Editoria de Cultura e Esporte da Plataforma Nacional do Facetubes
Foto: Halland declarou publicamente seu respeito à Seleção Verde-Amarela. Um jornalista brasileiro de uma emissora de TV, em campo, disse: "Halland pouco comemorou o gol e depois confessou que respeita o futebol brasileiro e sempre irá respeitar cada jogador canarinho. Não gozou, não fez dancinha, nem discutiu com quem quer que seja. Isso é o que?", perguntou, ao fim, o jornalista aos telespectadores.
A frase atribuída a Napoleão Bonaparte — “Coragem não é ter forças para seguir em frente, é seguir em frente mesmo sem ter forças” — ganha outra densidade quando passa do cartaz motivacional para o gramado. No futebol, ela deixa de ser uma sentença bonita e vira exame moral. A Seleção Brasileira voltou para casa depois da derrota por 2 a 1 para a Noruega, nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, no MetLife Stadium, em Nova Jersey. Haaland marcou duas vezes, Neymar descontou no fim, Bruno Guimarães perdeu um pênalti no primeiro tempo e o Brasil saiu mais cedo do Mundial, na pior campanha desde 1990.
A volta para casa é sempre mais pesada do que a viagem de ida. Na ida, eles carregam expectativa, propaganda, camisa amarela, memória de Pelé, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Cafu, Roberto Carlos. Na volta, carregam silêncio. O aeroporto muda de significado. A mala deixa de ser bagagem e vira símbolo. Cada jogador que retorna parece trazer, dobrada entre chuteiras e camisas, uma pergunta que o país evita responder: o que ainda resta do Brasil que se acostumou a mandar no futebol?
A tentação imediata é escolher um culpado. Pode ser o técnico, o pênalti perdido, a escalação, a substituição, a preparação física, o gramado, o clima, o juiz, a CBF, a falta de alma, o excesso de Europa, a ausência de um camisa 10. A culpa, quando aparece desse jeito, funciona como anestesia. Ela organiza a dor em torno de um alvo. Dá ao torcedor a sensação de que tudo seria diferente se uma única peça tivesse sido trocada. Na leitura psicanalítica, esse movimento é uma forma de defesa: o país desloca a frustração coletiva para um nome, uma jogada, um erro visível. Assim, evita encarar a estrutura inteira da derrota.
Por outro lado, a Noruega não venceu por acaso. A Reuters registrou que Haaland decidiu o jogo com dois gols no segundo tempo e que a equipe de Stale Solbakken teve substituições determinantes. Antes da partida, a própria Reuters lembrava um dado incômodo: o Brasil nunca havia vencido a Noruega em confrontos anteriores, incluindo a derrota de 1998. O que parecia curiosidade estatística virou sintoma. O Brasil entrou em campo com a camisa mais pesada do mundo e saiu dele obrigado a reconhecer que camisa pesa, mas não marca, não corre, não pensa e não chuta.
Assim, a frase atribuída a Napoleão serve menos para consolar os jogadores e mais para confrontá-los. Seguir em frente sem forças não significa posar de forte nas redes sociais, dar entrevista protocolar, prometer “voltar melhor” e esperar a memória pública esfriar. Significa suportar a vergonha sem teatralidade. Significa rever privilégios, métodos, lideranças, escolhas e vícios. Significa admitir que o Brasil voltou para casa cedo porque não encontrou, dentro de campo, uma resposta do tamanho de sua história.
Há também uma ferida narcísica no torcedor brasileiro. O país se acostumou a se reconhecer no futebol como quem se olha num espelho favorável. Quando a Seleção vence, o brasileiro se vê criativo, superior, alegre, destinado à grandeza. Quando perde, o espelho racha. Daí nasce a raiva. Não é apenas contra o jogador que errou. É contra a imagem perdida de nós mesmos. O craque que volta para casa, cabisbaixo, carrega a falha que muitos não toleram ver: a de que talento sem organização, tradição sem atualização e camisa sem jogo não bastam.
Mas, espera aí: Carlo Ancelotti também entra nesse tribunal público. A crítica à estratégia faz parte do futebol e precisa ser feita. O problema começa quando a análise vira descarga emocional. O treinador erra, o atleta erra, a direção erra. A derrota, quase sempre, nasce da soma desses elementos. Reduzi-la a uma pessoa é um conforto pobre. Serve para manchetes fáceis, não para reconstrução. O jornalismo precisa separar responsabilidade de linchamento, fato de fúria, diagnóstico de vingança.
Destarte, a coragem de agora não é fingir que nada aconteceu. É olhar a eliminação sem maquiagem. O Brasil não caiu porque lhe faltou uma frase de efeito. Caiu porque a Copa cobrou futebol, presença mental, comando, precisão e resposta. Os craques já voltaram para casa. O país também precisa voltar para dentro de si. Sem transferir toda a culpa para um pênalti, um técnico ou uma noite infeliz. A frase de Napoleão, verdadeira ou apenas atribuída, deixa uma lição dura: seguir em frente sem forças só tem valor quando se abandona a desculpa e se começa, enfim, a reconstrução.
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