
Dino de Alcântara
CAMISA DE VÊNUS
Nos idos de 1981, quando nem se imaginava que um dia o mundo seria assolado por uma terrível doença: a aids, apenas uma farmácia de São Luís vendia a grande novidade para os homens que tinham muito receio de pegar uma gonorreia ou uma sífilis nos cabarés (ou bregas, como muitos chamavam as casas mais pobres): a chamada Camisa de Vênus. Essa farmácia era a Drogaria São Paulo. Ficava ao lado do então Hotel Ribamar, no Largo do Carmo.
De posse dessa informação – que a única farmácia que vendia tal produto era a São Paulo – Zé Grilo, que chegara de São Paulo, havia uma semana, se dirigiu, do São Francisco, onde morava com a sua mãe e os irmãos, para o centro da cidade.
Vinha com o objetivo de comprar um envelopinho com duas, exatamente como ele fazia em São Paulo, lugar, como se sabe, muito mais adiantado que a nossa cidade.
E para que o nosso Zé Grilo queria esse produto? Queria botar a cobra para fumar, segundo expressão que aprendera com um tio, o Lourival, homem que, por demais, conhecia os meandros da vida noturna em São Luís.
Assim, numa sexta-feira de tardinha, depois de dar uma volta na Rua Grande, passando por algumas lojas, tudo mais, encaminha-se para a Garapeira de Guará, onde toma uma garapa das boas. Saciado o estômago, dirige-se para a tal farmácia. Leva um susto. As letras L e O haviam caído, e os cabocos nem tinham visto que o nome ficava bastante estranho.
Ao entrar na farmácia, depois de um risinho malicioso, vai direto a um atendente, que já havia cruzado a barreira dos 60 anos e tinha cara de quem conhecia tudo da vida carnal da terra de Josué Montello.
Sem timidez, Zé Grilo pergunta se tinha a tal Camisa de Vênus, ao que o atendente diz que sim. E explica que só havia uma marca na cidade – a Eros. E tinha 4 tamanhos: P, M, G e GG, mas que só havia na loja as de tamanho M e G.
Zé Grilo, que o leitor não sabe, mas o narrador conhece bem, tinha, quando muito um centímetro a mais que Viriato Corrêa, isto é, devia ter um metro e quarenta centímetros.
Acostumado a tomar banho nos poços da ilha, nu, ao lado de muitos homens, o atendente dizia que conhecia pelo pé o tamanho do pênis do cidadão. E, ao olhar, o 752 da Vulcabrás que Zé Grilo usava – pontuação 35 –, achou que não faria a venda das tais Camisa de Vênus.
– Só tem essas duas mesmo?
– Só. Mas vai chegar um caminhão semana que vem. Aí vêm de todo tamanho.
Como Zé Grilo ficou pensando um pouco, o atendente, talvez querendo despachar o cabra, porque já entrava na farmácia uma moça por demais bonita, diz curto e groso:
– Olha, moço, só temos essas duas – M e G. Então acho que o senhor aguarda até semana que vem. É melhor, que o senhor leva a que dá certinho. Tá bom?
Zé Grilo não achou que estava bom. Tinha determinado que nessa noite estaria num cabaré.
Pensou mais um pouco:
– Não tem mesmo das outras, nem no depósito?
– Já lhe disse que não tem.
Pensou mais um pouco. Por fim, se decidiu:
– Pois me vê essa mesma. Vou dar um jeito. Vai ter que entrar direitinho esse corisco.
O atendente, com um risinho, foi até uma caixa que ficava atrás das prateleiras e pegou uma M, só achando que ficaria igual a um cofo de alqueire, quando se coloca uma mandioquinha dentro.
– Tá aqui, siô.
Ao olhar o “envelopinho” com as Camisa de Vênus, os olhos foram direto para a letrinha M. Balançou a cabeça, como a reprovar a atitude do atendente.
Depois, sereno, como a esconder a afirmação da moça por demais bonita que já estava ao lado, disse baixinho:
– Siô, essa não serve. Me dá a G.
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Teatrinho a Vapor
A CASA COM UMA VISTA LINDA
NERES – Professor, morador de Itapecuru, de mudança para São Luís. Está à procura de uma casa para alugar.
MAURO – Dono de uma porta-e-janela na Rua dos Afogados.
Cenário: Porta da casa na Rua dos Afogados.
A cena passa-se em 1985.
NERES (À porta da rua, espiando para todos os lados.) – Meu senhor, estava escrito no anúncio que a casa tinha a vista mais linda da cidade. Não estou vendo...
MAURO (Apontando para a casa da frente, falando baixinho para ninguém ouvir.)
– A vista costuma aparecer de tardinha.
NERES – De tardinha? Como assim?
MAURO (Falando ainda baixinho.) – A tais horas, Belinha, a moça do olhar mais lindo da cidade, fica à espreita na janela!
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