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“PEDRAS, PEDRADAS E A LUA”, nova crônica do Acadêmico APB-MA, escritor e poeta ELOY MELONIO

Convidado da Plataforma Nacional do Facetubes.

11/04/2026 às 11h36
Por: Mhario Lincoln Fonte: Eloy Melonio
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Arte: eloymelonio/mhl/ginaift
Arte: eloymelonio/mhl/ginaift

"Olha a pedra de responsa aí, gente!”

Acredite se quiser: imaginei-me em plena Sapucaí ouvindo essa convocação. E logo pensei tratar-se de uma homenagem ao “reggae” do Maranhão [pronuncia-se /réguei/]. Um devaneio, obviamente. E mais: o puxador de samba diria "flor", palavra que completa o nome de sua escola. Um alívio, pois nunca soube de alguém que beijasse pedras.

Aqui e ali, essa palavra (pedra) aparece do nada e cala o silêncio da galera. Em alguns casos, ela não é ela mesma, mas uma metáfora para "problema, obstáculo, situação indesejada". Não sei se já era famosa antes do Drummond. Mas sei que ficava no meio do caminho só para ver os poetas passarem.

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E aí lembrei-me dos atiradores de pedras do Novo Testamento, cujo alvo eram as mulheres adúlteras, apanhadas "no flagra". Repreendidos, esses juízes sem toga ficaram sem palavras quando Jesus os interpelou: “Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra?” (João 8:7).

Outra pedra histórica aparece no confronto bíblico entre Davi e Golias. Certeira, ela entra com tudo no cenário da guerra entre hebreus e filisteus. Num típico milagre do Velho Testamento, essa pedra salva os judeus quando, atirada por Davi, atinge em cheio a cabeça do gigante Golias, muito temido na região.

Lembro-me nitidamente do filme “Davi e Golias” (1960), um épico italiano, estrelado por Orson Welles (Rei Saul) e Ivica Pajer (Davi). Mas os olhos da garotada brilhavam mesmo era com a figura do musculoso ator Primo Carnera, lendário pugilista italiano (1906-1967), no papel de Golias. Devia ter entre 11 e 12 anos quando assisti ao filme na prestigiada tela do Cine Éden, na Rua Grande, em São Luís, capital do Maranhão.

Parece que cada um de nós tem sua história com as pedras. Nestes tempos difíceis, as comunidades mais necessitadas usam-nas em suas manifestações de protesto. E elas só perdem para os pneus, que, geralmente “em chamas”, obstruem ruas, avenidas ou estradas. Os caminhoneiros geralmente reclamam: “Tinham muitas pedras no meio do caminho”.

Da guerra e protestos para as festas: em São Luís, outras pedras fazem a cabeça de muita gente. Refiro-me ao “reggae”, esse ritmo tipicamente jamaicano, adotado por uma multidão de apaixonados. Lembra-se da “metáfora”? Pois é, no reggae, a “pedra” é uma música apaixonante, que toca fundo nos corações sensíveis. Um preceito tradicional diz: reggae sem pedras não é reggae de responsa. E, aqui, na Ilha do Amor não se pode imaginar um show ou baile sem as “pedradas” (músicas mais populares). Se tem reggae, os passos da dança individual ou casais dançando agarradinho chamam a atenção do público. E os “regueiros guerreiros” (Tribo de Jah) enfeitam a cidade com suas toucas, camisas e calças nas cores vermelha, verde e amarela.

             A conexão viva entre o reggae e a capital maranhense é um caso de amor que começou por volta dos anos 1970. E o que já era realidade no coração do regueiro maranhense tornou-se patrimônio cultural. Como consequência, em 2023, São Luís passou a ser considerada a “capital brasileira do reggae”, conforme a lei 14.668, proposta pelo Deputado Bira do Pindaré. E, hoje, é a única a abrigar um Museu do Reggae fora da Jamaica. Jimmy Cliff (1944-2025) e muitos cantores jamaicanos já se apresentaram por aqui, e o intercâmbio com a Jamaica é real e intenso.

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Na capital do reggae, alguns cantores têm músicas de sucesso e fazem shows para grande público. Entre as bandas, a Tribo de Jah é a mais conhecida na ilha, no Brasil e em vários países. Recentemente, Célia Sampaio, a “dama do reggae”, participou do show da cantora Iza, no The Town, em São Paulo (set/2025). Um luxo para um ritmo que, por muito tempo, sobreviveu na periferia da cidade.

Entre os cantores, Gerude traduz essa cena com “Jamaica São Luís” (parceria com Ciba Carvalho): “O rei Bob Marley não disse/ Mas Jimmy Cliff, mas Jimmy Cliff/ Balançou a ilha e disse/ Gegê, a capital existe, a capital existe/ São Luís, a Ilha Jamaica/ oi oi oi oi/ Capital brasileira do reggae”.

             Zeca Baleiro também faz sua incursão sonora pelas pedras da “Ilha do Amor”. “Pedra de Responsa”, em parceria com Chico César, é uma pedrada: “É pedra, é pedra, é pedra/ É pedra de responsa/ Mamãe, eu volto pra ilha/ Nem que seja montado na onça”.

             Essas e outras músicas estão no repertório de Alcione e outros artistas famosos. E é nessa vibe que as pedras se esbaldam nos espaços públicos da Ilha-Jamaica. Porque o reggae é do povo, é das comunidades. Em cada “pedrada”, braços, pernas e quadris interagem em perfeita harmonia com esse ritmo contagiante.

             E, para fechar esta crônica com “pedra de ouro”, destaco um homem que está à porta da Lua. De lá, ele nos envia uma mensagem que é uma “pedrada”: “We are all one people” (Somos todos um só povo). Victor Glover, 49 anos, primeiro astronauta negro a viajar além da órbita terrestre (missão Artemis II) pode até não curtir as pedras do reggae, mas sabe que precisamos valorizar a dança da vida, não necessariamente agarradinhos, mas olhando um para o outro com amor, respeito e dignidade.

             Muita gente sonha com uma nova “pedra” que seja a voz de um tão esperado canto de paz, seguindo os exemplos de Jesus, do astronauta americano e da espontaneidade do reggae. E que as velhas pedras fiquem apenas nas letras frias da história da humanidade e nas metáforas dos nossos poetas.

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[ eloy melonio I abril/2026]

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Pastor RubenHá 2 meses São Luis- João PauloSabe quantos bilhões de dólares foram gastos nessa farsa da Lua? Daria para curar o câncer e a fome africana. Mas os humanos são um imbecis totais. Também somos resultados de uma mistura de anjos caídos. São seres espirituais imortais, criados originalmente em harmonia, que se rebelaram contra Deus, liderados por Lúcifer e foram expulsos do céu. Eles possuiam livre-arbítrio, mas atuando no mal. Relatos bíblicos e tradições mencionam sua união com mulheres da terra, gerando os nefilins. Tô é tu
Dr. Carlos Germano da SilvaHá 2 meses Salvador-BahiaCaro sr. Acho que o Reggae é uma apropriação desnecessária no Estado tão rico em sons e ritmos que chega a doer no ouvido. Parece uma cultura dominante adotando elementos (símbolos, vestimentas, rituais) de culturas minoritárias. Isso esvazia, inclusive, o significado do reggae na própria Jamaica, que é dela. Embora gere debates éticos e sociais, essa apropriação cultural em si não é crime. Mas poderia ser. Não admito São Luís ser "Jamaica". Nada a ver.
Maria José OlimpiaHá 2 meses Rio de Janeiro RJComo é mesmo o nome de seu CD de samba? O "aprouche", que Baleiro canta está nesse CD seu?
Lia VarelaHá 2 meses São Luís MaGrande Eloi fico a pensar nas coisas lindas que são suas músicas. Onde encontrar?
marcela coimbraHá 2 meses Luzilândiaeloi parabéns por esse texto mas não entendi quase nada é muia areia pra meu caminhãozinho.
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