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Mundo NOBEL de LITERATURA

O país de Halland é também a Noruega de Jon Fosse: o Nobel do silêncio que ganhou novos leitores no Brasil

Vencedor do Nobel de Literatura de 2023, Jon Fosse foi reconhecido pela Academia Sueca por suas “peças e prosa inovadoras que dão voz ao indizível”. Ele nasceu em 1959, Haugesund, na costa oeste da Noruega,

08/07/2026 11h30 Atualizada há 2 horas atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria de Cultura da Plataforma Nacional do Facetubes
Arte: Ginai FT
Arte: Ginai FT

Editoria de Cultura da Plataforma Nacional do Facetubes

Jon Fosse, romancista norueguês mostra um movimento raro: um Nobel de Literatura de leitura lenta, marcada por silêncio, repetição e tensão interior, voltou ao debate público fora do circuito estritamente acadêmico. Fosse não depende de tramas mirabolantes. A força está na forma como conduz o leitor por camadas de memória, perda, culpa, fé, morte e permanência.

Vencedor do Nobel de Literatura de 2023, Jon Fosse foi reconhecido pela Academia Sueca por suas “peças e prosa inovadoras que dão voz ao indizível”. Nascido em 1959, em Haugesund, na costa oeste da Noruega, ele escreve em nynorsk, uma das formas oficiais da língua norueguesa, e construiu uma obra que passa pelo teatro, romance, poesia, ensaio, literatura infantil e tradução. 

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Obra mais audaciosa de Fosse.

Hoje é citado pelo Nobel como um dos dramaturgos mais encenados do mundo, ao mesmo tempo em que sua prosa ganhou nova projeção internacional. No Brasil, o interesse cresceu depois do prêmio. Títulos como É a Ales e Trilogia, pela Companhia das Letras, Brancura e A casa de barcos, pela Fósforo, e Manhã e noite, pela Zain, ampliaram o acesso do leitor brasileiro a um autor que escreve a partir de espaços reduzidos: uma casa, uma estrada, um fiorde, uma lembrança, uma parede, uma ausência. 

A chave de leitura está no ritmo. Fosse trabalha com frases que retornam, imagens que se repetem, personagens que parecem presos a um ponto de origem. Em É a Ales, o silêncio das paredes não é simples efeito poético. É método narrativo. As coisas falam pela ausência. O que não se diz move o livro. Em Brancura, a figura enigmática que surge na paisagem branca leva a narrativa para uma zona entre sonho, morte e revelação. Em A casa de barcos, a obsessão do protagonista organiza uma escrita circular, carregada de angústia, ciúme e memória.

Esse modo de narrar explica por que Fosse divide leitores. Quem espera ação direta pode sentir lentidão. Quem aceita o compasso interno da obra encontra uma experiência literária próxima da oração, do teatro e da música. É isso! Você decide se quer ou não quer ler.

 

Na conferência do Nobel, intitulada A Silent Language, Fosse tratou da escrita como uma forma de escuta, associando linguagem e silêncio como forças centrais de sua criação. Essa ideia ajuda a entender por que suas histórias parecem menos interessadas em explicar o mundo e mais voltadas a escutar o que existe sob a superfície das palavras. 

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Obra de Fosse.

Manhã e noite, para quem quiser conhecer o autor, é a porta de entrada, talvez seja mesmo um dos caminhos mais claros para o leitor brasileiro. A obra acompanha extremos da existência: nascimento, velhice, morte e passagem. Não há espetáculo externo. O impacto nasce da simplicidade com que Fosse põe a vida diante de seu limite. A mesma força aparece em Trilogia, na travessia de um casal em busca de abrigo, e em É a Ales, onde tempo, memória familiar e ancestralidade se confundem numa prosa de aparência calma e fundo perturbador.

 A leitura, no caso de Fosse, exige outra disposição: menos pressa, mais atenção; menos busca por enredo, mais percepção de ritmo. É literatura feita de retorno, suspensão e escuta.

Mas há um alerta: Jon Fosse não oferece respostas fáceis. A graça de Fosse não está apenas no que ele conta. Está na maneira como transforma o quase nada em literatura.

 

Uma avaliação da Palestra de Fosse:

Na conferência oficial, Jon Fosse começa lembrando um episódio da adolescência. Durante uma aula, o professor pediu que ele lesse em voz alta. Sem aviso, foi tomado por um medo súbito, tão forte que o fez sair da sala. Depois, tentou justificar a fuga dizendo que precisava ir ao banheiro, sem convencer ninguém. A experiência o marcou. O medo de ler diante dos outros passou a acompanhá-lo. Mais tarde, ele entenderia que aquele episódio lhe ensinara algo decisivo: o medo havia arrancado sua linguagem, e ele teria de recuperá-la em seus próprios termos.

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Foi nesse ponto que a escrita apareceu como refúgio. Fosse começou a escrever poemas curtos e pequenas histórias. Ao fazer isso, descobriu uma sensação de segurança, o oposto do medo. Encontrou dentro de si um espaço reservado, uma espécie de território secreto de onde podia escrever aquilo que era apenas seu. Cinquenta anos depois, afirma continuar escrevendo a partir desse mesmo lugar, sem saber exatamente o que ele é, apenas sabendo que existe.

Na mesma conferência Fosse avança para uma distinção central: a diferença entre a linguagem falada e a linguagem literária. Para ele, a fala costuma carregar mensagens, argumentos, tentativas de convencimento. A literatura opera de outro modo. Ela não existe para informar. Ela cria sentido, presença e mundo. Um poema, uma peça ou um romance não se reduzem à comunicação; são universos próprios, nos quais o leitor pode entrar. Por isso, ele vê a leitura menos como transmissão de informação e mais como comunhão.

Ao falar de teatro, Fosse explica que descobriu nas pausas uma forma de expressão. Em suas peças, a palavra “pausa” tornou-se uma das mais importantes. Nela cabem aquilo que não pode ser dito, aquilo que não se quer dizer e aquilo que talvez seja melhor permanecer calado. O silêncio, em sua obra, não é vazio. É uma fala muda. Na prosa, as repetições exercem função parecida. Elas criam um ritmo por trás das palavras, uma linguagem silenciosa que sustenta o texto.

Fosse também afirma que escrever, para ele, é escutar. Ele não parte de planos rígidos. Senta-se para escrever e acompanha aquilo que parece chegar de algum lugar fora dele. Em certas ocasiões, sente que o texto já existe e que sua tarefa é apenas registrá-lo antes que desapareça. Às vezes, esse texto vem quase pronto; em outras, exige cortes, reescritas e procura paciente. Essa ideia aproxima sua escrita da música, experiência que marcou sua juventude antes de ele se dedicar inteiramente à literatura.

A conferência termina com uma reflexão sobre crítica, sucesso e permanência. Fosse recorda que seus primeiros livros receberam críticas duras, mas decidiu não se orientar por elas. Depois vieram boas resenhas, prêmios e reconhecimento. Ainda assim, manteve a mesma lógica: se não havia deixado as críticas negativas decidirem seu caminho, também não deveria deixar o êxito comandar sua escrita. O Nobel, nesse sentido, não muda o centro de sua prática literária.

No encerramento, Fosse menciona leitores que lhe escreveram dizendo que sua obra havia salvado suas vidas. Ele reconhece que sempre soube, de alguma maneira, que a escrita podia salvar alguém, talvez porque a literatura também tenha salvado a ele. A conferência se fecha com agradecimento à Academia Sueca e a Deus. O discurso não busca grandiloquência. Sua força está em transformar medo, silêncio, escuta e solidão em uma poética da linguagem literária. (Abaixo, o vídeo original, apenas em Inglês).

 

"Palestra do Prêmio Nobel: Jon Fosse, Prêmio Nobel de Literatura de 2023". 

Original Youtube

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