertório ligado ao Bandeira de Aço, confirmando o peso histórico de suas composições.
Sérgio Habibe, por sua vez, é daqueles compositores que conseguem “pintar” cidade e litoral ao mesmo tempo: suas canções caminham entre o lirismo e a crônica, e isso explica por que seu repertório segue sendo revisto, organizado e publicado em projetos recentes de songbook. No Bandeira de Aço, ele aparece assinando “Eulália”, uma daquelas peças que ajudam a entender como a música maranhense se sofisticou sem perder o chão.
No mesmo disco, um detalhe diz muito sobre a “arqueologia” musical que o programa de Alessandro Neves coloca em movimento: “Boi de Catirina”, composição de Ronaldo Mota, gravada por Papete em 1978. Ronaldo tem trajetória múltipla (música, direção musical, atuação), e sua presença nesse repertório lembra que, muitas vezes, o compositor fica escondido atrás do intérprete — até que alguém volte ao encarte, ao crédito, à história. Da mesma forma, é impossível falar de música do Maranhão sem incluir um dos mais completos músicos da geração fabulosa dos anos 70/80: o maestro Ubiratan Sousa, em cujo currículo estão gravadas músicas vencedoras de festivais nacionais, regionais e locais, além de sucessos absolutos que ainda ecoam pelas lides da retina musical do Maranhão.
Dessa forma, quando Alessandro Neves promete resgatar sucessos dessas décadas — inclusive os “quase esquecidos” —, ele também cria uma porta de entrada para estudo acadêmico. Não por acaso, pesquisas universitárias já tratam desses compositores como chaves para compreender uma estética maranhense, citando, por exemplo, a relevância de Sérgio Habibe, Chico Maranhão, Chico Saldanha, Lopes Bogeia, Mochel, Ubiratan Sousa, Cristóvão Alô Brasil e uma quase nova geração como César Nascimento, Jorge Passinho, Gerude, Josias Sobrinho, Mano Borges, Nosly, Zeca Baleiro, entre outros de muita importância no panorama autoral do estado. Um programa que organiza repertório, autoria e contexto vira bibliografia viva — e isso é enorme.
É impossível, também, não aplaudir e apoiar nacionalmente a estreia de Alessandro Neves na TVFacetubes. Porque, sendo uma plataforma de cunho nacional e internacional, vai fazer muitos maranhenses recordarem seus valores. Veja: o IBGE constata, em recente pesquisa do Censo Demográfico 2022 / Migração, que o total de “naturais do Maranhão residentes em outra Unidade da Federação” é de 1.826.563 (um milhão, oitocentos e vinte e seis mil e quinhentas e sessenta e três pessoas). Ou seja, se um ou outro maranhense que resida no estado fuja, por um motivo ou outro, da atenção ao programa, mais quase 2 milhões de conterrâneos estarão abertos para aprender e discutir sobre esse precioso gesto de salvaguarda cultural de Alessandro, com pertcencimento e memória afetiva, além de uma linguagem de tela, ritmo de rádio e método de pesquisador. Então, ao juntar curiosidade, rigor e amor pelo repertório, o projeto - "Território Maranhense" - tende a virar referência para o público, para músicos, para pesquisadores e para quem, um dia, precisar entender como o Maranhão cantou (e ainda canta e encanta) o próprio tempo.
O PROGRAMA DE TVFACETUBES QUE ESTREIOU HOJE
OBS: Consta dos arquivos da TVFAcetubes +de50 mil endereços (e-mails e Zap's) de maranhenses residentes dentro e fora do Brasil. A todos, o programa será enviado com garantia de confirmação de recebimento.
(Mhario Lincoln é editor-sênior da Plataforma do Facetubes e presidente da Academia Poética Brasileira).
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